Na Câmara, vereadores ouvem Martinho da Vila na hora do hino nacional

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Assíduo frequentador da Câmara Municipal, o aposentado Ilton Andrade, o popular Nôca Bode, 73 anos, foi também protagonista de uma cena ontológica ocorrida na abertura de uma sessão em que ele participava na condição de vereador.

Ilton Andrade na Câmara Municipal; “aqui eu me divirto bastante.”

Nôca foi suplente de vereador na legislatura de 1972/76. Assumia a vaga sempre que os vereadores Juquita Dias, de Senhora do Carmo, e José dos Santos Cruz, o Sô Zinho, afastavam-se por algum motivo.

Ele virava edil pelo simples desejo de colaborar com a administração municipal mesmo sendo da oposição. Nôca era da Arena, partido de apoio à ditadura, e o prefeito era Virgílio Gazire, do MDB, da oposição consentida.

Naquele tempo, a função legislativa não era remunerada. Nôca diz que assumia por altruísmo e para se divertir. “Eu mesmo sendo da oposição, apoiava o prefeito quando o projeto era bom para a cidade”, recorda, embora não se lembre de nenhum projeto de sua autoria que tenha apresentado e sido aprovado. “Já faz tanto tempo, não me lembro mais”, desconversa, quando perguntado.

Mas ele não se esquece de um fato que protagonizou. E que entrou para o folclore do legislativo itabirano, dentre tantos outros fatos cômicos ocorridos por lá ao longo da história.

Naquele tempo, gravador de fita cassete era a grande novidade, tinha acabado de surgir. E ainda não era todo mundo que dispunha dessa modernidade tecnológica advinda com o Milagre Brasileiro.

Mas a Câmara Municipal, sempre ligada na “modernidade”, adquiriu um toca-fitas de última geração, substituindo o velho toca-discos. Com a novidade instalada, e no exercício da vereança nas horas vagas, Nôca estava sempre lá ouvindo uma” musiquinha para relaxar antes das sessões legislativas.”

Passava horas ouvindo música e examinando os projetos de lei que seriam apreciados na sessão plenária, que era para dar o seu voto “consciente”.

Pois bem, como ainda é costume na casa legislativa, antes de abrir a sessão o presidente da Câmara anunciou solenemente: “Fiquemos todos de pé, vamos ouvir agora o Hino Nacional.”

Com o patriotismo em alta naqueles anos de chumbo, e que infelizmente estão voltando com muita repressão, baionetas, bombas de gás lacrimogêneo, os vereadores se perfilaram, respeitosamente, virando-se todos para a bandeira nacional, salve, salve.

Foi então que, em alto e bom som, ao invés de tocar o hino nacional, soou nos alto-falantes na inconfundível voz de Martinho da Vila: “Canta, canta minha gente, deixe a tristeza para lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar.”

O vereador José do Carmo Lage, o mais patriota entre os edis, esbravejou ao ouvir o irônico Martinho da Vila cantar o seu sambinha no lugar do hino nacional: “Quem cometeu esse desrespeito com o nosso hino nacional? Joãozinho é o culpado por essa blasfêmia”, foi logo condenando.

Mas Nôca, justo que é, não deixou a culpa recair sobre o inocente Joãozinho, dedicado funcionário de carreira da Câmara. E assumiu: “Nobres vereadores, eu sou o culpado. Tirei a fita do hino para ouvir uma musiquinha. E a esqueci no toca-fitas”, desculpou-se.

Rapidamente, Joãozinho recolocou a fita com o hino no gravador e a sessão foi enfim aberta. Os vereadores seguiram votando os projetos do prefeito, com os situacionistas se posicionando a favor e a oposição fingindo que se opunha, tal e qual ocorre nos dias de hoje. A diferença é que agora os edis são muito bem remunerados na defesa dos seus interesses e de seus apaniguados.

E foi assim que, pelas mãos do vereador Nôca Bode, o comunista Martinho da Vila participou de uma sessão do legislativo itabirano. E entrou para o folclore da vetusta Casa legislativa.

Apelido

Segundo Ilton Andrade, o apelido Nôca Bode surgiu logo que ele se mudou para Itabira, ainda menino, vindo da fazenda Florença, em Santa Maria, onde nasceu. Como era craque em laçar boi e bezerro, funcionários do banco Mercantil pediram a ele para pegar um bode que andava solto, “sem dono”, pastando na região onde hoje é o bairro Bela Vista.

Time de futebol do Aquário. Entre os identificados pela reportagem estão: Nôca Bode, de barba, em pé, à esquerda, Jaiminho, Sérgio Gazire, Eduardo Maluf, Shel, Agenor, Pê, Nilo, Américo. Elder, e Luís Grisolia

Prestativo, Nôca foi logo mostrando o seu dote com o laço. Trouxe o bode e ganhou uns trocados. Mas o dono do bode descobriu a autoria do furto e veio atrás dele.

Para se livrar da culpa, o menino infrator foi logo entregando os receptadores, que tiveram de pagar o dono furioso pelo bode sacrificado. Do episódio veio o acréscimo ao apelido Nôca, que Ilton Andrade adquiriu ainda na fazenda Florença.

O ex-vereador se orgulha também de ter criado o time de futsal Aquário, em 1976. “Só da copa do Atlético fomos campeões 17 vezes. O time pioneiro era o Nilo, Shel, Cacá, Oswaldo, Ideraldo, Edilson Couto era o goleiro. O time existe até hoje”, conta, com orgulho.

 

 

 

 

 

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1 comentário

  1. cristina silveira on

    Viva o Nôca, que de bode nada tem. A última vez que estive com o Noca foi um susto de alegria, foi no estádio do VEC/Campestre pra ver o nosso ValerioDoce jogar. Foi uma surpresa enorme porque eu havia recebido a falsa notícia de sua morte. Foi com muita alegria que nos abraçamos. O Nôca é gentil, é bom papo. Viva o Noca, tio do Chico Karatê e do Luciano Kid. Noca, beijoca pro cê, fiquei feliz de reencontrar você aqui na Vila do Carlos.

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