Moradores do rio Tanque aprendem a caminhar com as próprias pernas

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Fundada em 2008, a Associação Comunitária Rural dos Moradores da Microrregião do Vale do Tio Tanque (Amorita) é um bom exemplo de que quando os moradores se unem em torno de objetivos comuns, as conquistas surgem e transformam a vida material e espiritual nas comunidades. A associação tem a sua prática comunitária inspirada na cultura da Universidade da Paz e na Ecovila de Findhorn, existente há mais de setenta anos no norte da Escócia.

Oficina de artesanato: terapia ocupacional e geração de renda (Fotos: Divulgação)

Conforme explica um de seus fundadores e incentivador, Sebastião Carlos de Oliveira Andrade, o Carlito, a associação é o instrumento necessário para manter e implementar relações sociais saudáveis. O objetivo é promover a melhoria da qualidade de vida dos moradores que vivem nas comunidades de Gomes, Pari, Ponte, Machado, Pereira e Capitinga – e que integram a associação.

O espaço é democrático. “Os Centros Comunitários são honrados como a sala de visita da comunidade, legitimados pela doação, onde a palavra flui neutra e corajosa”, explica Carlito Andrade.

As comunidades, por meio de diversas atividades, buscam alcançar autonomia financeira e o bem-estar social para toda a coletividade. Isso ocorre com a contribuição dos associados e também em parceria com os poderes públicos.

Artesã dos Gomes

Promovem também atividades que geram renda e promoção social dos moradores, como atividades artesanais, brechó com venda de produtos de qualidade a baixo custo. Os moradores estão também desenvolvendo o plantio experimental de alho e feijão na comunidade do Pari.

E assim, valorizam a terra onde nasceram e vivem, que são para eles o principal instrumento de trabalho. Afinal, é da terra que tiram o sustento e constroem as bases comunitárias para uma vida saudável, com os frutos compartilhados entre todos.

Prioridades das Comunidades

Com as chamadas Práticas Integrativas Complementares à Saúde (PICS) e à Educação (PISCEs), as comunidades definem o que querem e lutam para conquistar os seus anseios. A cultura local é valorizada e incorporada às práticas pedagógicas e também nas terapias que buscam melhorar a saúde e a educação dos moradores.

Benzedeiras e griôs, palavra abrasileirada do termo africano griot e que designa os moradores que detêm, preservam e contam a história oral de uma comunidade, tornam-se comunicadores e legítimos representantes das tradições locais.

Sempre em mutirão, as realizações são traduzidas em animadas festas da família (comunidade), como as que foram realizadas no mês de julho. A organização é comunitária e todos têm direito à voz, apresentando democraticamente as suas ideias.

Foi assim que recuperaram a capela da comunidade da Ponte. Em frente à capela está o cemitério, construído por escravos, onde há campas das Famílias Andrade, Cruz, Cabral, Figueiredo, Martins da Costa.

No espaço comunitário dos Gomes, moradores de todas as comunidades se reúnem para as para as aulas de patchwork e tear

A campa mais antiga é de 1887. “A capela antiga estava localizada dentro do cemitério, construída pela técnica de pau-a-pique. Como não resistiu ao tempo, foi substituída pela atual, construída em alvenaria”, conta Carlito Andrade.

Na comunidade dos Gomes, foi construído um centro comunitário em terreno doado por José Gregório, griot da comunidade. O centro é construído na forma do Octógono. Dispõe de auditório, cozinha comunitária, sala de artesanato, biblioteca, espaço para atendimento ambulatorial e banheiros masculino e feminino.

No local, são ministradas aulas de capoeira, dispondo também de uma biblioteca. No centro comunitário, 27 crianças e jovens participam de rodas de capoeira e aprendem a jogar xadrez.

“O ensino de capoeira e xadrez é uma forma de oferecer alternativa saudável para o resgate da autoestima dos jovens e crianças, reduzindo a vulnerabilidade social”, explica Teresinha Bethônico, outra apoiadora e incentivadora da Amorita e que, assim como Carlito Andrade, tem as suas raízes histórica e familiar na região.

Em julho deste ano, o centro comunitário foi ampliado e recebeu nova pintura. Para o mês de setembro, a comunidade está organizando com muito entusiasmo o Encontro de Cavaleiros, que acontece todos os anos.

Harmonia

Na comunidade do Pari o entusiasmo também é contagiante. O centro comunitário foi construído também no formato de um octógono, arquitetura que se observa também na comunidade dos Gomes.

O Octógono simboliza o compromisso fundamental da Amorita, e foi inspirado na Mandala da Ecovila de Findhorn, na Escócia, referência da UNESCO para a “Dimensão Comunitária Humana”.

Trata-se de uma política incentivada para resgatar a harmonia social, tendo por base a espiritualidade, cultura, educação e saúde integrais. Tudo isso, além de valorizar e respeitar meio ambiente, desenvolver a comunicação, a governança e a economia comunitárias.

O centro comunitário do Parí também dispõe de auditório, cozinha comunitária, espaço para o atendimento ambulatorial e a capela Nossa Senhora Aparecida. Está localizado onde havia um antigo cruzeiro, em terreno doado pelo fazendeiro João Andrade.

A madeira do centenário cruzeiro foi aproveitada para a construção do portal de entrada e da Mandala, uma homenagem aos ancestrais indígenas.

Em 2017, a Comunidade da Capitinga decidiu doar o Centro Comunitário para a Cúria Diocesana de Itabira-Coronel Fabriciano, para que seja destinado à implantação de uma capela. Como a Amorita, pelo seu Estatuto, respeita a autonomia comunitária, a doação foi aceita e legalizada.

Nos últimos sete anos, a Amorita tem realizado o Natal das Crianças, ocasião em que os adultos também são presenteados. Com patrocínio comunitário, a festa é itinerante e já foi realizada nas comunidades de Pari, Machado, Ponte, Pereira, Capitinga e Gomes.

Para saber mais

Acesse

https://www.facebook.com/amorita.itabira.mg/
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6 Comentários

  1. Parabéns pela matéria!!!!!
    Conheço um pouco do trabalho e da trajetória da AMORITA. As atividades desenvolvidas pelos moradores das quatro localidade que a compõem são bem organizadas, sendo as tarefas divididas e cada um cumpre seu papel. A base do trabalho é muito bem elaborada e levada aos moradores por Carlito Andrade, um profundo conhecedor das relações humanas e que funciona como um grande propulsor. Tem que se dar muito destaque também a moradores que abraçaram a causa desde seu início, como Renilda, Jadir, Izabel e Teresinha, e muitos outros. Por meio da Emater conseguimos fazer algumas atividades em conjunto ao longo de alguns períodos, e pude constatar a importância deste trabalho e de toda Amorita. Continuem assim e contem conosco!

  2. cristinica de cervantes on

    maravilhosas as pessoas da comunidade do rio tanque.
    lindas as artesãs.
    isto é o povo brasileiro. meu brasil brasileiro.
    a comunidade do rio tanque demonstra saber cidadão, são vencedoras (res)! e de quebra, pode contar com a presença do carlito andrade, que por pura fé na pessoa humana compartilha o seu saber.
    só as comunidades unidas, organizadas são capazes de romper com as injustiças sociais, sozinho ninguém pode.
    sou grata porque este compromisso real, fortalece o sentido de nação que há em mim e de resistência ao Golpe 16.
    sugiro a comunidade do rio tanque conhecer o joaquim de melo neto segundo, do instituto palmas, no ceará. vocês voltarão animados e confiantes de que escolheram o lado certo, o lado que fortalece a dignidade humana.
    no instituto tem pousada, restaurante, tem banco e moeda própria, pequenas fábricas de tudo que é necessário pra vida no território que(não é mais o território empobrecido e sim, de verdade, uma economia forte, crescendo sem fome e com letramento). é a economia solidária demonstrando claramente que é possível construir a Vida Boa. beijoca carlito e as companheiras (os) do rio tanque axé axé axé e amém também.

    • Muito a agradecer e muito animadora a sua declaração. Comprometimento mútuo para o bem comum de uma população rural sadia, a nos receber de porta aberta, cafezinho pronto e muitos abraços. A moeda não financeira, que denominamos Holón está em processo de implantação. Assim, a sintonia com o Instituto Palmas já está em bom caminho. Registramos o nome de Joaquim de Melo Neto, com quem aprenderemos muito, estou confiante. Muito a honrar a sua percepção.

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