Minério de Itabira está mesmo no fim, mas não exaure em dez anos, assegura diretor da Vale

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Carlos Cruz

O prefeito Ronaldo Magalhães (PTB) e o presidente da Câmara Municipal, vereador Neidson Freitas (PP), acompanhados de assessores, reuniram-se nessa quarta-feira (11), no Rio, com o diretor-executivo de Sustentabilidade e Relações Institucionais, Luiz Eduardo Osório, da Vale, para tratar da projeção da exaustão das minas itabiranas.

De acordo com relato do vereador, a comitiva itabirana ouviu do diretor-executivo da Vale a informação de que o relatório Form20, divulgado aos acionistas da Bolsa de Nova Iorque, apresenta apenas as reservas e os recursos comprovados e auditados. E que que esses devem mesmo exaurir em dez anos.

Porém, a empresa assegura que Itabira dispõe de mais recursos que podem ser viabilizados no futuro, agregando mais tempo ao horizonte temporal de exaustão de suas minas. (Sobre esse horizonte de exaustão mineral, leia mais aqui e aqui).

Comitiva de Itabira se reuniu ontem no Rio com o diretor-executivo de Sustentabilidade e Relações Institucionais, Luiz Eduardo Osório, para tratar do presente e futuro de Itabira (Foto: Divulgação)

Na reunião, não se falou expressamente em “descomissionamento de minas”, mas foi exatamente essa a pauta do encontro entre dirigentes da Vale e de Itabira. O tema entra definitivamente na ordem do dia na cidade – e é regulamentado pela Deliberação Normativa 127, do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam).

É fato que o futuro fechamento das minas deixa apreensivos moradores e investidores que temem perder capital, caso Itabira se transforme em uma cidade fantasma – um espectro que assombra os seus habitantes antes mesmo de a mineradora Vale iniciar a exploração, em larga escala, do minério do Cauê, em 1942.

“A Vale nos disse que oportunamente irá apresentar dados que indicam ser possível a exploração das minas por mais tempo, mas que não devemos nos esquecer que a exaustão está mesmo se aproximando, mesmo que isso não ocorra daqui a dez anos”, conta o presidente da Câmara.

“Em 2001, a prova de minério apresentada à Bolsa de Nova Iorque, segundo nos disse o diretor da Vale, previa que a exaustão ocorreria em 2014. Hoje, as reservas e os recursos provados asseguram a mineração até 2028, mas, com certeza, não irão exaurir nessa data”, confia o vereador.

Ainda de acordo com Neidson, na reunião ficou acertado que nos próximos dias a empresa irá se posicionar sobre o relatório Form20, devendo apresentar quais são as perspectivas para a continuidade da empresa no município.

Itabira pode ter ainda um quarto ciclo da mineração, adianta a Vale

Mineradora promete apresentar nos próximos dias o seu planejamento estratégico para as minas de Itabira, para a cidade não ser surpreendida quando ocorrer a exaustão mineral (Fotos: Carlos Cruz)

De acordo com o vereador, na reunião ficou definido que a empresa apresentará o seu planejamento estratégico em reuniões que serão em breve agendadas com a sociedade itabirana. “A proposta é criar uma governança compartilhada para tratar desses assuntos pendentes.”

Para isso, diz o vereador, a Vale irá divulgar as informações sobre as pesquisas geológicas que podem apontar a viabilidade de se explorar outros recursos que não foram divulgados no relatório enviado à Bolsa de Nova Iorque. Isso, pelo fato da viabilidade econômica e ambiental desses recursos não ter sido ainda comprovada e auditada. “A Vale aposta que Itabira terá ainda um quarto ciclo da mineração”.

Como se sabe, o primeiro ciclo teve início em 1942, quando a empresa começou a extrair a hematita do Cauê, minério com cerca de 70% de ferro. Já o segundo ciclo teve início na década de 1970, com a construção das usinas Cauê e Conceição, passando a concentrar o itabirito mole, minério com menor teor de ferro, cerca de 40%.

E o terceiro ciclo foi inaugurado recentemente, com o aproveitamento do itabirito compacto, também com teor de 40% de ferro. Esse minério até recentemente era considerado material estéril – e que agora foi viabilizado industrialmente, sendo moído antes de seguir para as usinas de beneficiamento.

E o quarto ciclo, de acordo com a empresa, deve ocorrer com o reaproveitamento dos rejeitos de minério depositados nas barragens, como também com a viabilização de outros recursos existentes nas minas de Itabira.

Na reunião com os dirigentes itabiranos, a Vale confirmou que estuda a viabilidade de beneficiar minérios de outras localidades nas reformadas e ampliadas usinas de Itabira, que empregam tecnologias com o que há de mais avançado tecnologicamente no mundo em concentração de minério de ferro. Esses minérios, caso seja viabilizada essa possibilidade, serão extraídos de suas reservas existentes em Conceição do Mato Dentro, Morro do Pilar e Guanhães.

Parceria para implantar campus da Unifei deve ser repactuada, propõe vereador

Neidson Freitas reivindica a repactuação da parceria público-privada para implantar o campus da Unifei

Na reunião, a Vale propôs a constituição de uma comissão mista para discutir as medidas compensatórias, a exemplo da sempre adiada implantação de alternativas econômicas à mineração.

Neidson Freitas conta que aproveitou a oportunidade para apresentar a necessidade de se repactuar a parceria público-privada constituída para implantar o campus avançado da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), o que vem ocorrendo desde 2008. “A Vale investiu cerca de R$ 40 milhões na aquisição dos laboratórios, mas só isso não é suficiente.”

Ocorre que, pela projeção de arrecadação dos royalties do minério nos próximos anos, mesmo que seja alocada a sua totalidade na Unifei, a Prefeitura não teria como bancar o investimento de mais de R$ 500 milhões para concluir as obras do campus.

“Esperamos que a Vale participe com mais recursos. A empresa ficou de estudar e apresentar um posicionamento sobre a proposta de repactuação.”

Outras reivindicações

O prefeito Ronaldo Magalhães, segundo informa o presidente da Câmara, adiantou aos dirigentes da Vale algumas das reivindicações de Itabira para assegurar a sua sustentabilidade após a exaustão de suas minas.

Além de investir no Parque Tecnológico, acoplado ao projeto universitário da Unifei, Magalhães pede também que a Vale atenda a histórica reivindicação de se construir um aeroporto, que é para melhorar a logística do município.

Nessa mesma linha, reivindica a instalação de um “porto seco”, para um melhor aproveitamento do ramal ferroviário da Estrada de Ferro Vitória a Minas.

Uma outra reivindicação, que não foi apresentada, mas que pode perfeitamente entrar na pauta das compensações pelo fim do minério, é para que a Vale, enfim, cumpra a promessa sempre protelada de se instalar em Itabira uma usina de pelotização.

Água para isso, se não forem suficientes as outorgas que a empresa já dispõe no município, que seja transposta do rio Tanque. Ou que se aproveite a água do ribeirão São José, que está mais próxima da estrada de ferro, onde a usina pode ser instalada.

Reivindicações não faltam. Resta saber se haverá vontade política e recursos necessários para reverter essa cisma itabirana com a historicamente anunciada derrota incomparável.

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1 comentário

  1. Moisés Damião de Souza on

    “Reivindicações não faltam. Resta saber se haverá vontade política e recursos necessários para reverter essa cisma itabirana com a historicamente anunciada derrota incomparável”.
    Cisma que se materializa quando passamos pela Vila Paciência e sentimos a dor da desolação daqueles lotes vagos, antigas residencias com alguns bravos moradores que não sucumbiram à inesplicável ação da Vale na compra e demolição de várias moradias daquela comunidade. A Vila Paciência virou uma Vila semifantasma.
    Se não era prá minerar pq demoliu? Por que não devolver os imoveis ao municipio e revitalizar toda a região, vegetação, comércio e tudo mais?
    Moisés, morador do Campestre e Ex morador da Vila Sagrado Coração de Jesus.

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