Militares que mataram Victor Jara, cantor e compositor chileno, são condenados

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Lenin Novaes* 

Os militares chilenos assassinos do professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista político Victor Jara – ele teve a língua cortada e a mãos decepadas, além de levar 44 tiros – foram condenados a 18 anos de prisão, no dia 3 de julho. São eles: Hugo Sánchez Marmonti, Raúl Jofré González, Edwin Dimter Bianchi, Nelson Haase Mazzei, Ernesto Bethke Wulf, Juan Jara Quintana, Hernán Chacón Soto e Patricio Vásquez Donos. O oficial Rolando Meno foi condenado a cinco anos por responsabilidade em encobrir o assassinato. A condenação também foi aplicada pela morte do dirigente comunista Littré Quiroga, alvejado com 23 tiros.

Victor Jara foi assassinado pela ditadura chilena (Fotos: Google)

Os assassinatos de Victor e de Littré ocorreram em setembro de 1973, dias após o golpe civil-militar chefiado pelo general Augusto Pinochet contra o presidente socialista e líder da Unidade Popular Salvador Allende. Ele foi sequestrado na Universidade Técnica do Estado onde era professor de Jornalismo e levado para o Estádio Chile – o complexo esportivo, hoje, tem o nome Victor Jara –, onde militares mantinham centenas de prisioneiros. Num dos vestiários, transformado em câmara de tortura, o artista sofreu os golpes e os tiros que lhe causaram a morte.

No ato de barbárie, após ter a língua cortada e as mãos decepadas, os assassinos exigiam que Victor Jara tocasse o violão e cantasse. Também o advogado e militante comunista Littré Quiroga sofreu uma infinidade de torturas e violações sexuais por parte dos militares. Os corpos de Littré e Victor Jara foram encontrados no dia 16 de setembro de 1973 junto com outros quatro cadáveres no cemitério metropolitano de Santiago.

Durante anos, chilenos realizaram as famosas “funas”, que eram manifestações em frente as casas ou nos locais de trabalho dos torturadores, expondo os criminosos, mas sem vê-los punidos por seus crimes. Hoje, ver os assassinatos condenados, dá mais sentido a essa sistemática ação de repúdio e de lembrança.

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Victor Hara com crianças em bairro pobre do Chile. “Canto, qué mal me sales cuando tengo que cantar espanto». Antes de ser assassinado, ele teve as mãos cortadas, como uma advertência: no te matamos sólo a ti, sino también matamos a tu guitarra.

Víctor Lidio Jara Martínez nasceu dia 28 de setembro de 1932, em San Ignacio, Ñuble, no Chile, sendo assassinado em 16 de setembro de 1973, aos 40 anos de idade. Tocava guitarra clássica e liderou o movimento da Nueva Canción Chilena, que gerou uma revolução na música popular de seu país durante o governo de Salvador Allende. Era filho dos camponeses pobres Manuel Jara e Amanda Martínez. Amanda era grande conhecedora da cultura popular. Autodidata, tocava violão e piano, além de cantar canções folclóricas em casamentos e funerais de sua cidade natal. Manuel era trabalhador braçal, analfabeto e queria que os filhos trabalhassem o quanto antes, em vez de irem à escola. Víctor tinha quatro irmãos: Maria, Georgina, Eduardo e Roberto.

Victor Jara, aos 21 anos, entrou no coro da Universidade do Chile, participando na montagem de Carmina Burana, começando, assim, o seu trabalho de pesquisa e compilação folclórica. Três anos depois fez parte da companhia de teatro Compañía de Mimos de Noisvander e começou a estudar atuação e direção na Escola Teatro da Universidade do Chile. Em 1957 entrou para o grupo de cantos e danças folclóricas Cuncumén, onde conheceu Violeta Parra, que o encorajou a continuar na profissão.

Com 27 anos dirigiu a primeira obra de teatro, Parecido a la Felicidad, de Alejandro Sieveking, encenando-a por vários países latino-americanos. Como solista do grupo folclórico gravou o seu primeiro disco, Dos Villancicos. Participou como assistente de direção na montagem de La Viuda de Apablaza, de Germán Luco Cruchaga, cujo diretor era Pedro de la Barra, e dirigiu a obra La Mandrágora, de Machiavello.

Em 1961 compôs a sua primeira canção, Paloma Quiero Contarte, continuando o seu trabalho como assistente de direção na montagem de La Madre de los Conejos, de Alejandro Sieveking. Ano seguinte dirigiu a obra Animas de Día Claro, também de Sieveking.

Em 1966 gravou o seu primeiro disco, Víctor Jara. No ano seguinte gravou os discos Víctor Jara e Canciones Folclóricas de América, com o grupo Quilapayún. Em 1969 montou Antígona, de Sófocles para a Companhia da Escola de Teatro da Universidade Católica. Com a canção Plegaria a un labrador ganhou o prêmio do Primeiro Festival da Nova Canção Chilena. Envolveu-se na campanha eleitoral da Unidade Popular e gravou o disco Canto Libre.

Nomeado embaixador cultural do Governo da Unidade Popular, em 1971 compôs, com Celso Garrido Lecca, a música para o ballet Los Siete Estados, de Patricio Bunster. Com Violeta Parra e Inti-Illimani ingressou no Departamento de Comunicações da Universidade Técnica do Estado.

Uma das mais conhecidas canções de Victor Jara é Te recuerdo Amanda.

“Te recuerdo Amanda

La calle mojada

Corriendo a la fábrica

Donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha

La lluvia en el pelo

No importaba nada

Ibas a encontrarte con él

Con él, con él, con él, con él, con él

Son cinco minutos

La vida es eterna en cinco minutos

Suena la sirena

De vuelta al trabajo

Y tu caminando

Lo iluminas todo

Los cinco minutos

Te hacen florecer

Te recuerdo Amanda

La calle mojada

Corriendo a la fábrica

Donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha

La lluvia en el pelo

No importaba nada

Ibas a encontrarte con él

Con él, con él, con él, con él, con él”.

*Lenin Novaes é Jornalista e produtor cultural. É realizador do Concurso Nacional de Poesias para Jornalistas, em tributo ao poeta e Carlos Drummond de Andrade; autor da biografia da cantora Elza Soares, Cantando para não enlouquecer, com José Louzeiro.

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