Meu boteco (copo sujo) preferido, minha casa fora de casa

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*Rafael Jasovich*

Bar, boteco, botequim, restaurante, cada coisa em seu lugar e como achamos o nosso segundo lar

Quando eu me mudei (mudança forçosa nos idos de 1996) de Buenos Aires para São Paulo, previ que sofreria horrores em uma cidade cinza, apressada e, sacrilégio!, sem tempo para a saideira.

Tinha a certeza de que nunca mais seria feliz. Como poderia sê-lo, se jamais iria encontrar um boteco de verdade, com alma, para chamar de meu?

Bar do Nilo, no bairro Pará, formou gerações de notívagos. No destaque o histórico armazém de Juquinha Cabral que virou boteco e sobreviveu até recentemente (Fotos: Eduardo Cruz)

Não demorou uma semana.

Um amigo de alma caridosa me guiou, entre as ofertas de restaurante week e bares para ver e ser visto em diferentes bairros, até aquele que viria a ser minha salvação.

Era o bar do Zé, na rua Pamplona, mais um “copo sujo” que um boteco. Cerveja estupidamente gelada é obrigação, e lugares que não a servem assim deveriam perder o alvará de funcionamento.

Não tinha tira-gosto só moela com alho e cheiro verde, mas aos sábados alguém da turma levava um peixe, ou um frango ou qualquer outra coisa que era feita e devorada por nós.

Lá pelas 4 da tarde, tínhamos começado as 10 da manhã, o Zé ia embora, deixava a chave com o bicheiro do bairro e continuávamos bebendo e anotando a nossa despesa.

Pose para beber no antigo bar do Tampinha, também no bairro Pará: lembranças

Quando eu era criança e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, até imaginava que podia ser médico, advogado ou jornalista. Mas, sempre, fazia a ressalva: “depois que eu me aposentar, vou ter um boteco”.

É fato que tanto botecos quanto bares e restaurantes servem, pelo menos em teoria, boa comida, cerveja gelada e têm bom atendimento. Mas apesar das semelhanças, a minha parca sabedoria infantil já sabia: há um abismo de alma e espírito que torna os espaços bem distintos entre si.

À margem do self-service aquecido em banho-maria, os botecos são os últimos românticos.

Helton com o compositor Genésio Reis: tradição à casa retorna (Foto: Divulgação)

Costumeiramente são empresas tocadas por parentes – a mãe comanda a cozinha, o pai gerencia o caixa, o filho recebe os clientes pelo nome e com um abraço –, os botecos também tem a tradição de transformar clientes em parte da família.

Perguntas e frases como “E fulana?”, “Tá sumido! Peraí que já já colocamos o papo em dia” ou “Isso aí não tem. Mas hoje tá saindo uma carne de panela que olha…” fazem parte do cotidiano da mais brasileira e democrática das instituições boêmias.

“O boteco é ressonante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele”. Nelson Rodrigues

Ponteio de viola no boteco de Zé Agostinho, Cabeça de Boi

É no boteco que amizades se fundam e se perpetuam. É nele que o futebol floresce e as provocações têm eco. É ali que casamentos começam, com risinhos charmosos e juras de amor, e também é nele em que se acabam – entre o resquício do perfume errado no colarinho e o choro inconsolável da fossa dos arrependidos.

Perdoo quem acredita que estou fazendo uma defesa exagerada demais para lugares frequentemente apelidados de sujinhos. A linguagem e a nossa capacidade de acumular cultura – só podem ser vividas em sua plenitude em um bom boteco.

Outro boteco em Cabeça de Boi

Quer lugar melhor para sermos seres sociais, políticos e onívoros? O Aurélio, com a imaginação estéril que só dicionários conseguem ter, diz o seguinte sobre os botecos:

Boteco². [ Derivação Regressiva De botequim.] Substantivo masculino. 1. Brasil Substantivo Familiar e/ou depreciativo V. botequim. 2. Brás. A Barraca que se arma em volta dos barracões das feiras. (Aurélio, 1999)

Agora que eu já abri as portas de um boteco, é hora de vocês participarem aqui nos comentários: qual é o boteco que mora no seu coração e o que ele significa para você?

*Rafael Jasovich é jornalista, advogado e botequeiro

 

 

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8 Comentários

  1. Cristina Silveira, Sem Esperanza em

    O meu Boteco pra sempre, é o Boteco do Nilo. Saudade de mim e de todos com quem compartilhei noitadas memoráveis. Viva eu, Viva Tu e para sempre Viva o Nilo Almeida cantando Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa. Beijoca Nilo.
    PS. Devia ter uma estátua do Nilo na Pracinha do Pará.

  2. Moisés Damião de Souza em

    O meu é o Boteco do Teco, oficialmente registrado como Bar do Teco, mas se a alma é de Boteco então é Boteco. Fica aqui ao lado da minha casa. Dois oitis dão sombra e refresco nas tardes ensolaradas e amenizam o calor nas noites. Aqui se come bem a deliciosa costela gratinada, o joelho de porco frito e outros pratos especiais. Não faltam os drinks, a cerveja gela e a minha bebida preferida, a caipirinha.
    Moisés, Campestre.

  3. Gosto de botecos… aqueles com mesa de bilhar copo sujo (limão e sal congelado na borda)… amendoim, azeitonas, frango a passarinho, batata frita, petisco de carne com queijo. Pra não ser politicamente correto cerveja gelada e cigarros.

  4. Meu boteco preferido foi o Bar do Culinha em Florestal-MG onde aprendi a beber as primeiras branquinhas. Hoje em Itabira quase não vou mais a botecos, mas o bar do Helton é excelente, se é que podemos chamar ele de boteco ou restaurante rsss

  5. Osmar Trindade em

    Belíssima Matéria, inclusive o Bar do Sô Agostinho em Cabeça de Boi (vilarejo de Itambé do Mato Dentro) consegue ser mais do que um bar para mim… tenho nele um templo da boa música e da arte que do nada brota naquele ambiente; trazidos ás vezes pelas mãos do Sô Agostinho, pessoa a qual tenho grande admiração, outras pelas mãos dos visitantes que sempre por lá passam e apresentam sua arte seja na viola caipira, violão, poesia etc… Feliz em ter achado essa matéria hoje. Grande abraço.

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