Meio Espírita

0
Compartilhe.

Marina Procópio de Oliveira*

Já dizia Shakespeare, perdido nos estertores finais da Idade Média, que há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

De lá até aqui, a ciência afocinhou por mundos e fundos e, de tanto descobrir, acabou nos deixando com uma estranha sensação de que os mistérios, na verdade, já não são tantos assim.

Já sabemos, por exemplo, que o mundo se originou de uma explosão cósmica e que nossos ancestrais são os simpáticos macacos, cujo DNA herdamos, praticamente intacto. Não há dúvidas de que nadamos num universo, não sei se finito ou infinito, suspensos pela gravidade e nem de que o sol é só mais uma estrela: e as estrelas, em verdade, desmedidos sóis.

Potentes telescópios nos revelam o antes obtuso e oferecem aos incrédulos, inclusive, a visão do mundo já extinto. A física quântica afiança que não há vácuo absoluto e que estamos permeados de Nada, sem deixar de dizer que o Nada pesa mais do que tudo o que existe.

Que diria Shakespeare, perdido na vasta clarividência do século XXI?

– Ahhhh????

Se for isto o que ele diria (o que eu duvido) estaríamos nós dois, finalmente, juntos. E deslocados.

Só sei que estamos aqui, no meio do Nada, nesse lindo, enorme e ínfimo planetinha que, por acaso, deu origem a vida e, o pior, a vida pensante, e, pior ainda, à minha vida pensante: que não pensa com tanta profundidade, porque é muita profundidade, mas que pensa, para o bem ou para o mal.

Pensa, come, dorme, bebe com os amigos, visita os familiares, corta o cabelo, namora, faz ginástica obrigatória, passa creme no rosto, faz as unhas, paga as contas, trabalha e vê o tempo relativo passando demasiado rápido, enquanto vai vivendo suas aventuras e a terra gira sem que a gente perceba nem mesmo um leve balanço.

Perdida na clarividência do século XXI, a única coisa que para mim ainda soa lógica é que estamos permeados de mais mistérios do que sonha a nossa vã ciência.

E é neste ponto que começa nossa história: ela se inicia com uma incontingente dor nas costas, passa por todas as vértebras da coluna, atinge cada nervo que trespassa os músculos, irradia-se para o coração e o transpassa, alcançando o improvável terreno da metafísica.

Dores nas costas sempre foram meu grande mal. Ortopedistas, já havia procurado todos (na verdade, ainda não sei bem para o que eles servem); fisioterapeutas, idem, com algum alívio temporário e o retorno da dor depois de uns três dias de findas as sessões; o desespero já havia me levado dos analgésicos e antiinflamatórios ao shiatsu, massagem chinesa, coreana, japonesa, russa, com bambu, cotovelo, pés, água quente, ioga, acupuntura, alongamentos com as mais diversas denominações e nada, a dor nas costas estava sempre lá, como um espinho entre os músculos, só podia ser um carma e a dor se incorporando, sem minha permissão, vindo pra ficar – eu pensava – como um carma (bobagem de carma).

Faria qualquer coisa pra ela parar. Qualquer coisa. E foi na busca desesperada pelo alívio daquela dor cármica que acabei parando numa massagista espírita.

Eu não acredito em espíritos, mas naquela altura, tampouco em ortopedistas, fisioterapeutas ou massagem com bambu e, no entanto, havia me submetido a tudo isso, e inúmeras vezes, de bom grado. Sempre era uma nova chance de me ver livre do malfadado e constante incômodo, que, para ser bem sincera, estava me deixando com uma vontade louca de, no mínimo, conversar com Deus.

E tinha mais uma vantagem: a massagem era barata e ficava pertinho da minha casa.

Assim, lá fui eu, com toda boa vontade que esse mundo me deu.

Chegando à portaria do prédio indicado, fui atendida pela própria massagista, uma moça pequenina, um pouco roliça e de cabelos claros, cortados na altura do pescoço. Estava trajada de branco apenas, sem qualquer outro ornamento. Feitas as devidas apresentações, fui encaminhada a um quarto perfumado, em tons de lilás, em cuja mesa havia uma jarra de água da qual fui impedida de beber um gole (o dia estava muito quente), sob a explicação de que se tratava de uma água para captar maus fluidos.

Imaginei aquela água inundada de maus fluidos, vi sua cor invisível estranhamente verde e gosmenta e logo me afastei da jarra, diante do estranho impulso de jogar fora a água já que, se houvesse cumprido seu trabalho, devia estar saturada, pois era fim de tarde e muita gente havia passado por ali e, com certeza, deixado na água tantos maus fluidos quantos os que emanavam de minha coluna.

Caverna de quartzo rosa (Fotos: Stockfresh)

Sob a recomendação da massagista, despi-me quase completamente e me deitei na cama; a massagem era boa, não havia dúvidas. Massagens são sempre deliciosas, mesmo quando não são feitas por especialistas. E eu já estava ali, quase satisfeita só com a massagem, conformada com a dor que insistia em não passar, quando a massagista resolveu colocar sobre o local que doía um quartzo-rosa.

Olhei o cristal duro e frio. Sem resistência, entreguei as costas. Por que não? Por ali já haviam passado coisas bem mais estranhas. A pedra de quartzo-rosa, retirada de uma pequena fonte na sala, se não fizesse bem, também não iria fazer mal. Assim, deixei que Francisca – era esse o nome da massagista – a depositasse sobre um dos muitos “trigger points” que haviam feito moradia nos músculos próximos a minha coluna.

Só que o cristal (ou eu, não sei bem) começou a se aquecer. Parecia que minhas costas ferviam, como os gêiseres do Yellowstone. E era bom, eu não podia negar, muito embora um pouco assustador: não bastassem todas as repressões que havia em minha cabeça, senti vivamente que nas minhas costas existiam gêiseres ocultos, prontos, talvez, para entrar em erupção. E a pedra os sugou, como um buraco negro cor-de-rosa. Quando a massagista a retirou das minhas costas, os pontos de tensão já não estavam mais lá.

Olhei embasbacada o quartzo. O que tinha acontecido? A pedra sólida e fria se aquecera sobre as minhas costas tão rapidamente que parecia estar viva. Seria somente aquela? Seriam todas? Francisca me garantiu que o cristal de quartzo-rosa tinha aquele efeito – por si só – e que qualquer um poderia usá-lo, quando quisesse, com os mesmos benefícios.

Duvidei e, por isso mesmo, ela me ofereceu o quartzo de presente. Ensinou que bastava lavá-lo, aquecê-lo ao sol (para recarregar suas energias) e depois colocá-lo em qualquer lugar onde a energia estivesse estagnada. A pedra faria seu trabalho.

Ah! Era isso, então. Sem mágica, sem mistérios. Simplesmente uma propriedade do cristal. Muito embora eu nada entendesse sobre a matéria, qualquer cientista me explicaria seus efeitos. Só sei que saí dali desejando morar numa caverna de quartzos-rosa. Finalmente eu tinha o toque de Midas entre minhas mãos.

Ao final da sessão, Francisca informou que também seria importante energizar a pedra com as mãos e, se possível, pedir uma ajuda aos espíritos para que ela fizesse seu trabalho.

Acenei com a cabeça. Mas essa não era a minha área. Minhas mãos não tinham energia suficiente, e nem minha fé. Somente o quartzo importava. Levei a pedra pra casa feliz. Estava derrotado o gigante Golias.

A partir de então, passei a carregar o mineral comigo. Ele estava em todos os lugares: no quarto de trabalho, no de dormir, em frente à televisão, na mesa da cozinha. Eu gostava de vê-lo ali por perto, emanando suas positivas energias invisíveis sobre as minhas, nem tão positivas assim.

Sempre agarrada ao quartzo resolvi, num fim de semana, colocar seus poderes mágicos em funcionamento. Levei-o para a casa de meus pais. Pretendia usá-lo em mim, neles, nos cães, em qualquer lugar no mundo onde doía.

Aproveitei o dia de sol para energizar a pedra. Queria seu máximo efeito. Lavei-a, deixei-a secar ao sol e depois de umas três horas achei que o cristal já estaria no seu mais alto grau de energia. Peguei o quartzo-rosa, coloquei-o sobre os músculos próximos de minha escápula direita e esperei, ansiosa pelo resultado.

Mas não houve nenhum. A pedra não se aqueceu. Mudei-a de lugar, coloquei-a de novo ao sol, deitei sobre a pedra, lavei de novo, aqueci e nada. O quartzo não se movia (se assim posso dizer). Todas as minhas tentativas e manobras foram vãs. A pedra voltava ao seu estado original: não passava de um mineral sólido, duro e sem vida, sem nenhum caráter mágico ou capacidade curativa; um belo quartzo-rosa, mas frio e inútil para meus propósitos. Deixei-o ao sol, desprezado. Ficaria ali, enfeitando o jardim. Era o fim da minha caverna cor-de-rosa.

Vencida na labuta com o cristal, deitei-me ao sol, sobre a grama, conformada. Por distração, comecei a olhar o jardim em volta de mim. O sol batendo em minhas costas e o vento que passava pela minha pele foram aos poucos amansando tudo. A sombra do limoeiro protegia meu rosto e, inundada por um calor dócil, acabei entrando numa espécie de meditação involuntária, um entorpecimento de olhar as coisas sem realmente vê-las, miragens: os cães, a horta, os bichinhos da grama, a galinha e seu séquito de filhotes ciscando perto de algumas folhas mortas.

E nesse olhar sem olhar vi, inadvertidamente, uma doença se apossando dos filhotes da galinha. Seus bicos e pés apresentavam protuberâncias rugosas e escuras. Conhecia aquela doença. Eu, como minha mãe, já havia perdido várias ninhadas por não reconhecer o mal a tempo. Acordei de meu entorpecimento.

Levantei-me e fui atrás de minha mãe. Certamente ela não tinha observado que os pintinhos estavam ficando doentes e a doença avançava, sem freios.

Eu confiava cegamente em minha mãe no trato com as galinhas. Afinal, sempre a vira, toda a minha vida, cuidando do galinhame com devoção; levantava pelas madrugadas para retirar filhotes que não conseguiam quebrar seus ovos, buscava para eles diferentes espécies de alimento, folhas arrancadas em sacolões ou nas hortas dos amigos e vizinhos, cuidando deles como se fossem pequenos filhos seus. As galinhas de minha mãe eram as mais bem cuidadas que eu conhecia.

Tinha certeza de que ela saberia a cura para a doença dos filhotinhos.

E sabia! Sem titubear, ela me pediu que apanhasse os pintinhos, lançou mão da creolina que estava guardada no quarto de despejo e disse que deveríamos colocar algumas gotas do desinfetante nas crostas que apareciam nos bicos e pés dos filhotes. A substância faria o trabalho de extirpar a doença.

Parti para a ação. Capturei todos os pintinhos, coloquei-os em um cesto e começamos o tratamento.

O primeiro pintinho, logo depois de tratado e solto, deu dois passos cambaleantes e caiu no canteiro, tremendo as asas e pés, ofegante e parecendo perder a vida.

Minha mãe já tinha começado o tratamento do segundo. Alertei. “Mãe, o filhote está morrendo, você tem certeza de que é creolina mesmo”?

E minha mãe impassível, senhora de si. “Eles levantam, parece que vão morrer, mas daí a pouco se recuperam”. E já pegava o terceiro, o quarto, quinto, numa rapidez fatal, colocando-os quase inertes no canteiro de verduras.

Eu olhava os pequenos filhotes. Moribundos, jaziam no chão com os bicos abertos, as asas caídas, tremendo sem ar, com os olhos fechados em agonia. Seria um milagre maior do que o milagre do cristal de quartzo-rosa se algum deles se levantasse dali ainda com vida.

Um deles, o menor, morreu minutos depois. Seguiu-se a morte do segundo, do terceiro, do quarto. Todos estavam morrendo. E minha mãe, entre atemorizada e surpresa, sem entender porque o remédio tinha sido fatal daquela vez, ia pegando um a um os pequenos defuntos e os enterrando, numa cova rasa que abriu no terreiro. “Pelo menos não vão sofrer com a doença”, dizia ela, resignada.

Ainda estertoravam três deles. Resolvi pegar um, talvez por estranho. Era de um cinza pálido, cor que eu nunca tinha visto nesses animais, geralmente multicoloridos.

Enrolei-o nuns trapos velhos. Ele tremia. Lembrei-me de que a massagista tinha dito que para a cura, além da pedra, era necessária a oração e o uso da energia das mãos.

Então seria assim. Rezei para São Francisco. Coloquei minhas mãos sobre o pequeno animal, enviando energias que eu nem mesmo acreditava que tinha, pedindo aos espíritos que nem supunha existir que o salvassem, enquanto assistia, apática, aos outros últimos filhotes morrerem.

Pintinho cinza, sobrevivente

O pintinho tremia. Seus olhos permaneciam fechados, seu corpo encharcado, como se inundado por uma febre fatal. Mas ainda resistia. Sem nada mais a fazer, agarrava-me ao último recurso: a fé que eu não tinha.

Aconchegados um ao outro na escada que dava para o galinheiro, ele entre as minhas mãos e os velhos farrapos, nesta posição ficamos, por um tempo inarrável.

E talvez reconfortado por minha fé inexistente, o pequeno filhote começou a se acalmar entre as minhas mãos. Seu tremor diminuía e ele arquejava menos. O seu antes agonizante estado alterava-se para algo semelhante ao sono. Eu continuava na mesma posição. Aos poucos, comecei a senti-lo quente entre minhas mãos. Passava do torpor para um aquecimento sossegado e morno, distinto da febre, em compasso com os demais sinais do seu corpo, que também pareciam voltar à normalidade.

Percebi que podia, finalmente, deixá-lo repousando entre as folhas do canteiro. Mal o deixei ali, ele se levantou e, num átimo, começou a piar e ciscar a terra úmida, como se nada houvesse se passado e ele nunca tivesse saído dali. O pintinho estava vivo.

E eu estava meio espírita.

*Marina Procópio de Oliveira é poeta e escritora itabirana. Mora em Belo Horizonte

 

Sobre o Autor

Deixe um comentário