Médico, 98 anos, doutor Colombo só tem um conselho neste tempo de pandemia: “Fique em casa. E não abra o comércio”

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Quando a gripe espanhola chegou ao Brasil, em 1918, a bordo do navio espanhol Demerava, que se atracou nos portos de Recife, Salvador e Rio, desembarcando passageiros infectados com a primeira onda devastadora do então temível vírus influenza (H1N1), o médico itabirano Colombo Portocarrero de Alvarenga, 98 anos, ainda não era nascido.

Doutor Colombo com doutor Barros e um outro colega da turma de Medicina, na UFMG (fotos: Carlos Cruz e acervo de família)

Mas ele se lembra dos relatos dos pais Álvaro e Haydée Bonaparte de Alvarenga – e também dos irmãos mais velhos, que viveram no início do século passado, em Santa Maria de Itabira, um verdadeiro filme de terror.

A gripe espanhola chegou na região de Itabira um ano depois de aportar no Rio – e por aqui teria permanecido infectando e matando as pessoas até 1920.

No Rio o vírus se espalhou rapidamente. No mês seguinte do fatídico desembarque, o país se viu diante daquela que é, ainda hoje, a mais devastadora epidemia de sua história.

Foi provocada pelo mesmo vírus influenza (H1N1), que retornou em 2009, sendo rapidamente debelado com fechamento de aeroportos e medidas restritivas em todo o mundo. E que hoje a ciência já produziu vacina e já não assusta tanto como no início do século passado.

Antes da segunda onda do vírus H1N1, o mundo havia enfrentado, entre 1977/78, a “gripe russa”, que afetou principalmente crianças e adolescentes.

A segunda onda do vírus H1N1, já neste século, “foi a primeira emergência de saúde pública de importância mundial declarada pela OMS”, recorda o infectologista Wanderson Kleber, secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde.

Em todo o mundo, a gripe espanhola teria infectado 500 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população mundial na época. Já o número de mortos é estimado em até 100 milhões de vítimas. É até hoje a epidemia mais mortal na história da humanidade.

Lembrança

Hospital de campanha montado no Rio para tratar dos doentes infectados com a gripe espanhola, em 1918 (Foto: acervo JB)

“Como agora com o novo coronavírus, não havia vacina contra o vírus da gripe espanhola e muita gente morreu”, conta doutor Colombo, recorrendo à memória de sua irmã Dinorah de Alvarenga, que ainda criança viveu a epidemia. Muitos anos depois, em 1983, ela escreveu a crônica A gripe espanhola em Santa Maria, publicada recentemente neste site.Leia aqui.

“Em Santa Maria morreu muita gente, principalmente na classe mais pobre. Uns falavam que era ‘influenza’; outros, que era uma peste mesmo. Ficou conhecida como gripe espanhola”, escreveu a cronista santa-mariense.

Dinorah depois mudou para Itabira, onde lecionou Geografia por muitos anos. Faleceu aos 72 anos, em 1983, pouco depois de escrever o livro de crônicas Nas Serras do Morro Escuro, que ainda está para ir a prelo, aguardando publicação.

Esquecimento

A irmã de Colombo, Dinorah de Alvarenga que, ainda menina em Santa Maria, ajudou a mãe cuidar dos enfermos da gripe espanhola

Com o passar dos anos, diz doutor Colombo, a gripe espanhola já estava quase totalmente esquecida nos escaninhos da memória histórica, tanto que teria sido pouco estudada no seu curso de Medicina, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“São relatos de muito sofrimento, mas quando eu estudei medicina já quase ninguém se lembrava dessa epidemia”, recorda doutor Colombo, que concluiu o curso de Medicina em 1947.

“Nessa época a nossa preocupação era com as epidemias políticas, com a Revolução de 30, com o Tenentismo e com a segunda grande guerra, que matou muita gente”, afirma o médico, que vê na atual pandemia com a covid-19 uma séria ameaça à humanidade.

“Não pela quantidade de mortes, que hoje pode até ser em menor número se comparado com a gripe espanhola. Mas por chegar a tantos lugares ao mesmo tempo, por transmitir com tanta facilidade de pessoa para pessoa e que em muitos casos pode levar à morte.”

Recolhido em sua casa com a sua mulher  Eny Fiqueiredo de Alvarenga, 94 anos, doutor Colombo não sai para a rua desde que o prefeito Ronaldo Magalhães (PTB) e o governador Romeu Zema (Novo) decretaram que o vírus chegou para valer, com ordem para que todos permaneçam em casa, com o comércio não essencial fechado.

“É a única maneira de evitar a propagação da doença em pouco tempo. Se não for assim, não haverá médicos nem enfermeiros, muito menos hospital para atender todos que irão precisar de atenção para não morrer”, diz ele, reforçando o que têm dito as autoridades da área de saúde.

“Sigo o ministro Mandetta. Não saímos de casa e não estamos recebendo visita de parentes. Só uma moça que trabalha com a gente vem à nossa casa”, conta doutor Colombo, para quem esse é o único “remédio” para não pegar o vírus, enquanto os cientistas do mundo não encontram uma vacina para neutralizar a temível covid-19.

Epidemias simultâneas

Doutor Colombo com o irmão, doutor Mauro: dois ícones da medicina de Itabira

“O remédio é ficar em casa e se acostumar até a curva acentuar, lá para o mês de junho/julho”, projeta doutor Colombo.

Ele só lamenta não mais fazer a sua caminhada matinal de sua casa até a Associação dos Aposentados e Viúvas, no mesmo bairro Pará onde mora, para fazer pequenos atendimentos, muito mais para aconselhamento de quem ainda tem muito a ensinar.

“Vamos ter a chegada do frio e com ele pode vir também surtos de gripe e dengue. Se as pessoas ficarem nas ruas, vai todo mundo adoecer ao mesmo tempo e muitos podem morrer por falta de atendimento”, prevê, com muita apreensão.

“Quem não fica em casa acaba pegando o vírus na rua e infectando os seus parentes mais velhos em casa”, diz o médico, para quem ainda não chegou a hora de flexibilizar as medidas restritivas à locomoção e aglomeração de pessoas.

“Enquanto (a pandemia) estiver nesta fase de crescimento, o prefeito e o governador não devem autorizar a reabertura do comércio”, é a recomendação que insiste em fazer o experiente médico.

“O ideal é ter 70% das pessoas dentro de casa. Mas infelizmente tem gente que não acredita. Acha que tudo isso é invenção dos chineses para dominar o mundo”, lamenta o atento doutor Colombo.

“As equipes de saúde da Prefeitura e o ministro Mandetta estão trabalhando bem. O povo é que precisa ajudar ficando em casa para não morrer tanta gente estimada e querida.”

Febre maculosa também matou muita gente, principalmente na zona rural

Zé Cruz, marceneiro e luthier, recorda da febre maculosa que matou muita gente, inclusive o padre Eustáquio, em Belo Horizonte

Já no seu tempo de médico em Itabira, doutor Colombo se lembra da febre maculosa, uma outra epidemia que grassou no país e com força na região rural de de Itabira.

“Morreu muita gente na roça”, recorda o médico. “Demoraram para descobrir que era provocada pelo carrapato que ficava nos animais. Só depois da descoberta da terramicina (um antibiótico) foi que parou de matar.”

Da febre amarela, ainda comum na região Norte do país, doutor Colombo recorda que morreu um casal de ingleses. O marido era empregado da Itabira Iron, mas teria sido infectado fora da cidade.

Retorno

Essa mesma febre maculosa voltou recentemente a assombrar Belo Horizonte, na região da Pampulha, tendo como vetor as capivaras que vivem ao redor da lagoa.

É transmitida pelo carrapato-estrela, encontrado em animais de grande porte (cavalos, bois). Mas também em aves domésticas, roedores, principalmente entre capivaras, que são seus hospedeiros naturais.

O marceneiro e luthier (fabricante de violão e viola) José Martins Cruz, 93 anos, também tem viva na memória as conversas que ouvia de seus parentes mais velhos sobre a gripe espanhola. “Eu me lembro dos antigos contando o horror que foi essa gripe, sem que tivesse remédio para curar tantos doentes.”

Outra lembrança viva é da febre maculosa, que também matou muita gente. “Padre Eustáquio morreu de febre maculosa”, recorda o marceneiro a precoce morte desse já quase santo, de quem é devoto.

“Ninguém sabia que era o carrapato que transmitia a doença. Depois o povo da roça aprendeu a se cuidar e a doença passou.”

Padre Eustáquio morreu em 30 de agosto de 1943, um ano depois de assumir a paróquia São Domingos, em Belo Horizonte. Faleceu após ser picado por barbeiro e com as complicações decorrentes da febre maculosa.

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