Maternidade

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Marina Procópio de Oliveira*

O pintinho, agora, está escondido debaixo das luvas de lã, dentro de uma pequena caixa. Sua respiração é quase imperceptível, nada mais que um leve ondular de penugem preta, só possível de se ver quando Luciana olha com cuidado em direção ao seu improvisado ninho de papelão.

Até meia hora atrás, era justamente o oposto. O pintinho ofegava, sem entender porque fora submetido a tantas provações, mal nascido.

O pequeno filhote negro, nascido ontem, tinha então dois pintinhos irmãos. Luciana – que de galinhas sabia muito mais ao molho pardo do que voando e ciscando, vivas em seu jardim – terminou por colocá-los junto a uma mãe galinha adotiva, com filhotes já nascidos há duas semanas. Não foi por maldade o ato, senão por ignorância. Nunca antes havia criado galinhas e ainda menos podia lidar com pintinhos abandonados pela progenitora.

O ocorrido se deu, em suma, porque a galinha-mãe procriou no mato e se recusava a permanecer presa no espaço que Luciana lhe destinara. Temendo que os três pintinhos morressem de frio ou de fome, na estranhamente gélida e úmida noite de finais de setembro, a estreante camponesa, recém-chegada da cidade grande, pegou os pequeninos e os colocou com aquela que elegeu madrasta dos novos rebentos.

Tal ato desencadeou uma série de consequências.

A primeira delas foi o desespero da galinha-mãe, também de primeira viagem, que viu seus três filhotes desaparecerem, sem lhes conhecer o destino. A galinha andou pelo terreiro sem descanso, ciscando e chamando suas crias, mas nenhuma delas respondeu ao seu chamado.

É que, na verdade, estavam os três pintinhos satisfeitos debaixo da mãe adotiva, aquecidos e longe da noite chuvosa. Assim, sob o ponto de vista dos recém-nascidos, estava resolvido o problema, ou melhor, não havia problema; haviam nascido, sua mãe os acolhera, tinham asas quentes sob as quais se defendiam do frio; bastava, pois, crescer, aprendendo calmamente o ofício de pertencer a sua espécie.

Desconheciam eles que aquela não era sua mãe verdadeira. Como poderiam sabê-lo? Essa ignorância, entretanto, não era partilhada pela galinha e, em sua recente vida, terminariam os pequenos filhotes por provar, na própria pele, que às galinhas, ou pelo menos a uma delas, em especial, não apetecia serem mães adotivas.

E a segunda consequência, pois, foi que um dos pintinhos apareceu sem vida na manhã seguinte. De uma forma inexplicável, estava fora do pequeno galinheiro, embora fosse diminuta a passagem que o havia lançado até ali.

Mas o pintinho negro continuava lá. Não sentiu falta de seu irmãozinho; havia outros nove, com quem partilhava a alegria de ser pintinho. Comia, bebia e se escondia debaixo do calor de sua mãe adotiva.

Sendo assim e como chovesse e a mãe verdadeira continuasse fugitiva, entendeu Luciana que a morte do primeiro pintinho fora acidental e manteve os outros dois no lugar onde estavam.

Não foi, novamente, uma boa decisão.

À tarde aconteceu o (im)previsto. O outro irmão do negro filhotinho também estava morto, igualmente lançado para fora do ninho como um invasor mal quisto.

Então Luciana não mais duvidou. Compreendeu que, ao contrário do que ouvira falar, as galinhas até poderiam adotar filhotes, mas isso acontecia quando e como queriam e não sempre que eles lhe eram impostos. Era necessário, então, tirar o último pintinho do meio dos demais e retornar com ele para a mãe verdadeira, a fim de evitar a quarta consequência.

O pintinho, entretanto, não compartilhava do medo de sua…tutora, digamos assim. Continuava vivendo sua vida, alheio ao perigo que agora claramente o cercava. Piava, comia e até se arriscava a pequenas carreiras, junto com seus irmãos.

Entretanto, mãos humanas, a seu despeito, novamente o retiraram do seu lar recém-criado e o retornaram a sua mãe oficial, que ainda zanzava pelo terreiro, desgostosa.

Mas não se entendiam,o pintinho e sua mãe-galinha. Parecia que a mãe novata não reconhecia seu pequeno bebê. Muito embora dele apartasse Luciana toda vez que ela tentava tirá-lo de sua guarda, não era uma mãe amorosa. Pisava-lhe em cima, dava-lhe bicadas e, se às vezes o aconchegava, o mais das vezes o repelia.

Luciana desanimava. Por culpa de seu ato inicial, parecia que, de uma forma ou de outra, o pintinho também não resistiria, como os outros.

O filhote, entretanto, persistia, embora não entendesse porque o haviam tirado da companhia de seus outros irmãos e das asas da mãe de adoção – que para ele, era sua mãe verdadeira. Ali, no meio da grama densa, sozinho, fora do aconchego das asas maternas, numa imensidão para ele imensurável, lutava sob o jugo de uma galinha que, como? não poderia ser sua mãe, já que apenas o pisava e bicava, sem piedade.

Ao cabo de algum tempo, desesperou-se. Fugiu correndo dessa mãe ingrata e madrasta, em desabalada carreira, piando agudamente, envolto no ar do mundo que naquele momento havia se tornado ininteligível. Um pequeno ponto negro, que mal se via no meio da imensidão verde do mato.

Luciana recapturou-o. Envolveu-o num par de luvas velhas de lã e colocou-o dentro de uma caixinha quente. Seu coração, como o dele, também se acelerara.

Luciana estava tomada de amor.

E, por isso, agarrou-se à ideia de que aquele pintinho era especial. Sabia que durante seu choco, ao relento, houve violentas tempestades e o frio, incomum no mês de setembro, aparecera como se no mais profundo inverno.

Numa tarde, a reviravolta de um calor recalcitrante trouxe uma tempestade de granizo que deixou todo o terreiro coberto de pedras de gelo. Os demais pintinhos, que estavam sendo chocados juntamente com o pintinho, pereceram. Os únicos dois sobreviventes, além dele, soçobraram, vítimas de sua ignorância na criação dos animais. Mas aquele pintinho sobrevivera. Não só às tempestades, mas também a sua mãe adotiva, a sua mãe verdadeira e, principalmente, a ela, Luciana, que nada entendia sobre galinhas e suas crias.

Agora, dentro de sua caixinha de papelão, em meio a retalhos e luvas, parecia que o pintinho dormia. Às vezes, Luciana escutava, atenta, uma leve manifestação de vida. Um pio fraco e solitário. De tristeza, talvez. Ontem tinha mãe e irmãos. Agora está sozinho.

Assim permaneceram, até o fim da tarde. Luciana, como o filhote, suspirava, tomada de terneza, mel, maternidade. Precisava salvá-lo.

Mas como já escurecia, Luciana pensou que sua batalha pela sobrevivência do serzinho estava adiada para o dia seguinte. Contudo, para sua surpresa, quando saía do quarto, o filhote acordou com a mesma energia antiga. Voltou a piar copiosamente e sua mãe, lá de fora da casa, escutava e respondia nervosa ao seu chamado.

Estava resoluto o pintinho. Ele queria sua mãe-galinha. Colocados juntos, a cena anterior se repetiu. Mais uma vez a tentativa de aproximação resultava em bicadas e pios agudos, mais uma vez o pintinho era repelido. Por um breve momento, de grande expectativa, a galinha o aceitou e recolheu o pintinho sob suas asas, mas a afetuosidade demonstrada nada durou. Novamente postou-se de pé e voltou a bicá-lo e a pisar nele. Novamente ele se desesperou, novamente Luciana o recolheu.

Aquele serzinho, entretanto, entre as mãos de Luciana, preferia insistir em que sua mãe aceitasse finalmente sua condição. Continuava piando a sua procura, irrequieto nas mãos de Luciana, tentando livrar-se daquela pequena prisão.

Luciana decidiu tentar de novo. Precisava redimir-se. Como já anoitecia, depois de algum esforço, conseguiu pegar a galinha e trancá-la num lugar fechado e à prova de fugas. Quando finalmente escureceu, levou o pintinho para junto de sua mãe, colocou-o sob panos velhos e ali, uma vez mais, ele insistiu, piando e pedindo o calor das asas maternas.

A galinha resistiu um pouco, mas como era noite, recolhia-se, ao modo das galinhas, sejam elas mães ou não. Deitada, permitiu que o filhote finalmente se escondesse sob suas asas e, pela primeira vez, o pintinho deixou de piar.

Aliviada, mas relutante, Luciana deixou-o no novo ninho, exposto a sua mãe indecisa sobre a maternidade. O pequeno pintinho seguia seu destino.

Sua inquietude, entretanto, fez Luciana voltar ao ninho, voltar a casa, buscar a lanterna e voltar para o ninho. Terminou por se deitar rente ao chão e ficou ali, parada, olhando, pela primeira vez, a galinha sob o foco de luz.

Viu seus olhos amarelos e atentos, eram ríspidos, tinha medo? A galinha também olhava para ela. “Descendentes de dinossauros, as galinhas. Na verdade, do TyrannosaurusRex, não é incrível?”

Não conseguia sair de lá.Escutava seu cacarejar ameaçador, olhava suas penas multicoloridas, “tão bonita, a galinha”.
Quis conhecer a galinha. Entrar dentro dela, de seus sentidos, quis ser galinha, quis unir-se nela. “Era possível? Não tinham, então, uma primordial animalidade comum”?

E na escuridão da noite viu, sobressaltada, que de indistintos ninhos, trançados nas paredes, pedras, buracos e touças de mato à sua volta se abriam inúmeros ovos e deles saiam pintinhos solitários, perdidos, que piavam copiosamente, quebradiços e frágeis em sua pequenez, num grande mundo sem galinhas.

Corriam atordoados e chocavam-se uns contra os outros, embalde, porque não se reconheciam como espécie. Ao contrário, parecia se verem como inimigos e a ela, andando entre eles, agora nua e de tamanho incomensurável, como a um inimigo ainda maior.

Luciana piava. O som insistente e estridente que emitia transformava-se numa espécie de lamento ancestral. Imensa, procurava reunir os animaizinhos, mas a cada passo que dava fazia tremer a terra em seu redor, o que os assustava ainda mais; minúsculos a seus pés, perdiam-se, fora de seu mundo.

E por isso, Luciana parou. Tentar alcançá-los só os fazia perderem-se ainda mais. Era noite, estava frio e seu corpo a obrigava a recolher-se. Ao modo das galinhas, Luciana deitou-se, vencida.

Foi então que o piar dos pintinhos se alterou. Diminuía, paulatinamente, sua extensão e volume. Escutava-os agora calmos e compassados. Sentiu, com espanto, que eles começavam a se abrigar nela. Sob seus braços, suas pernas, seu colo, suas mãos, seu ventre vinham aconchegar-se um sem número de pintinhos e ela, transformada numa nova espécie, a um só tempo quente, elástica e aconchegante, apenas mais se intumesceu.

Reconheceu, então, que tudo estava exatamente em seu lugar.

Acordou com o sol batendo em suas pernas. Examinou o galinheiro. O pintinho e sua mãe-galinha estavam reconciliados.

Fitou o céu. Estava azul. O dia era quente e em paz.

*Marina Procópio de Oliveira é poeta e escritora itabirana. Reside em Belo Horizonte.

 

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