Marina poeta não é poetiza – Edição II

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Altamir Barros

Marina não é morena, é uma mineira itabirana, branca como uma europeia. Há muito que Marina Procópio de Oliveira sumiu, foi trabalhar no judiciário nesses tribunais da vida, é bom dizer que ela é concursada. Na certa levou e leva toda sua simpatia, beleza, espontaneidade, um pouco de bravura também, para o seu trabalho de sobrevivência. Fico aqui pensando a sorte de alguns que trabalham em sua repartição, próximo a ela.

Marina Procópio, poeta itabirana

Ficamos alguns anos distantes, depois nos aproximamos novamente, de repente, ela sumiu. Uma vez trombamos, quase fomos atropelados por um táxi. Um fato tão inusitado que nem acreditamos que tivesse ocorrido.

Ela, sempre linda. O tempo para ela insiste em não passar. Deve ser mestre em alguma arte oriental pela eternidade do corpo. Atualmente, voltamos a nos encontrar, em imagens de todo tipo. Ela toda bucólica, em fotos, em seu lindo sítio nas redondezas de BH. Tudo isso nas redes sociais.

Marina é politizada, sempre foi. É a favor das eleições diretas, assume o Fora Temer. É o que repete todo dia no café da manhã, uma atitude democrática.

Agora, Marina pra mim é muito mais poeta que poetiza. Enveredou nesses caminhos da sensibilidade poética, literária e gráfica. Seus poemas são leves, se desmancham no ar. E, também, muitas vezes, talvez, por ser mulher, são também cortantes de emoções.

Curti muito a sua poesia. Deslanchei, fui lendo, um, dois, três, de repente, muitos. A cada poema sentia cada vez mais a sua presença pertinho de mim. Seus poemas são coladinhos, cheek to cheek, musicais.

Estão aqui, agora, sendo divulgados pelo jornalista Carlos Cruz, amigo de velhos e eternos tempos, neste site Vila de Utopia. Serão publicados aos poucos, sempre nos fins de semana, em pequenas doses. Vale a pena ler e curtir.

 

VÓRTICE

 

Um automóvel estranho

puxou-me pelas pernas.

A casa, antes tão íntima,

desmoldava-se, irreconhecível.

 

Os desenhos, amorosamente

calculados,

esgarçavam-se,

transformados em fiapos de estranhas figuras.

 

Os cães nada denunciaram

e a traição sugou-me até

a cintura, trêmula.

 

A porta do quarto fechada,

a música que era minha,

a porta do quarto escancarada,

os corpos acobertados sob lençóis

rescendendo a amor e lavanda.

 

Tudo girou,

meus sonhos, planos,

o passado, o futuro,

o sabiá, a amoreira,

a mangueira em flor (plantada

ainda em semente),

como se nunca antes havidos,

estremecidos e fulgazes,

devorados pelo vórtice.

 

Kandinsky

 

POLITICAMENTE INCORRETA

Eu quero tomar banho de chuveiro elétrico,

sem limites, ter a chuva quente no meu corpo triste,

consumir a energia das hidrelétricas,

esgotar a água do rio e dos mares,

matar de sede os animais e as plantas,

e depois de esvaída a última gota,

ter o sono tranquilo e seco

do exaurimento.

 

 

 

 

 

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