Marceneiro doa réplica de altar da igreja Nossa Senhora da Saúde para o seu pároco

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O marceneiro e luthier (fabricante de instrumentos acústicos de cordas, violas, violões) José Martins Cruz, o Zé Cruz, 91 anos, presenteou, nesse sábado (8), o padre Uildes Flávio Assis com uma réplica em forma de oratório do altar da igreja Nossa Senhora da Saúde, onde é pároco há oito anos. Assis é o oitavo padre desde que a igreja virou paróquia, o primeiro foi o padre José Lopes Magalhães (Lopinho).

O marceneiro Zé Cruz explicou ao padre Uildes detalhes da restauração do altar e também da construção do oratório (Fotos: Carlos Cruz)

A réplica se inspira no atual altar, que foi, em 1979, inteiramente restaurado pelo marceneiro, depois de o original ter sido alterado, em 1944, com o estilo rococó sendo substituído por um bizarro gótico, como se observa no interior do oratório de Zé Cruz.

“Terminei a restauração do altar depois daquele chuvão de 79, antes da semana santa, como havia prometido ao padre César”, recordou o marceneiro, ao entregar o presente ao pároco Uildes Assis.

Padre Uildes com foto do padre César, que contratou o restauro do altar

A restauração do altar foi contratada pelo ex-pároco Luiz César Antunes da Silva, em 1978 – e só foi concluída no ano seguinte.

Artista plástico, padre César (atualmente ele reside em Belo Horizonte), certamente observou que o estilo gótico do altar alterado não combinava com a igreja. E decidiu restaurar as formas originais.

“O senhor é marceneiro, discípulo de São José”, saudou padre Uildes, ao agradecer o presente. “Não é uma replica igual, pois se eu fosse refazer igualzinha, ia levar mais de um ano. São muitos detalhes, que não são fáceis de fazer”, explicou Zé Cruz. Na réplica, ele misturou os dois estilos (rococó e gótico).

Para a tarefa de restauração, padre César contratou o mesmo marceneiro que já havia participado, na época como empregado da Vale, da reforma que  alterou o estilo do altar na década de 1940.

“Só reaproveitei os pilares maiores que foram torneados nos tornos mecânicos da Vale. Todas as outras peças foram refeitas, seguindo o modelo que o padre encomendou”, relembrou o marceneiro. Anos mais tarde, o altar foi repintado com a arte da artista-plástica Maria Antônia de Souza Jácome, a Lili.

Saco de dinheiro

Um fato curioso que Zé Cruz recordou na entrega do oratório foi a forma de pagamento pela restauração do altar. Ele recebeu em um saco cheio de dinheiro, com notas de um e dois cruzeiros, moedas da época.

O marceneiro com o padre, a neta Carolina Martins e as bisnetas Elisa e Maria

Zé Cruz contou que quando terminou a restauração, o padre pediu 15 dias para fazer o pagamento. No dia combinado, Cacita (Orcalina de Cássia), eterna secretária da paróquia, avisou que o pagamento já estava disponível.

“Quando eu cheguei, padre César me entregou o saco com o dinheiro e me disse. ‘Eu contei os 80 mil cruzeiros combinados como pagamento. Se faltar, azar seu. Se passar, sorte sua’.”

E o marceneiro seguiu com o saco com dinheiro para depositar no banco. O gerente perguntou, ao ver tanto dinheiro “miúdo” no saco:

“Uai, Zé Cruz, você assaltou a igreja?”. E pediu tempo para contar tantas notas. Depois de tudo contabilizado, Zé Cruz recebeu o recibo com registro de 82 mil cruzeiros.

Ou seja, recebeu 2 mil cruzeiros a mais do que havia combinado como pagamento pelo restauro do altar. “Não deve ter sido erro contábil. Padre César ao reconhecer a qualidade do serviço, deve ter decidido pagar um pouco a mais”, disse o padre Uildes Assis. “Deve ter sido isso mesmo”, concordou o marceneiro, satisfeito ao recordar da generosa gorjeta.

Agradecimento

Zé Cruz com a filha Anna Beatriz na igreja Nossa Senhora da Conceição, de Ipoema, em 2001

“Recebo com muita alegria esse presente. Tenho uma imagem menor de Nossa Senhora da Saúde que vou colocá-la no oratório para a minha veneração pessoal”, adiantou o padre.

Segundo ele, outras peças que comporão o oratório serão a imagem de São José, do coração de Jesus, com os anjos dispostos na parte de cima.

“Vou procurar compor o oratório com as imagens à semelhança das que se encontram no altar. É uma obra de Deus, aos 91 anos ver o senhor executar um trabalho com carinho e amor. Rezarei uma novena a nossa Senhora da Saúde em agradecimento por essa doação”, prometeu o pároco.

Saiba mais

Outra obra religiosa importante de Zé Cruz é o altar da igreja-matriz de Nossa Senhora da Conceição, no distrito de Ipoema. Foi por ele construído sob a encomenda do padre João – e inaugurado em 1957.

Ainda na igreja da Saúde, o marceneiro reformou também a Capela do Santíssimo, para cujo serviço ele contou com a colaboração de seu filho Luiz Cássio Martins, também marceneiro e luthier.

Paróquia tem grande influência na comunidade católica

Igreja da Saúde fica aberta diariamente e recebe fieis de toda cidade

A igreja da Saúde tem 150 anos. É a segunda mais antiga de Itabira, só não é mais velha que a histórica e tombada igrejinha Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Ao longo dos anos, sofreu algumas modificações. Tinha duas torres, mas um raio fulminou um dos altares, que não foi refeito.

Originalmente, no local onde foi erguida existia uma ermida, sob a mesma invocação de Nossa Senhora da Saúde. A ermida foi construída pelos primeiros devotos: Bento Joaquim do Amaral e João de C. Salgado, entre outros.

A construção da atual igreja foi iniciada em 1823, por iniciativa do fazendeiro Carlos Casemiro de Andrade – e só foi concluída em 1848, no mesmo ano da emancipação política de Itabira.

Conforme consta nos anais da igreja, já no século XX, em 1925, a edificação sofreu reformas que foram coordenadas por uma comissão presidida por Heliodoro do Carmo.

Hermeto Pascoal toca com padre Ilídio na igreja da Saúde, no festival de Inverno de 2000 (Foto: acervo O Cometa)

Naquela época, foi modificado o frontispício original que apresentava duas torres, destruídas por ação de um raio. Desde então, mantém a torre única central.

Prefeito

A paróquia Nossa Senhora da Saúde historicamente sempre teve grande influência junto à comunidade católica – e também na política itabirana.

Tanto que, em 1969, elegeu o seu pároco, padre Joaquim Santana de Castro, falecido em 2015, prefeito de Itabira para um mandato tampão no biênio 1970-72.

Pela sua localização, e por ser a única igreja de Itabira a ter missas diariamente, recebe fiéis de toda a cidade.

 

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