Juventude indígena fala sobre o impacto da pandemia em suas comunidades em debate promovido pelo Unicef

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A pandemia do novo coronavírus enfatizou desigualdades já existentes no Brasil e o seu impacto nos grupos em situação mais vulnerável. Com isso, as populações indígenas passaram a enfrentar novos desafios.

Em conversa durante live promovida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com o tema “Juventudes indígenas no contexto da pandemia da COVID-19”, jovens indígenas de diversas partes do País expressaram suas maiores preocupações e os principais impactos da pandemia em suas comunidades.

Nos depoimentos, fica clara a maior preocupação dos jovens indígenas: a perda de seus anciãos. Com a COVID-19 afetando principalmente idosos, muitos líderes não resistiram à doença. “O ancião é o nosso livro, que está ali pra nos ensinar. Precisamos da convivência com nossos anciãos,” explicou Kanynari Apurinã. O jovem é do povo Apurinã, do município de Lábrea, no Amazonas, e colaborador do projeto Vozes do Purus, que busca manter a tradição do povo por meio de produções audiovisuais.

“Essa pandemia trouxe mais atenção para que nos preocupemos pela formação de novas lideranças, novos anciãos, porque sentimos o impacto dela a partir da perda da nossa liderança”, explicou Rayanne Cristine, do povo Baré, no Amazonas. A jovem faz parte da Rede de Juventude Indígena e integra o grupo de trabalho da Plataforma Indígena Regional frente à COVID-19 na América Latina.

A importância da comunicação

Os jovens identificam que a perda das suas lideranças também está atrelada a outro fator importante: a falta de informações sobre a COVID-19. Por isso, muitos deles têm se dedicado a produzir conteúdo em idiomas nativos para suas comunidades, e também a chamar atenção para o impacto da doença na população indígena.

“Além de cuidar dos anciãos, fazemos trabalho de conscientização para que as pessoas não saiam da comunidade,” disse Kanynary. Para ele, uma grande dificuldade que muitos indígenas têm enfrentado é o acesso à informação sobre o coronavírus e a pandemia.

Muitas vezes, além da conexão à internet ser precária, as informações não estão disponíveis nas línguas dos povos indígenas, apenas em português. “Precisamos ter entendimento das palavras técnicas e traduzir isso de uma forma fácil para a comunidade. É muito preocupante porque às vezes tentamos explicar algo [sobre a pandemia]e acaba saindo diferente. Então, além de receber a informação, precisamos traduzir para repassar”.

Com este mesmo objetivo, Daniela Patricia, jovem da etnia Tukano, de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, estado do Amazonas, integra a Rede de Jovens Comunicadores do Alto Rio Negro (Rede Wayuri).  A Rede produz e envia conteúdos nas línguas nativas por meio do WhatsApp, em formato de podcasts, além de produzir um boletim escrito que circula no município.

Antes da pandemia, os canais de comunicação já funcionavam e traziam notícias sobre vagas em universidades, política e outros temas da região que afetam diretamente os povos indígenas. Com a pandemia, conteúdos sobre o novo coronavírus entraram na agenda. “A rádio também tem sido muito importante para as comunidades sem acesso à internet, é um informativo para que os jovens que estão dentro das suas comunidades saibam de tudo que está acontecendo aqui”.

Na Bahia, Emerson Pataxó, morador da Aldeia Cura Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, também atua como comunicador indígena da Mídia Índia. Durante a pandemia, o grupo criou o site quarentenaindigena.info, que reúne notícias sobre a COVID-19 em comunidades indígenas em todo o Brasil, dados sobre casos e um espaço dedicado a arrecadação de fundos para enfrentamento à doença nas aldeias. Com o arrecadado, levam alimentos e produtos de higiene.

“O site representou uma conquista, porque os meios tradicionais não trazem informação suficiente para entender o impacto [da pandemia]nas nossas comunidades. Colocamos os dados que a grande mídia não mostra, localizamos essas informações com secretarias estaduais de saúde e a Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena], e conseguimos construir para qualquer pessoa acessar,” contou.

Impactos na cidade

Outros desafios também surgiram para comunidades indígenas em grandes cidades. Indígena do povo Sateré Mawé, Sâmela vive hoje em Manaus, onde estuda Biologia na universidade e faz parte da Associação Indígena Sateré Mawé. A jovem tem buscado chamar a atenção para os indígenas em contextos urbanos durante a pandemia, os quais também têm sofrido grandes readaptações.

No início do isolamento social, ela e outros indígenas da cidade que vivem da venda do artesanato que produzem, ficaram sem uma fonte de renda para passar o período. Com comércios e lojas fechadas, já não conseguiam manter o sustento.

Foi quando surgiu a oportunidade de fabricar mascaras de tecido. “Nunca tínhamos costurado na vida, mas aceitamos o desafio. A princípio apenas era para proteção das pessoas da comunidade. Doaram uma máquina de costura, e começamos a confeccionar. Depois de fazer para todo mundo da comunidade, postei nas redes sociais e as pessoas começaram a encomendar as máscaras”, relembrou.

Atualmente, cerca de 8 mil máscaras já foram produzidas, contando com a ajuda de apoiadores, e foram enviadas a comunidades indígenas em diversos municípios do estado do Amazonas, além das doações de máscaras feitas pela Associação para indígenas em contexto urbano. “Não deixamos de fazer nosso artesanato, mas juntamos o artesanato com a máscara, usando as mídias sociais como grande aliada pra comercializar,” celebrou.

No destaque, a maior preocupação dos jovens indígenas é a perda de seus anciãos. (Foto: Unicef)

Reportagem publicada originalmente pela ONU Brasil

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