Judeus e cristãos-novos na criação e colonização do Sul do Brasil

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4ª parte

Por Mauro Andrade Moura

 As principais Famílias das Bandeiras

 Compilação

GENEALOGIA PAULISTANA

Luiz Gonzaga da Silva Leme

publicada a partir de 1901 a 1905

 Extratos

Antigas famílias com ascendência judia sefaradita que criaram São Vicente – SP, e outras vilas (hoje cidades) no interior da província de São Paulo, das quais descendem vários dos antigos Bandeirantes que formaram as províncias de Minas Gerais e Goiás.

Considerando ainda que todas as famílias abaixo descritas têm grande descendência no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, principalmente em Itabira, Nova Era e Rio Piracicaba:

 TÍTULO GARCIAS VELHOS

Teve começo esta família em Garcia Rodrigues e sua mulher Isabel Velho, naturais do Porto, que vieram à S. Vicente trazendo em sua companhia filhos e filhas; entre os filhos veio o Padre Garcia Rodrigues Velho que por sua importância e prestígio conseguiu para suas irmãs casamentos com pessoas da primeira nobreza em S. Paulo.

TÍTULO PIRES

Transcrevemos de Pedro Taques, sobre a origem da família Pires em S. Paulo, o seguinte:

“Grande variedade encontramos sobre a origem dos Pires da capitania de S. Paulo. Segundo umas memórias de pais a filhos, foi progenitor desta família Salvador Pires, que de Portugal trouxera dois filhos: Salvador Pires e Manuel Pires; porém, o exame e lição dos cartórios nos levaram a descobrir a verdade sobre o assunto, que é a seguinte: entre os nobres povoadores da vila de S. Vicente, que a esta ilha chegaram com o fundador dela, o fidalgo Martim Afonso de Sousa, em princípios do ano 1531, vieram João Pires, chamado – o Gago – natural do Porto e seu primo Jorge Pires que era cavaleiro fidalgo (naquele tempo era este foro o melhor) cujo alvará veio ao nosso poder para o lermos. Este João Pires trouxe consigo da cidade do Porto o filho Salvador Pires, o qual se casou (não se sabe ao certo se em Portugal ou em S. Vicente) com Maria Rodrigues, também natural do Porto, que veio para S. Vicente com seus irmãos, f.a de Garcia Rodrigues e de Isabel Velho. De S. Vicente passaram a Santo André da Borda do Campo, João Pires – o Gago, e seu filho Salvador Pires com sua mulher Maria Rodrigues, e ficaram nessa povoação que foi aclamada vila em 1553 em nome do donatário da capitania Martim Afonso de Sousa, sendo o dito João Pires – o Gago, o 1.o juiz ordinário desta vila. (Cam. de S. Paulo cad. 1.o, tit. 1553 da vila de Santo André). Maria Rodrigues era já falecida em 1579, porque em 1580 foi passada a seu marido quitação de haver cumprido com as disposições testamentárias da defunta sua mulher pelo prelado administrador, sendo escrivão da câmara eclesiástica e visita Francisco de Torres. Por esta quitação se vê que a família Pires teve seu princípio neste Salvador Pires C.c. Maria Rodrigues, ambos naturais do Porto, e não em outro Salvador Pires, f.o deste, o qual foi C.c. Mécia Fernandes.

TÍTULO BUENOS DE RIBEIRA

Teve princípio esta família em Bartolomeu Bueno de Ribeira (natural de Sevilha), que veio à São Paulo em 1571 com seu pai Francisco Ramires de Porrós, e casou-se com Maria Pires, f.a de Salvador Pires e de Mécia Fernandes (ou Méciaussu), neta paterna de Salvador Pires e de Maria Rodrigues; neta materna de Antônio Fernandes e de Antonia Rodrigues, por esta, bisneta de Antônio Rodrigues e de Antonia Rodrigues, por esta, terneta do maioral do Ururaí de nome Piquerobi.

Amador Bueno de Ribeira, Capitão-mor e ouvidor da Capitania de São Vicente, cargo que ocupou em 1627, foi aclamado rei em São Paulo em 1641 pelo poderoso partido formado de influentes e ricos castelhanos, como foram os três irmãos Rendons da cidade de Coria; – Dom Francisco de Lemos, da cidade de Orens; Dom Gabriel Ponce de Leon, natural de Guaíra; Dom Bartolomeu de Torales, de Vila Rica do Paraguai; Dom André de Zunega e seu irmão, Dom Bartolomeu de Contrera y Torales; Dom João de Espínola Gusmão, da província do Paraguai, e outros que subscreveram o termo de aclamação em 1641. Não só recusou essa honra que queriam conferir-lhe, mas ainda, com a espada desembainhada, deu vivas, como leal vassalo, a Dom João IV, rei de Portugal, em quem restaurou-se a monarquia portuguesa, depois de 60 anos de sujeição ao domínio dos reis de Castela. Por este ato e por outros serviços que prestou à Pátria, legou um nome imorredouro à seus descendentes e recebeu carta de e1-rei agradecendo esse ato de lealdade. Foi C.c. Bernarda Luís, f.a de Domingos Luís (o Carvoeiro), cavaleiro professo da Ordem de Cristo e de Ana de Camacho.

TÍTULO GODOYS

Teve começo esta família em Baltazar de Godoy, nobre castelhano, que veio à S. Paulo na 2.a parte do século XVI em tempo do domínio de Castela no Brasil. Aqui C.c. Paula Moreira, f.a do Capitão-mor Governador Jorge Moreira, natural do Rio Tinto, Porto, e de Isabel Velho. Vide a ascendência desta Isabel Velho em Tit. Garcias Velhos.

 TÍTULO PRADOS

Foi progenitor desta família na Capitania de S. Vicente e S. Paulo, João do Prado, natural da praça de Olivença da Província do Alentejo de Portugal, de nobreza ali muito conhecida, que veio nos princípios da povoação de S. Vicente com muitos outros nobres povoadores na companhia do donatário Martim Afonso de Sousa, pelos anos de 1531. Casou se nessa vila com Filipa Vicente, f.a de Pedro Vicente e de Maria de Faria, naturais de Portugal, que foram também dos primeiros povoadores e que em 1554 eram lavradores de grandes canaviais e tinham parte no engenho de açúcar de S. Jorge dos Erasmos. Fez entradas no sertão onde conquistou muitos índios bravios e com eles se estabeleceu em S. Paulo onde sei viu os cargos do governo, inclusive o de juiz ordinário em 1588 e 1592. Depois de fazer seu testamento, em 1594 resolveu se a fazer nova entrada ao sertão para aumentar o numero de índios a seu serviço e efetivamente o fez, vindo a falecer em 1597 no arraial do Capitão mor João Pereira de Sousa Botafogo, e sua mulher faleceu em 1627 em S. Paulo.

TÍTULO BICUDOS

Segundo escreveu Pedro Taques, os Bicudos vieram da Ilha de S. Miguel para a Capitania de S. Paulo no tempo de seu povoamento. Eram dois irmãos Antônio Bicudo e Vicente Bicudo  ( ) os quais em 1610 requereram à Câmara de S. Paulo pedindo 300 braças de terra em quadra, partindo pelo rio Carapicuíba; e neste requerimento declararam que havia muitos anos que habitavam esta terra, onde sempre ajudaram com suas pessoas e armas ao bem público, achando-se nas guerras que contra os portugueses moviam os bárbaros gentios que infestavam a terra; e que eram casados e tinham filhos (Arquivo da Câmara de S. Paulo, Caderno de Registros, maio de 1607). Dividimos este título em dois capítulos:

Cap. 1 .o Antônio Bicudo Carneiro

Cap. 2.o Vicente Bicudo

 Cap. 1.o

Antônio Bicudo Carneiro foi da governança da terra, Ouvidor da Comarca e capitania pelos anos de 1585; foi quem mandou levantar pelourinho na Ilha de S. Paulo no dito ano de 1585. Foi C.c. Isabel Rodrigues, natural de S. Paulo, segundo se vê do testamento de seu f.o Antônio Bicudo, em 1650 em que declara sua filiação. Teve 6 f.os, se vê do requerimento feito aos oficiais da Câmara de S. Paulo, pedindo em 1598 chãos para fazer casas.

 Cap. 2.o

Vicente Bicudo, natural da Ilha de S. Miguel, irmão de Antônio Bicudo Carneiro, Cap. 1.o, casou em S. Paulo com Ana Luís Grou, irmã de Hilária Luís, de Mateus Luís, de Antônio Luís, que viviam em S. Paulo em 1609, f.os de Domingos Luís Grou e de Maria da Peña. Ana Luís, enviuvando de Vicente Bicudo, passou a 2.as núpcias com Jerônimo de Brito, fal. em 1644 com testamento em Santana de Parnaíba; sem geração deste 2.o marido, porque fal. em menoridade os f.os que teve. Do 1.o marido Vicente Bicudo, deixou (C. O. de S. Paulo)

 TÍTULO BAIÃO

Teve princípio a família deste apelido, segundo escreveu Pedro Taques, em Estevão Ribeiro Baião Parente, natural de Beja, C.c. Madalena Fernandes Feijó de Madureira, natural do Porto, donde passaram a S. Vicente, e S. Paulo trazendo filhos e filhas.

 TÍTULO COSTAS CABRAES

Foi progenitor desta família na Capitania de S. Paulo o Capitão Manuel da Costa Cabral, natural da Ilha de São Miguel, descendente da ilustre casa do Senhor de Belmonte, como se vê no brasão de armas passado em Lisboa em 1709 a seu sobrinho Gaspar de Andrade Columbreiro, natural da Ilha de Santa Maria e que foi registrado em 1762 na Câmara de S. Paulo. Vide nota no V. 3.o pág. 92. Casou o Capitão Manuel da Costa Cabral 1.a vez na vila de Mogi das Cruzes com Francisca Cardoso, fal. em 1655 em Taubaté, f.a de Gaspar Vaz Guedes e de Francisca Cardoso, Tit. Vaz Guedes; 2.a vez C.c. Maria Vaz, como consta do inventário com que faleceu o dito Capitão em 1659 em Taubaté, onde tinha se estabelecido depois de sua fundação por Jacques Félix.

 TÍTULO LEMES

A família Leme, que da Ilha da Madeira passou à vila de S. Vicente pelos anos de 1544 a 1550 prendia-se a antiga e nobre família que possuiu muitos feudos na cidade de Bruges do antigo condado de Flandres, nos Países Baixos ( ). O seu primitivo apelido em Flandres era Lems, que significa argila ou grêda (barro fino e delicado), com o que esta família quis salientar a sua nobreza entre os seus compatriotas; em Portugal este apelido foi corrompido em Lemes e Leme. Seguindo o ramo que nos interessa, o qual passou de Flandres a Portugal, e daí a Ilha da Madeira, começaremos por Martim Lems, cavaleiro nobre e rico, que foi senhor de muitos feudos na cidade de Bruges; foi casado e teve entre outros f.os:

 A-1 Martim Lems que passou a Portugal

A-2 Carlos Lems que foi almirante de França

 A-1 Martim Lems passou a Portugal por causa do comércio e se estabeleceu em Lisboa; foi tino magnânimo e de tal modo dedicado ao engrandecimento deste reino, que montou por sua conta uma urca (ou charrua) e nela mandou a seu f.o Antônio Leme com vários homens de lança e espingardas, a auxiliar a expedição de el-rei d. Afonso em 1463 contra os mouros na África; em recompensa el-rei o tomou por fidalgo de sua casa. Não casou, porém, teve de Leonor Rodrigues, mulher solteira, vários filhos.

TÍTULO VAZ GUEDES

Teve começo esta família em Antônio Vaz Guedes, natural de Mezanfrio, que C.c. Margarida Corrêa, veio residir na Capitania do Espírito Santo, onde nasceram os seguintes f.os que conseguimos descobrir:

Cap. 1.o Merência Vaz

Cap. 2.o Gaspar Vaz Guedes

Cap. 3.o Ana Corrêa

Cap. 1.o

Merência Vaz, natural da Capitania do Espírito Santo foi C.c. Luís Monteiro, f.o de Antônio Rodrigues de Alvarenga e de Ana Ribeiro; fal. em 1666 em Santos e seu marido em 1609 em São Paulo. Com geração no V. 5.o pág. 285.

 Cap. 2.o

Gaspar Vaz Guedes, natural da mesma capitania supra, foi C.c. Francisca Cardoso, fal. em 1611 em São Paulo, f.a de Brás Cardoso, natural de Portugal, e fundador de Mogi das Cruzes, e de sua mulher Francisca da Costa. Teve 10 f.os.

 TÍTULO NUNES

Esta família começa com Antão Nunes, fal. entre 1579 e 1582, foi C.c. Isabel Botelho, f.a de André Botelho. Américo de Moura cita um segundo casamento com Maria de Siqueira, f.a de Antônio de Siqueira, que está nas árvores de costado do Cônego Roque, mas H. V. Castro Coelho contesta, pois não se encontrou referência a esta f.a de Antônio de Siqueira. Foi morador em Santos e tinha parte no Engenho de São João. Teve, de Isabel Botelho, pelo menos:

Maria Nunes, C.c. Diogo de Unhate (segundo H.V.Castro Coelho), que foi escrivão Da Ouvidoria e Fazenda da Capitania de São Vicente e fundador de Paranaguá. Pais de  Luís de Unhate, C.c. Maria Antunes, pais de:

 Catarina de Unhate, foi a 2.a mulher de Henrique da Cunha Gago, o velho, nascido perto de Santos por 1560 e fal. em 1624 em São Paulo, f.o de Henrique da Cunha e de Felipa Gago.

 Titulo Tenórios

Pesquisa: Marta Amato

Martim Rodrigues Tenório de Aguiar, e não Martim Fernandes, como escreveu Silva Leme, antes de 30 de julho de 1589 estava C.c. Suzana Rodrigues (irmã de Baltazar Rodrigues e viúva de Damião Simões, sapateiro, inventariado em 1578, deixando o f.o Damião Simões, que em São Vicente aprendeu o ofício de barbeiro com Antônio Rodrigues e faleceu solteiro). Martim Rodrigues Tenório de Aguiar, faleceu com testamento feito em 12 de março de 1603 nos sertões de Paracatu. Além das 4 filhas legítimas e da natural Joana Rodrigues, C.c. Jorge Brant, citadas por Silva Leme, teve mais, que achava fossem seus: Diogo e Pedro. 

TÍTULO ARZÃO

Esta família, que contou entre os bandeirantes e exploradores do sertão vários vultos proeminentes, teve começo em S. Paulo em Cornélio de Arzão, natural de Flandres, homem estimado e de recursos, que veio a Capitania de S. Vicente na companhia de dom Francisco de Sousa, para edificar os engenhos das minas da Vila de S. Paulo com 200 cruzados de salário, como consta do requerimento que fez em 1627 ao Capitão-mor Álvaro Luís do Vale, em que pedia uma sesmaria, que lhe foi concedida, atenta a pobreza em que então se achava, por terem sido seus bens confiscados em 1620 em consequência da pena de excomunhão contra ele lançada pelos padres da Companhia de Jesus. (Vide Azevedo Marques. Apontamentos Históricos.). Este Cornélio de Arzão foi quem reconstruiu a matriz de S. Paulo em 1610 por autorização da Câmara da mesma vila composta dos oficiais Matias de Oliveira, Belchior da Costa, Manuel da Costa Pino e outros. Casou com Elvira Rodrigues, f.a do Capitão-mor Martim Fernandes Tenório de Aguilar, pessoa nobre e da governança da terra, V. 4.o pág. 508; e fal. em 1638. Teve os 6 f.os.

 TÍTULO FREITAS

Sebastião de Freitas, natural de Alagoa da cidade de Silves no Algarve, f.o de Manuel Pires, pessoa nobre, que foi provedor da santa casa de misericórdia da dita cidade, passou ao Brasil em praça de soldado da companhia do Capitão Gabriel Soares, que veio a Bahia em 1591 com o Governador Geral d. Francisco de Sousa para o acompanhar ao sertão a descobrimento das minas de prata que tinha sido oferecida el-rei d. Filipe um Robério Dias, natural da Bahia, assegurando que havia mais prata no Brasil do que Bilbao, dava ferro em Biscaia, e pedindo por prêmio a mercê de Marquês das Minas, que se lhe não conferiu, e foi somente despachado como administrador geral das ditas Minas, sendo o titulo de marques conferido a d. Francisco de Sousa. Da Bahia passou a S. Paulo Sebastião de Freitas, onde prestou muitos serviços, porque em 1594 acompanhou ao Capitão Jorge Correia ao sertão a mover guerra contra o bárbaro gentio, que havia vindo pôr em cerco a vila de S. Paulo. Em 1595 acompanhou ao Capitão Jerônimo Pereira de Sousa ao mesmo sertão, levando seus escravos a dar guerra ao inimigo gentio, em bem e utilidade da capitania. Por estes e outros serviços foi armado cavaleiro em 1600 em S. Paulo por d. Francisco de Sousa, com faculdade régia. Em S. Paulo foi pessoa de respeito autoridade e estimação tendo sempre as rédeas do governo, e em 1606 recebeu Jerônimo Correia Souto-Maior Capitão-mor Governador da capitania, loco-tenente do donatário Lopo de Sousa, a patente de Capitão da gente de Piratininga do campo de S. Paulo, para com ela acudir em todas as ocasiões de rebate de inimigo na costa. (Pedro Taques, Nobil. Paulistana). Casou em S. Paulo com Maria Pedroso, f.a de Antônio Rodrigues de Alvarenga e de Ana Ribeiro.

 

continua…

 

 

 

 

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2 Comentários

  1. Ola, muitas desses familias fazem parte da minha genealogia. Como voce sabe que eram judeus. Essa possibilidade é muito interessante. Gostaria pesquisar e conhecer mais. Obrigada!

  2. Mauro Andrade Moura on

    Então, Raquel.
    As informações estão contidas em diversos livros e arquivos a respeito da genealogia e dos judeus no Brasil em seu primórdio da colonização.

    Grato pela leitura.

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