João de nossas recordações, com as suas duas mãos e um violão

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Veladimir Romano

Nos seus melhores dias, dizia o filósofo norte-americano Ralph Emerson [1803-1882, autor de várias obras, ensaios e remarcadas citações clássicas]: que para alguém alcançar o bem, a alma não é só uma compensação, mas antes a vida, o saber e a própria natureza com seus prediletos valores.

A tudo, ele apelidou de «influxos da virtude»… do qual, ao longo de muitas gerações, parece não existir nenhuma contestação ou despropósito quando chegamos ao entendimento no tempo depois do acontecimento final.

Tem notícias que quando chegam, provocam choque, mesmo que óbvias desse acontecimento final. O anúncio dessa partida estranha, passando pelo desenlace físico de alguém, acontece como aquela chamada necessária  viagem transplanetária, animada numa sustentação nem sempre bem aceite por alguns.

O ajustamento habitual de se conhecer alguém apenas pelo lado físico, criou limitações ao ser humano, assim fica difícil olhar e entender unicamente o valor desse lado infinitamente humano apenas pelo corpo.

Contudo, quando ele nos oferece seus dotes, inteligência e créditos criativos, a coisa ultrapassa a barreira limitada do nosso entendimento da vida conjugada com seus mistérios.

Até para compreender o sofrimento ficamos a meio caminho e, quando ainda mais sendo criativo, esse sofrimento se mantém, o mistério também ganha no aumento pelo tanto de esquecimento que se dá ao lugar da alma.

Realmente, João Gilberto (1931/2019) sempre sofreu no seu silêncio íntimo, ainda mais no bastante, mas do discurso barulhento desta sociedade perturbada, violenta, gananciosa e descontrolada;.

Por outro lado, do seu puro gênio, igualmente numa conspícua posição fosse no cimo de qualquer palco, manteve como seu trono a luz revelada incessante com intensa satisfação, deixando para trás revelações por onde acordes da Bossa-Nova foram encontrando outros universos, em si mesmo, ao penetrar no reino do Jazz e outros afins. E assim agregou valores com essa tal acoplagem musical.

Valorizou, permanecendo imaginários extensos em perfeito círculo desse padrão, reflexo exigente das obrigações culturais que, entretanto, se foram aparentemente acumulando, estabelecendo vários códigos da criação eternamente musical. Ele próprio revelou segredos, numa noite tanto de espetacular quanto de magnífica e bela recordação, no teatro grande de Montreaux, na Suíça.

Esses momentos com João Gilberto pagaram bem as quatorze horas de trem desde a Holanda: valeu a viagem.  No dia seguinte, contagiados pelo toque do violeiro, procurávamos no pequeno grupo de jovens apaixonados igualmente adotar no nosso violão partilhado num quarto de Roterdã, aplicando a mesma dose nas cordas dum esbatido violão, relembrando discos e gravações musicais de João Gilberto, sucessos escutados vezes sem conta em Lisboa nos anos de 1960.

Depois de percorrer o mundo, um dia, João Gilberto achou por bem fechar a porta da sua casa. Passou a viver com seus pensamentos, certamente com recordações da aprendizagem da vida. Sensível fez brilhar sentimentos, partilhou prazeres, sonhos.

Descobriu novos talentos, assim como criou novos tons e sons com as duas mãos e um violão.

E assim surgiu um tal de João levando pelo mundo o espetáculo da Bossa-Nova, que se auto reciclou através doutros criativos músicos africanos, americanos, asiáticos,

Por onde chegaram os acordes do tropicalismo brasileiro, com essa doçura marcante das melodias de João Gilberto, o mundo descobriu uma linguagem musical carinhosa, com toda suavidade invulgar. Isso ele fez com segurança e amor, que anda fazendo falta nesse preciso momento na sociedade global, que ainda não prestou a  homenagem que ele merece, ainda que nunca precise, de tão enorme que foi.

A sua grandeza certamente já terá sido avaliada nos altiplanos cósmicos. Falta, somente agora, apreender tamanha mensagem que nos deixa como legado, com os acordes de doçura que duas mãos, um violão que o personagem João Gilberto [com bastante amor]nos deixou como herança. Uma grande lição que permanece.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano

  • Na foto em destaque, o músico se apresenta no Festival de Montreaux, Suíça, em 1989 (Foto: Alain BENAINOUS/Gamma-Rapho, via Getty Images)

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