Itabirismo

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Por Cornélio Penna

Para muita gente a capital do Brasil é o Rio de Janeiro, ou São Paulo.

Para mim, a nossa metrópole, de onde tudo devia irradiar (e há de chegar esse dia), de onde tudo lhe partir, é Itabira do Matto Dentro, com a sua prodigiosa cristalização da alma brasileira, de consciência e de seu princípio essencial.

Sei que ela está ameaçada de destruição, mas, como a cidade divina, ela se erguerá acima da terra, e, pairando em nosso espirito, nos guiará e esclarecerá, conduzindo os discutidores e carregando os verdadeiros míticos, seus filhos prediletos.

Quem melhor do que ela poderá ensinar a arte complexa de ser infeliz, a alegre ciência da renúncia e da humanidade?

Texto originalmente publicado na revista O Cruzeiro, em 9 de outubro de 1937, uma homenagem do escritor a Itabira pelo seu aniversário de emancipação política (Ilustração: Cornélio Penna)

Subindo ao alto do Pico de Itabira, a montanha de ferro, a riqueza cobiçada pelo mundo, e contemplando-se a cidade que corre lá em baixo, como uma serpente entre as pedras negras, compreende-se que é uma riqueza maior, que ninguém cobiça, mas é o verdadeiro tesouro do Brasil.

Compreende-se que daquele silêncio pobre, daquela vida extremada, daquela alucinação de ausência e obsessão de nada, deve sair um espirito coletivo novo, de tal fortaleza e austeridade que empolgará a nossa gente, sempre a procura de sua própria alma, e que não a achou porque está voltada para o mar, esquecida de seu velho patrimônio de pobreza taciturna, sadia e indestrutível, sempre a espera dos transviados, para empolgá-los de novo.

Os homens que vemos caminhar pelas ladeiras longínquas, cabisbaixos, com um sonho confuso no olhar, aprenderam duramente a viver, souberam dia a dia a tempera crua da minuciosa miséria de seu pão e de suas casas, construídas voluntariamente no pior lugar da pedra áspera, da grota desesperada.

Sobre esse vazio, sobre esse plano absoluto, constroem lares fecundos. Seus filhos, que fogem à procura da felicidade, deslumbrados pelo rumor e pelo brilho cá de longe, esquecem desde logo a lição rude que receberam e, vencendo, são derrotados por esse mesmo esquecimento, que deixa em seu lugar uma incompreensível angústia.

Nada mais inquietante do que sondar o último desses vitoriosos.

Há qualquer coisa que os faz parar em pleno surto, com o coração oprimido, confuso, humilhado, tateando medrosamente em torno de si, completamente fora de seu eixo.

É o sagrado ritmo de Itabira que, uma vez partido, inutiliza e inutilizará sempre os seus trânsfugas.

Fonte: A Cigarra Magazine, dezembro de 1958

[Texto e ilustração de Cornélio Penna, em O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 9 de outubro (aniversário de Itabira) de 1937]

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