Itabira tem registro histórico de conflitos da Vale com comunidades que eram “pedras no caminho” da mineração

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Conflitos da Vale com moradores em Itabira não são novidades. Recorrentes no passado, como estatal a mineradora usava o poder coercitivo e da desapropriação para tirar do caminho quem atravancava o seu avanço sobre a cidade.

Foi assim com o antigo bairro Explosivo, que cedeu lugar à oficina centralizada Cauê. E foi o que ocorreu também com a comunidade rural de Santana, próximo da subestação da Cemig na Pedreira, onde funcionava a fábrica do Jirau, que confeccionava armas de fogo e implementos agrícolas.

Haja Paciência!

Reportagem no jornal O Cometa divulga a situação de abandono dos moradores da Vila Paciência

A Vila Paciência, na década de 1980, foi outra vítima da expansão mineradora. O conflito ocorreu quando a Vale adquiriu as Minas do Meio da Acesita, desmatou a Serra do Esmeril e riscou do mapa a metade do bairro – uma pedra no caminho que atrapalhava o “progresso” da mineração e que precisava ser retirada.

“A mineração continua avançando sobre a cidade. Agora é a vez do desespero dos moradores da Vila Paciência, na qual se tornou insuportável viver, devido à mina da Serra do Esmeril. O bairro está sendo desativado pela Companhia Vale do Rio Doce. Mas a comunidade revoltou-se contra as injustas indenizações, que não compram outra moradia nem na periferia. O pior é que o avanço da mineração sobre a cidade é cada vez mais flagrante. (…).”

“Antes de tudo, o problema coloca em evidência o próprio futuro urbanístico de Itabira. Há sempre planos, projetos etc, mas tudo sempre conjugado no futuro (do pretérito?)”, escreveu Cristina Silveira, na edição de janeiro de 1980 do jornal O Cometa.

Ainda na Vila Paciência, recentemente outros moradores foram desalojados da parte que restou do bairro, mas dessa vez pela via da negociação, já que a mineradora não era mais estatal. Mesmo assim a desocupação “negociada” gerou – e ainda gera – muito descontentamento.

A aquisição de imóveis pela Vale nessa parte da Vila era para se instalar no local um corredor verde para amortecer os impactos da mineração sobre o bairro (poeira, lançamento de pedras de desmontes, poluição sonora, trepidação com a passagem de trem). Parte dos imóveis foi adquirida pela mineradora, mas as negociações com os moradores cessaram – e não veio o corredor verde, conforme havia sido prometido pela mineradora.

Rio de Peixe

Antes da Vila Paciência, foram os antigos moradores da comunidade rural de Rio de Peixe que sofreram com um processo compulsório de desapropriação. O episódio foi pauta da primeira edição do jornal O Cometa, que começou a circular em novembro de 1979. Os moradores foram desapropriados para que a Vale instalasse no local a barragem do Rio de Peixe.

Primeira reportagem de O Cometa de uma série histórica relatando conflitos urbanos com a mineração

“Uma comunidade de cidadãos itabiranos está em franco processo de desintegração. Trata-se dos moradores do Rio de Peixe. Revolta, um misto de perplexidade e desespero tomou conta dos moradores daquela localidade”, registrou o jornal em sua primeira edição.

A reportagem prossegue: “Havia toda uma estrutura montada para se viver no Rio de Peixe. Havia escola. Havia posto-médico, igreja, comércio, áreas de lazer, casa (…). A convivência, o espírito comunitário, o mutirão, a solidariedade eram elementos que compunham os elos que uniam aquelas pessoas, que viviam de seu trabalho, da luta pela sobrevivência, alegrias e tristezas. Pessoas simples e dignas”.

O jornal registra o fim da comunidade: “De repente, não mais que de repente, as pessoas foram desprovidas de sua comunidade. Para onde vão? Recomeçar tudo outra vez em outro local? Lutar por aquilo que consideram justo? Não sabemos, a decisão é deles. O que compete a nós é, no mínimo, solidarizarmos com esse povo sofrido”.

Foi o que fez o engenheiro, artista plástico e poeta Altamir Barros, que acompanhou a reportagem na ocasião e escreveu o poema abaixo, publicado na mesma edição de novembro de 1979.

Rio de Peixe – Passou?

Altamir Barros

A semente lançada cresce, dá frutos

e morre num deserto de rejeito.

O suor diário, escorre, evapora,

transforma em chuva.

O espírito do homem está presente na terra.

Cria-se a vida, criam-se os filhos com o alimento da lida diária

De repente!…

Levantam a marreta, quebram em pedaços a comunidade

Sedimentam nos seus homens os cacos da perda.

A esperança foi coberta pelas águas do seu Rio de Peixe.

A vida desmorona-se,

Igual barranco minado de água

Rio de Peixe, destituído de vida

Das suas águas não mais se bebem

Elas agora lavam minério

E todas aquelas mãos calejadas

Mãos que não contam dinheiro

Fica a ausência

Indenizaram tudo. Será?

Uma perda irreparável para Itabira

Que ora… se desmancha nos prazeres

Do dinheiro, que enche o ar de

Bolhas coloridas de equívoco.

 

 

 

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3 Comentários

    • Cristina Silveira, A Velha Vermelha em

      Mauroquerido, seus comentários são curtos e inteligentes. Gosto tanto que as vezes copio. E o faço de novo: É o assombro com a comunidade,
      um use-me
      e extingue-me…

  1. Cristina Silveira, A Velha Vermelha em

    O artigo sobre a Vila Paciência tem uma história. Naquele ano o Carlos Cruz convidou-me para fazer um determinado trabalho para ele, a minha resposta foi não, dado que eu estava de mudança para o Rio e aquela tarefa exigia muitos meses. Então ele fez outra proposta, que eu trabalhasse numa pauta que ele tinha na gaveta do Cometa, como uma última participação no jornal. Topei e vazei. A matéria foi publicada e a repercussão foi grande, o que eu recebi de telefonemas de Itabira apoiando a causa da Vila Paciência foi enorme, da Vila várias moradores telefonaram agradecendo. E o mais importante da fala dos moradores: as máquinas para destruir as casas que invadia o tanque de lavar roupas havia sido interrompidas. Portanto essa reportagem é do jornalista Carlos Cruz, indevidamente assinada por mim que rolei na fama.

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