Itabira, nesta data tão querida

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Utopia & Distopia

Pedra que brilha/Serra de Itabira/Serra do Cauê/Pico do Cauê. Agora, Montanha Pulverizada. Itabira da Matta Adentro/Itabira de Matto Dentro/Itabira do Mato Dentro/Presidente Vargas. Agora, simplesmente Itabira. Não há mato, capoeirão ocupado de bichos bravos, água de beber e de banhar cristalinas até o mar.

Tinha ouro. Agora, no meio do caminho tem esmeralda, protagonista da lenda, “Serra Verde” e do episódio histórico, o “sonho das esmeraldas”. Mas inútil. Manuel Borba Gato não teve sorte, “por se engolfar, muyto audaciosamente, nos longínquos e bárbaros matagais do rio Doce”.

Parte do “sonho” foi encontrado no século 20 e haveria de ter perseguição e crime, não como os de Gandavo, Felipe Guilhem, Bruzo Spinoza, Jacobina, Marcos de Azeredo, Antonio Dias, Fernandes Tourinho e Fernão Dias Paes Leme. Os métodos são outros na guerra moderna.

F.D.P. Leme – bem-sucedido na busca do “sonho”, acendido pela fantasmagoria da lenda –, partiu de São Paulo, em 21 de julho de 1674, na rota da Serra do Espinhaço.

Quis o destino, 307 anos depois, em 23 de julho de 1981, que a face horrível do “sonho das esmeraldas” chegasse a Itabira. A arma é a da Ditadura de 64: prender, acusar e, de preferência, matar.

E foi assim que o jornal O Cometa Itabirano entrou nesse “sonho”. Deste lado, a arma era uma máquina Olivetti dedilhada pelo jornalista Carlos Cruz em defesa dos interesses econômicos de Itabira. Foi derrotado e enquadrado na Lei de Segurança Nacional (LSN), fartamente usada para calar vozes discordantes dos poderosos do regime militar.

Ficou por um fio de ser condenado à masmorra torturante da Ditadura, não fosse a presença do companheiro e camarada Arp Procópio de Carvalho no Tribunal Militar em Juiz de Fora, a lhe proteger a pele e o pescoço.

Agora já passou, Borba e Cruz são personas no episódio histórico d’A Serra das Esmeraldas. Mas, e o que fica dos brilhantes verdes para Itabira?

O escritor Cornélio Penna em sua residência, no Rio (Acervo: Cristina Silveira)

A extração do ferro é aviltante-dolorosa. Conta 77 anos de arrasamento da cidade. Extenua ver a destruição contínua, voraz; a população vive sob a ameaça de ser dragada pela lama das barragens. Poucos se incomodam com a desgraçaria sem fim, e muitos sabem do que se trata – Expropriação/Exploração/Roubo/Assassinato de trabalhadores/Pobreza/Violência.

E o amigo que sabe, com clareza incomparável, declarou a derrota: “vou morrer sem ver a Vale indo embora de Itabira”.

Resistimos! Ainda estamos vivos.

Nesta data tão querida, “batemos palmas de contentamento” para Itabira com duas crônicas de filhos da terra: Cornélio Penna (1896-1958) e Drummond (1902-1987).

Dois cidadãos que se importaram com a velha cidade. Brindemos com a boa cachaça os cronistas de Itabira – “e isso ninguém rouba de nós”.

Itabirismo, de Cornélio e Itabira e Romance, de Carlos Drummond de Andrade, são lembranças da Vila de Utopia para Itabira, nesta data tão querida.

Quando o menino Carlito nasceu, a lendária Itabira de Matto Dentro tinha 54 anos completos, e em 1987, Itabira completava 139 anos de emancipação política. E Itabira, desde 1942, é uma “cidade Infeliz”.(M.C.S)

Itabirismo

Por Cornélio Penna

Para muita gente a capital do Brasil é o Rio de Janeiro, ou São Paulo.

Para mim, a nossa metrópole, de onde tudo devia irradiar (e há de chegar esse dia) de onde tudo lhe partir, é Itabira do Matto Dentro, com a sua prodigiosa cristalização da alma brasileira, de consciência e de seu princípio essencial.

Sei que ela está ameaçada de destruição, mas, como a cidade divina, ela se erguerá acima da terra, e, pairando em nosso espirito, nos guiará e esclarecerá, conduzindo os discutidores e carregando os verdadeiros míticos, seus filhos prediletos.

Quem melhor do que ela poderá ensinar a arte complexa de ser infeliz, a alegre ciência da renúncia e da humanidade?

Texto originalmente publicado na revista O Cruzeiro, em 9 de outubro de 1937, uma homenagem do escritor a Itabira pelo seu aniversário de emancipação política (Ilustração: Cornélio Penna)

Subindo ao alto do Pico de Itabira, a montanha de ferro, a riqueza cobiçada pelo mundo, e contemplando-se a cidade que corre lá em baixo, como uma serpente entre as pedras negras, compreende-se que é uma riqueza maior, que ninguém cobiça, mas é o verdadeiro tesouro do Brasil.

Compreende se que daquele silêncio pobre, daquela vida extremada, daquela alucinação de ausência e obsessão de nada, deve sair um espirito coletivo novo, de tal fortaleza e austeridade que empolgará a nossa gente, sempre a procura de sua própria alma, e que não a achou porque está voltada para o mar, esquecida de seu velho patrimônio de pobreza taciturna, sadia e indestrutível, sempre a espera dos transviados, para empolga-los de novo.

Os homens que vemos caminhar pelas ladeiras longínquas, cabisbaixos, com um sonho confuso no olhar, aprenderam duramente a viver, souberam dia a dia a tempera crua da minuciosa miséria de seu pão e de suas casas, construídas voluntariamente no pior lugar da pedra áspera, da grota desesperada.

Sobre esse vazio, sobre esse plano absoluto, constroem lares fecundos. Seus filhos, que fogem a procura da felicidade, deslumbrados pelo rumor e pelo brilho cá de longe, esquecem desde logo a lição rude que receberam e, vencendo, são derrotados por esse mesmo esquecimento, que deixa em seu lugar uma incompreensível angústia.

Nada mais inquietante do que sondar o último desses vitoriosos.

Há qualquer coisa que os faz parar em pleno surto, com o coração oprimido, confuso, humilhado, tateando medrosamente em torno de si, completamente fora de seu eixo.

É o sagrado ritmo de Itabira que, uma vez partido, inutiliza e inutilizará sempre os seus trânsfugas.

Texto e ilustração de Cornélio Penna  (Para O Cruzeiro)

Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1937

Imagens da terra

Itabira e romance

Por Carlos Drummond de Andrade

Rio, 22.

Outra homenagem de Cornélio Penna a Itabira na abertura do livro Dois Romances de Nico Horta (CP-1939-Acervo: Casa de Rui Barbosa/Rio)

“Dedico este livro à minha melhor amiga – Itabira do Mato Dentro”, escreveu Cornélio Penna, na primeira página de “Dois romances de Nico Horta”. Não sei se Itabira prestou ou prestará qualquer homenagem ao romancista falecido há pouco, mas se alguém já mereceu de uma cidade um busto no jardim ou pelo menos dar nome a uma rua, esse é Cornélio Penna.

Nasceu em Petrópolis por um desacerto entre temperamento e registro civil. Na verdade, nasceu, viveu e morreu interiormente em Itabira. E quando se desfez de objetos da casa de José Júlio, no Pontal, ou da fazenda do Girau, itabiranamente inscrita nas memórias de sua família, doando-os ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, foi porque sentiu chegar a hora da morte, e não queria ver dispersas aquelas relíquias do mais puro Itabirismo.

O grande serviço de Cornélio Penna a Itabira foi transportá-la inteira para o romance, como personagem. A cidade que ele fixou, deformando-a literalmente, é claro, mas dando-lhes foros de perenidade que a Cia. Vale do Rio Doce, por exemplo, se esforça por destruir, não serve apenas de ambiente a suas histórias.

É a própria substância da ficção de Cornélio, em suas obras mais características. E as personagens a que ele atribui nomes reais, ou próximo do real, como Didina Guerra, padre Olímpio, d. Maria Rosa, Siá Nalda, Sinhá Gentil, são ramificações da figura maior, da cidade mesma, sentida como um todo humano e misterioso. Os sítios e casas funcionam também com esse caráter de emanações de uma substancia viva e severa, presente em tudo.

Às primeiras linhas de “Fronteira”, o trecho em xilogravura, por assim dizer, sobre as imediações de Itabira, vistas por quem ali chegou a cavalo, sob a tempestade, já reflete a intenção do autor, de integrar-se num mistério pressentido, e dominá-lo pela vivência: “As montanhas negras, escorrendo chuva, apagadas pelo denso nevoeiro que sobe da terra, calçada de ferro e também negra, caminham aos meus olhos lentamente, como em sonho sufocante”.

Desenho de Cornélio Penna: antiga Câmara Municipal, hoje Museu de Itabira

Descrevendo um casarão “apenas clareado pelos recortes em forma de coração, ou em losango, que se abriam toscamente, ao alto, em plena madeira e pela imensa claraboia, de telhas enormes, do corredor”; ou os panos fúnebres que cobriam as antigas sepulturas da sacristia da Matriz ou uma “credencia de orelha d’onça, guarnecida de espelhos manchados”; em tudo tirando da notação naturalista um prolongamento mágico que conferia à sua arte algo de pesadelo, Cornélio Penna conseguiu romantizar o complexo social, econômico e psicológico da velha cidade de mineração, de tal sorte que seus livros itabiranos não tratam propriamente de crimes, de loucos e de conflitos morais, mas antes de uma entidade municipal por ele erigida em ser corpóreo e passional, com uma “presença” que não esquece a quem haja lido esses livros, e que a mim até me causa um certo medo.

Já me perguntei mais de uma vez se a Itabira desses romances era imagem fiel daquela em que nascera e me criara; e me respondi que, embora diferente, era válida, pois assim Cornélio tivera força de imaginá-la e recriá-la, impondo seu modelo a uma realidade sem dúvida estranha, embora não tão extraordinária.

Depois de sublimar a cidade, Cornélio fez mais. Em pequeno artigo escrito em 1937 para “O Cruzeiro”, e intitulado “Itabirismo”; diz que para seu gosto a capital do país não está no Rio ou em S. Paulo, mas em Itabira, pela “prodigiosa cristalização da alma brasileira, de sua consciência e de seu princípio essencial”.

“Daquele silêncio pobre, daquela vida extremada, daquela alucinação de ausência e obsessão de nada, deve sair um espírito coletivo novo, de tal fortaleza e austeridade que empolgará a nossa gente, sempre à procura de sua própria alma”. Sociologia romântica e fantasista, sem dúvida, mas que traduz os extremos do amor corneliano àquela cidade mineira.

Guardo uma lembrança desse itabirano mais itabirano do que se houvesse nascido à sombra do extinto Pico do Cauê: o original de um dos bicos-de-pena com que ele mesmo ilustrou “Fronteira”, e que representa o beco da Cadeia, com o fundo do velho sobrado em cuja parte térrea, negra e viscosa, os presos cantavam e faziam um artesanato de miséria. Sobrado que Cornélio assim descreve:

“Parecia o crânio de uma caveira ali enterrada há muitos anos, acocorada, à moda dos índios, no cimo do morro, e que as chuvas e enxurradas fossem descobrindo lentamente”. Nesse desenho e nessas palavras percebo todo o “pathos” do escritor, que de ruínas e silêncio fez uma obra viva.

C.D.A.

 

 

 

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4 Comentários

  1. Muito bom, mais uma vez, Cristina Silveira,

    (por mais que você possa pensar: mas é Cornélio e Carlos que estão falando!)

    itabiranos e agregados de toda sorte e seitas, por atavismo e raízes e galhos das árvores que mostram quem nas histórias, ficam felizes por saber mais. Ou por ressaber

    Itabira talvez, só talvez, não mereça tanto.
    Ou mereça, porque vem antes do começo da fatalidade da destruição irreversível, da derrota incomparável dita por Tutu Caramujo e cantada para sempre ser lembrada quando se esquecer.

    Por tudo isso há que abrir a boca do orgulho (gorgulho – eu entro – com quantos?) e poder dizer: temos quem sendo daqui mesmo que nos olha e conta diferente: poetas, escritores, cometas, malucos, visionários.

    Enfim os que sonham. Ainda sonham. Mesmo os já idos.

  2. eu sei porque me contaram quem sabe das coisas.
    e o Onça confirmou,

    A manchete da capa da edição de outubro de 1987, dois meses após a morte de Carlos Drummond de Andrade, não tem nada a ver com a morte do poeta, como chegou a ser falado, publicado e estudado.
    Me contou com a bocarra bem aberta o grande O Onça.

    A manchete da capa era:

    “NÃO ESTAMOS COMEMORANDO NADA”

    Era mais uma crítica à realidade de Itabira

    De novo neste 09 de novembro, agora de 2019, repete-se em alto e bom tom:

    —NÃO ESTAMOS COMEMORANDO NADA

  3. Cristina Silveira, A Velha Vermelha em

    Itabirismo, é a minha geleia de Jabuticaba de Sabará que agora saboreio com os pães do velho Cometa Itabirano: MP e Gusmaozinho. E eu comemoro na “devoração” do MP e Gusmãozinho, tudo comida boa!

  4. Aguilay Silveira em

    Impressionante o amor de Cornélio Penna por Itabira.
    Além da sua escrita belíssima ele tem um belo traço, a ilustração de Itabirismo é um arraso.
    Muito obrigada Cris.

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