Itabira encerra Semana da Consciência Negra com conquistas importantes

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José Norberto de Jesus*

A Semana da Consciência Negra (Educando sem racismo) realizada de 18 a 25 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, teve várias razões para comemorar o feito neste ano.

A programação trouxe o povoado do Capoeirão como a grande novidade em Itabira. A luta dessa comunidade negra para que fosse reconhecida como Quilombo, e ter suas terras certificadas, chegou ao término de forma vitoriosa.

Moradora do povoado Capoeirão, reconhecido como remanescente de quilombo (Fotos: Hudson Anunciação). No destaque, apresentação da Guarda-de-Marujos-Nossa-Senhora-do-Rosário (Fotos: Divulgação). 

O documento de certificação de outorga realizado pela Fundação Palmares, órgão ligado ao Ministério da Cidadania, reconhece Capoeirão como remanescente de quilombo.

Foi uma conquista histórica dos moradores, um reconhecimento há muito reivindicado. Com a assinatura da certificação, o povoado passa a ser reconhecido como Quilombo na Comarca de Itabira.

Com isso, o município passa a contar com dois quilombos devidamente reconhecidos pela lei, juntando-se à comunidade do Morro de Santo Antônio. As lideranças comunitárias se uniram, mais uma vez, como demonstração de resistência, honrando a tradição e as lutas de seus antepassados – e também do presente.

Foi assim que demonstraram às autoridades a importância do reconhecimento, que veio com a certificação. O seu valor vai muito além de um documento protocolar.

Torna-se, portanto, um reconhecimento do esforço coletivo, do sentimento de pertencimento dos moradores, valorizando a comunidade com toda a sua história e cultura secular.

É uma conquista também de todo movimento da consciência negra em nosso município, que teve início no início da década de 1980 em Itabira.

De posse do documento, o povoado de Capoeirão, a comunidade adquiriu autonomia. A documentação irá permitir o acesso dos moradores do povoado ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar; além da participação nos programas Minha Casa Minha Vida e Brasil Quilombola, dentre outros benefícios.

Intervenções

Intervenção de Sérgio Dias, ex-Drummonzinho, com o poema O Diabo na Escada, de Drummond

A Semana da Consciência Negra foi marcada também pelas criativas intervenções escolares que têm cumprido o calendário anual, valorizando esta data que é uma referência para o pais.

É importante destacar que o calendário tem estimulado a criatividade dos alunos com boas práticas, e o desenvolvimento das atividades que a cada ano, traz sempre algo novo, de modo a contribuir para o exercício da reflexão, em favor de novos comportamentos combativos ao racismo e ao preconceito racial.

Tudo isso tem sido feito por meio de atividades escolares, utilizando painéis, vídeos, exposições, palestras seguidas de debates, contação de histórias com vários assuntos em pauta.

Atividades culturais

É importante ressaltar que durante a Semana da Consciência Negra foram desenvolvidas atividades diversas com o objetivo de fortalecer o debate contra o racismo enraizado na sociedade brasileira, em especial, em Itabira.

Quem acompanhou toda essa movimentação de valorização desta luta, percebeu o empenho da Diretoria e da sociedade civil organizada, com participações de instituições escolares em todos os níveis.

E, também, de outras organizações aqui e no estado, comprometidas na luta pelo combate e eliminação do preconceito racial nos diversos segmentos sociais.

Sá Maria foi personagem de destaque na educação do menino Carlito

Exposição no Centro Cultural representando o quarto de Sá Maria com a colcha de retalhos e o fogão à lenha da cozinha da fazenda

Ainda dentro da programação, o Departamento de Promoção da Igualdade Racial promoveu a apresentação das Guardas de Marujo, Roda e Oficina de Capoeira, além de outras atividade inclusivas.

Em meio a toda discussão acerca da luta contra o racismo e o preconceito racial, surge o lirismo da coletânea poética em torno da Sá Maria, personagem do poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade.

Bitinho e Primo, percursores do movimento negro em Itabira, em 1980 (Foto: acervo O Cometa)

O leitor, entretanto, pode, de repente, questionar o que a Sá Maria tem a ver com essa história da Semana da Consciência Negra? Em meio a várias vertentes para contemplar a resposta, posso responder que tem tudo a ver.

A começar pela exposição desses fragmentos que compõem a mostra da exposição Sá Maria, fragmentos. Sá Maria, para quem não sabe, foi uma mulher negra, descendente de escravos, que teve grande importância na infância e adolescência do menino Carlito (Drummond), de várias maneiras, integrando-se à família dos Andrades.

Precisamente, dentre as diversas atribuições, ela cuidou dos meninos da família, em especial dos filhos do coronel Carlos de Paula Andrade. A exposição procurou mostrar o papel e a relevância daquela mulher, que mesmo sendo oriunda da família escrava, ocupou com voz ativa na educação dos filhos do coronel. E, também, nos mandos da família, enquanto serviçal, uma vez que não era tratada como escrava.

Fragmentos

Sá Maria foi uma mulher de grande caráter, que, mesmo sendo analfabeta, quase invisível, ocupa o seu espaço. Servir era seu atributo, mas com sua sapiência, interferiu no imaginário do “menino Carlito”.

Mais tarde, Drummond se torna poeta e escritor de renome. No decorrer de sua vida, generosamente, ele manifesta o carinho que nutria por ela, dedicando-lhe diversos poemas.

Pichação de muro em pleno século 20 (acervo: O Cometa)

Em todos esses poemas, as suas qualidades são exaltadas como tendo servido de referência à formação do cidadão comprometido com a defesa das minorias, como se observa em vários de seus poemas.

Nessa coletânea, exemplo vivo dessa defesa, o poeta exalta a Sá Maria, cuja sabedoria, demonstra a gratidão à sua pessoa.

Foi o caso da exposição Sá Maria, fragmentos, que traz a poesia para dentro de um contexto ainda pouco explorado, visando alcançar os poetas de vertente africana e novos públicos comprometidos com a arte e a cultura negra.

Com a exposição “São Maria, fragmentos” foi aberto um espaço para inserir novas ações artísticas, a exemplo da apresentação artista performática, Sérgio Dias, na abertura da exposição,

Ocorreram também atrações literárias, inclusive, com as obras de Drummond, permitindo aos organizadores ampliar o leque, para que novos talentos possam surgir.

Essa abertura pôde ser observada por meio da literatura, artesanato, contação de histórias, gastronomia, com o artista negro se destacando, ampliando o seu leque de inserção na cultura e nos aspectos sociais de Itabira.

Agradecimentos

Em se tratando de Sá Maria, é importante ressaltar, o apoio da Prefeitura de Itabira, da Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio (EEMZA), que por intermédio dos professores e diretoria removeu os obstáculos para que os alunos participassem das atividades externas.

Destaque também para a participação da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), que cedeu espaço para a instalação da exposição, assim como do COMPIR, DIPIR (Conselho e Diretoria de Promoção da Igualdade Racial), além de vereadores que apoiaram a iniciativa (Decão, Ronaldo Capoeira e Luciano Sobrinho), por meio dos quais apresentamos nossos agradecimentos.

*José Norberto de Jesus, o Bitinho é militante da União de Negros Pela Igualdade (Unegro)

 

 

 

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