Itabira em gótico

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Carlos Drummond de Andrade

Nossa Senhora da Saúde, lá no céu, não tem mãos a medir, como intercessora dos doentes. De todos os lados, fiéis pedem-lhe a cura de seus males. Por serem muitas as rogativas, ou porque o seu coração não abriga a menor partícula de egoísmo, a boa Senhora não tem tempo pra cuidar de si mesma e de seus espirituais interesses na Terra. Vai daí, a igreja que lhe é consagrada vem sofrendo, mais que os ultrajes do tempo, os agravos da administração.

Há anos, o padre que dirigia o velho templo acordou com ímpeto reformatório. Olhou para o altar-mor, que era simples e decente, erigido nos longes do século XIX, e exclamou:

– Que bom seria se ele fosse gótico!

Altar original da igreja da Saúde (Foto: Brás Martins da Costa/Retratos na Parede/Altamir Barros/Robinson Damasceno). No destaque, a torre da Saúde, que já foram duas (Foto: Mauro Andrade)

E tanto o desejou assim que alguém lhe deu de presente um gótico “legítimo”, da Casa Sucena, destinado a provar que, muito antes de 1720, quando chegaram à região os primeiros exploradores de ouro, a arte medieval já manifestava ali os seus primores, para edificação dos índios e das onças na mata virgem.

O altar gótico substituiu o outro (Nossa Senhora da Saúde nem reparou); mas restavam os dois altares laterais, igualmente oitocentistas e, por isso mesmo, interiorizados no confronto com aquela maravilha artística.

Veio outro vigário, e não teve dúvida, sem pedir licença a Nossa Senhora, deu sumiço neles. O gótico ficou sozinho, majestoso, absoluto.

Do outro lado da rua, a igreja mantinha um cemitério, para descanso final dos irmãos da Arquiconfraria de São Francisco. Era um velho cemitério, cercado por muro de pedra, com sua melancolia discreta e sua tradição.

Mas ocupava um espaço que o vigário novo entendeu servir melhor a outros fins. Então, mandou aviso a todos os parentes das pessoas aí sepultadas, para que removessem os ossos respectivos.

Ainda desta vez, foi omitida a consulta à Senhora celeste, proprietária ideal da igreja, mas ouviu-se a autoridade municipal, que aprovou o projeto de “urbanização” daquele cantinho reservado aos mortos. O cemitério foi desocupado e dessacralizado.

No lugar, abriu-se um pátio para estacionamento de ônibus e instalaram-se oito botecos, que fornecem renda para o serviço eclesiástico e presume-se, à municipalidade, que aliás não precisa desses trocados; sua receita orçamentária sobe à casa de bilhões de cruzeiros.

Os fieis entreolham-se e perguntam o que restará, dentro em pouco, da igreja onde se batizaram e casaram, e junto à qual dormiam os seus antepassados. Será demolida para se construir no local um cinema-drive-in ou um supermercado? Nesse caso ( a gente gosta de saber de tudo), o altar gótico será aproveitado como elemento decorativo ou posto em leilão?

Nada se sabe de positivo. Sabe-se apenas que esse padre é candidato a prefeito do município, nas próximas eleições. O que ele terá em escala maior, na hipótese de sair vitorioso pelo voto dos eleitores afeiçoados ao gótico, é matéria de profunda especulação. Nome do município: Itabira, Minas Gerais.

Não será caso único neste Brasil amigo de novidades e falsas antiqualhas, e indiferente, quando não hostil, aos valores históricos regionais, que dão caráter a uma cidade. Mas é hora de interpretar com devido respeito a suave e misericordiosa Nossa Senhora da Saúde: Que que é isso, minha santa? Vai deixar que sua igreja acabe, e a comunidade também?

(Crônica publicada originalmente na revista O Cruzeiro, 12/01/1979 – Acervo: ABI – Pesquisa: Cristina Silveira)

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2 Comentários

  1. Mauro Andrade Moura on

    Muito estranho essa apropriação do cemitério, pois o mesmo era de uma confraria e por tal esta tinha seus associados particulares, sendo a igreja mera mantenedora.

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