Itabira e Carajás são os carros-chefes na recuperação da Vale, disse presidente da mineradora

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O complexo minerador de Itabira é o único do Sistema Sul, da Vale, que não sofreu interrupção por problemas com barragens, após o rompimento da barragem 1 da Mina de Córrego do Feijão, no dia 25 de janeiro em Brumadinho, deixando centenas de mortos e desaparecidos, além de um rastro de destruição ambiental no rio Paraopeba.

Itabira produziu 43 milhões de toneladas (Mt) de minério de ferro (pellet-feed) no ano passado – e é bem possível que a produção local alcance, já neste ano,  a sua capacidade máxima de 50 Mt.

“Até poucas semanas atrás, as únicas minas que estavam ‘rodando’ em Minas Gerais eram as de Itabira”, disse o engenheiro Quintiliano Fernandes Guerra, gerente de Geotécnica e Hidrogeologia da mineradora, em palestra na segunda-feira (29), no auditório da Funcesi, na abertura da Semana Municipal do Trabalhador, promovida pelo sindicato Metabase.

Eduardo Bartolomeu, presidente da Vale (Foto: Divulgação), No destaque, a usina Cauê (Foto: Xillaudo Andrade)

“O nosso novo presidente Eduardo Bartolomeo disse que a Vale só irá continuar existindo por ser uma empresa forte”, complementou.

“Carajás e Itabira vão ter que dar conta dessa recuperação. ‘Precisamos do minério de Itabira para reconstruir a nossa empresa’, foi o que disse o nosso presidente.”

Para isso ocorrer, o gerente da Vale reconhece que terão de ser feitas mudanças nas rotas produtivas, principalmente na forma de dispor corretamente os rejeitos das usinas de concentração de minério.

“Itabira depende da mineração, como a Vale precisa do minério de Itabira”, acentuou Quintiliano Guerra, ao reconhecer que o modelo hegemônico de mineração entrou em colapso com o rompimento de barragens de rejeitos.

“Já estamos debatendo as diferentes formas de descomissionamento de nossas barragens. Até as que são consideradas mais seguras serão reforçadas com novas estruturas”, adiantou.

Mudanças urgentes e necessárias devem ser implantadas desde já 

Dique do Minervino e cordão Nova Vista: rejeito de minério será reaproveitado para virar pellet-feed (Fotos: Carlos Cruz)

Entre as mudanças no modelo minerário, Guerra disse que a Vale já tem buscado maior eficiência produtiva para reduzir o volume de rejeitos. “Vamos melhorar ainda mais o processo de concentração, tornando o aproveitamento nas usinas mais eficaz, para seguir somente areia (sílica) para as barragens”, exemplificou como um dos meios para que ocorra menor disposição de material não aproveitado nas barragens.

A empresa irá também intensificar a recuperação do minério de ferro contido nos rejeitos depositados na barragem do Rio de Peixe, no dique Minervino e no cordão Bela Vista. “Ao longo dos anos foi carreado muito minério para as barragens e que precisamos buscar de volta. Devemos fazer isso em larga escala”, adiantou o gerente.

Quintiliano Guerra, da Vale, disse que modelo de mineração terá de ser mudado, com disposição de rejeitos a seco

A Vale já vem fazendo o reaproveitamento dos rejeitos na barragem do rio de Peixe – e teve que interromper o bombeamento desse material do dique Minervino, por força de uma liminar na justiça.

Esse reaproveitamento deve ser retornado assim que as obras de reforço nessas estruturas sejam concluídas.

Mas a mineradora enfrenta disputa na justiça em torno do direito de pesquisar e lavrar essas chamadas reservas antropogênicas, que foram depositadas nas barragens.

É o que ocorre em parte da barragem do Itabiruçu (leia aqui). “Esses recursos são patrimônios da Vale, assim como é de sua responsabilidade manter a segurança de todas as suas barragens”, tratou de defender Quintiliano Guerra.

Esses recursos ainda não foram medidos, daí que não se sabe o volume que será acrescido às reservas locais, assim como o tempo a mais que representarão no horizonte da exaustão das minas de Itabira.

Pilhas secas e cavas

Outra medida para diminuir rejeitos nas barragens é a disposição em pilhas a seco. “Vamos ter no futuro em Itabira um beneficiamento a úmido, mas com disposição a seco em pilhas, que depois serão revegetadas com espécies nativas. Esse é o futuro de nossa mineração em Minas Gerais.”

A dificuldade, disse o gerente da Vale, ainda tem sido descobrir qual é o melhor equipamento para retirar a água do rejeito em larga escala. “Essa técnica é relativamente nova e só teve início após o rompimento da barragem de Mariana.”

Vale já está reaproveitando rejeito da barragem do rio de Peixe

Segundo o gerente da Vale, já estão sendo testados vários equipamentos para esse fim, de acordo com a granulometria e a escala.

Ele citou as prensas horizontais e verticais, com as quais os rejeitos são espremidos como se fosse numa sanfona. “A água sai pelas telas, retornando para o meio ambiente. E o rejeito seco é disposto em pilhas.” 

Outra opção é dispor os rejeitos nas cavas das minas exauridas, o que já ocorre em Itabira desde 2005, na antiga mina Cauê. “É uma forma de aproveitar áreas já impactadas.”

As Minas do Meio já estão sendo preparadas para receber rejeitos, como também material estéril proveniente da mina Conceição – única que deve permanecer em atividade até próximo de 2028, fatídico ano em que a mineradora anuncia para o fim das reservas itabiranas. Isso se a exaustão não ocorrer antes, uma vez que a produção local deve atingir a capacidade máxima nos próximos anos.

É importante também salvaguardar para futuro abastecimento público, e atração de novas indústrias, o acesso à água de classe especial dos aquíferos.  Esse seria o grande “legado” da mineração após a exaustão.

Se nada for feito para protegê-lo, pode-se transformar em mais uma derrota incomparável. A garantia de acesso a esse aquífero deve ocorrer antes que venham os itabiritos pobres de outras localidades para beneficiamento no complexo de Itabira.

Descomissionamento 

Além de reforçar as estruturas de contenção de rejeitos já existentes no município, o gerente da Vale contou que a mineradora já está fazendo o descomissionamento de várias barragens.

Um dos métodos empregado é o de descaracterizar essas estruturas, retirando a água da barragem, dirigindo a água das chuvas para um canal. O material que não é reaproveitado é coberto com novo solo para ser revegetado com espécies nativas.

Barragem das Três Fontes está sendo descaracterizada e já não recebe resíduos

Um exemplo dessa medida já ocorre no dique Batatinha, na cidade de Rio Piracicaba, onde não há mais o barramento, que foi suprimido. “A água segue o seu curso pelo canal e não fica retida”, explicou. 

Outro método é a descaracterização da barragem, que continua mantendo o material depositado. Conforme foi explicado, é feito um reforço estrutural na parte de trás da barragem, que também deixa de armazenar água.

Já a água das chuvas segue por um canal especialmente construído para suportar grandes vazões no período chuvoso.

Um exemplo dessa descaracterização está em Itabira, no dique 105 que continha sedimento da mina Periquito. Como já não tem essa finalidade de conter sedimento e água de chuvas, o reservatório foi recoberto com pedras e solo, que está sendo revegetado desde o ano passado.

“É uma barragem a menos que temos em Itabira. Estamos finalizando o mesmo processo no dique Ipoema, na estrada para os distritos”, contou Quintiliano Guerra. “Uma vez descomissionadas ou descaracterizadas, a Vale continua sendo dona e responsável por essas estruturas para sempre”, assegurou.

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3 Comentários

  1. Wilson Anatólio Machado Lage on

    O mais justo seria a Vale indenizar todos que estão na rota da lama.
    Por mais seguro que seja nenhum deles vão morar nestas rotas.
    Só acredito na segurança se os diretores morarem com suas famílias nestas rotas.
    Por mais BLÁ BLÁ que tenha, sempre existirá uma possível ruptura.
    Quem esta na rota da lama que se dane ou depois corra atras se sobreviver, iguais os casos já ocorridos.

    Não é justo fazer isto com a população que esta na rota.

    “Quer conhecer o caráter de um homem dê dinheiro a ele, quer conhecer sua dignidade dê poder a ele”

    “A consciência é o termômetro da dignidade”

    Se por ventura ocorrer um desastre qual será a explicação após tudo isso.

    Wilson Anatólio

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