Incas: e se a Europa tivesse sido conquistada pelo império liderado por Atahualpa?

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Por Arturo Wallade

BBC News Mundo

A última obra do escritor Laurent Binet, um romancista francês de 44 anos, responde uma pergunta que milhões de latino-americanos provavelmente já se fizeram muitas vezes. O que teria acontecido se a América tivesse “descoberto” e colonizado a Europa, e não vice-versa?

Em Civilizações, o escritor imagina um mundo onde um pequeno e bastante plausível acidente na história mudou o rumo do planeta: exploradores vikings, em vez de simplesmente passarem pela costa canadense, são forçados a se estabelecer no continente americano. Quinhentos anos depois, sua herança — na forma de armas de ferro, anticorpos e cavalos — transformou a resposta dos índios Taino, no Caribe, à chegada de Colombo.

No romance, em 1531, é o último rei do império inca, Atahualpa quem invade a Europa e inicia a colonização do império de Carlos 5º, do sacro império romano-germânico.

A BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol) conversou com o escritor francês sobre esse cenário imaginado.

BBC – Em seu livro,o sr. imagina que para isso bastaria uma pequena mudança na história.

Binet – Exatamente. Eu acredito nos acasos da história. Quer dizer, acho que existem grandes tendências e a história não muda quando você estala os dedos. Mas isso não significa que não haja grandes coincidências. Uma das questões é que os europeus tinham mais animais domésticos do que os nativos americanos. E em contato com esses animais eles ficavam mais expostos aos micróbios. Por que foram os europeus que conquistaram o mundo e não os asiáticos ou os africanos? E talvez a resposta seja por que eles tinham porcos e vacas. Acho que é uma ideia interessante.

Agora, também se sabe que os vikings chegaram ao Canadá por volta do ano mil. Eles chegaram, mas não ficaram. Se eles tivessem ficado, tudo poderia ter sido muito diferente. Portanto, este é o meu ponto de partida: o que aconteceria se Cristóvão Colombo chegasse em Cuba e encontrasse indígenas que tinham cavalos, armas de ferro e 400 anos para se preparar para a chegada de seus micróbios?

Pintura do assassinato de Atahualpa

O romance de Binet é uma versão alternativa da história (Getty Images)

BBC – Em seu livro,o sr. imagina que para isso bastaria uma pequena mudança na história.

Binet – Exatamente. Eu acredito nos acasos da história. Quer dizer, acho que existem grandes tendências e a história não muda quando você estala os dedos. Mas isso não significa que não haja grandes coincidências. Uma das questões é que os europeus tinham mais animais domésticos do que os nativos americanos. E em contato com esses animais eles ficavam mais expostos aos micróbios. Por que foram os europeus que conquistaram o mundo e não os asiáticos ou os africanos? E talvez a resposta seja por que eles tinham porcos e vacas. Acho que é uma ideia interessante.

Agora, também se sabe que os vikings chegaram ao Canadá por volta do ano mil. Eles chegaram, mas não ficaram. Se eles tivessem ficado, tudo poderia ter sido muito diferente. Portanto, este é o meu ponto de partida: o que aconteceria se Cristóvão Colombo chegasse em Cuba e encontrasse indígenas que tinham cavalos, armas de ferro e 400 anos para se preparar para a chegada de seus micróbios?

Ilustração da conquista da américa pelos espanhois

Armas e cavalos foram uma grande vantagem dos espanhóis

BBC – Quando começou a escrever simplesmente se deixou levar pela pergunta e pelo prazer de tentar respondê-la através de um romance, ou também tinha um propósito político?

Binet – Você é sempre político, queira ou não, um texto sempre acaba sendo político. Eu tinha certeza de que seria divertido, e também muito interessante, ter a perspectiva dos derrotados. Há, de fato, outro livro sobre os incas, The Vision of the Vanquished (A Visão dos Aniquilados), de Nathan Wachtel, que explica como os incas viram a chegada dos espanhóis.

E esse exercício de inversão foi claramente algo que me interessou e eu queria olhar para externos à nossa própria sociedade. Achei isso tão divertido quanto interessante.

Mas o livro foi construído numa perspectiva um tanto erudita, pois gosto de fazer muita pesquisa. Pensei nisso como um jogo e é por isso que o livro tem o mesmo nome de um jogo de computador: Civilization. O título em francês também é escrito assim, com z, como em inglês, porque é uma referência ao jogo. Tudo que fiz foi colocar no plural. Não é civilização, mas civilizações.

BBC – O sr. descreve uma Europa com poucas liberdades e muitas desigualdades, fragmentada pelas guerras religiosas em 1500. E Atahualpa aproveita esse momento para conquistá-la. Mas o tipo de sociedade um pouco mais justa e igualitária que você oferece aos “levantinos” — como você chama os europeus — é um reflexo da sociedade inca?

Binet – Certamente havia diferenças (entre a sociedade inca e as sociedades europeias). Mas minha intenção não era estabelecer uma hierarquia e dizer que os indígenas eram melhores. Nem os incas, nem os astecas tinham democracias. Eram impérios imperialistas, que de fato estavam em processo de expansão.

É por isso que eu não queria que o modelo de Atahualpa fosse Erasmus (de Roterdã), mas Maquiavel. Porque Atahualpa não era escritor ou poeta, mas chefe de Estado. E como chefe de estado, ele precisava de Maquiavel mais do que de Erasmus. Portanto, suas decisões são pragmáticas.

Se ele ajuda os judeus, os muçulmanos ou os camponeses alemães, e se ele se alinha com a França, é por pragmatismo, o mesmo pragmatismo de Hernán Cortés (espanhol que destruiu o império asteca). No México, Cortés fez algo semelhante: aliou-se a todos os povos indígenas conquistados pelos astecas.

Então para mim é puro pragmatismo, como Cortés e Pizarro. E em um nível estratégico ao longo de meu livro Atahualpa se comporta e raciocina como Cortés e Pizarro. Onde posso encontrar aliados? Bem, entre as minorias oprimidas, foi o que Cortés fez.

E então ele arma uma armadilha para Carlos V, assim como Pizarro fez em Cajamarca para capturar Atahualpa. Sabemos pelos próprios conquistadores que Atahualpa era alguém inteligente, agradável. Mas usando esses elementos eu o torno mais astuto, um pouco como um espelho de Cortés. Na verdade, devo confessar que tenho uma queda por Cortés.

Laurent Binet

Binet escreveu o livro após uma viagem ao Peru (Foto:EPA)

BBC – Mas então por que os incas e não os astecas? Montezuma teria sido o protagonista se antes de ir à Feira do Livro de Lima você tivesse ido a Guadalajara?Binet – Pode ser. E fui depois na Feira de Guadalajara. Então sim, a escolha foi um pouco fruto do acaso, mas ao mesmo tempo fico feliz por ter escolhido os incas, porque sua organização econômica e social me parece mais interessante. Então foi um acaso, mas um acaso feliz.

BBC – No livro, há muitos episódios em que o sr. parece inverter o que aconteceu durante a conquista.

Binet – Sim. Por exemplo, o massacre de Toledo (episódio do livro) equivale ao massacre de Cholula nas mãos de Cortés e seus homens, simplesmente transferido para a Espanha.

BBC – Quanto tempo gastou pesquisando e documentando para identificar e compreender todos esses episódios?

Binet – Foram quatro anos de trabalho. Na França, o livro saiu em 2019, então foram quatro anos de trabalho e muitas leituras de todos os tipos. Especificamente sobre os incas, existem muitos livros muito bons em francês, mas uma de minhas fontes mais importantes foi Garcilaso de la Vega, assim como as crônicas da conquista. Pedro Pizarro, primo de Francisco Pizarro, por exemplo, escreveu a história da conquista do Peru, e muitos conquistadores espanhóis forneceram testemunhos muito valiosos sobre os incas.

Na verdade, eles são os únicos, porque não há depoimentos escritos dos próprios incas. Mas Garcilaso de la Vega foi fundamental para me ajudar a entender a organização política, econômica e social dos incas, suas regras e seu sistema de distribuição de terras, que me interessou muito.

Hernán Cortés

O Atahualpa de Binet foi parcialmente inspirado no espanhol Hernán Cortés (Getty Images)

BBC – O livro também destaca seu papel de provedor dos mais vulneráveis, como uma versão do Estado de bem estar social primitivo.

Binet – Exatamente. Porque a pergunta que todos me fazem é o que seria diferente na Europa hoje se os Incas tivessem nos invadido? E minha resposta nesse caso foi: teríamos tido seguridade social muito antes.

BBC – E o sr. realmente acha que as coisas teriam acontecido assim? Realmente acha que nosso mundo seria muito diferente?

Binet – Acredito que pelo menos não teríamos um sistema capitalista, mas uma economia planejada. Acho que essa seria a principal diferença. E quando se trata de questões religiosas, acho que uma parte significativa da Europa poderia ter adotado o culto do Sol. Mas não tenho certeza se o catolicismo teria desaparecido completamente. Eu ainda gosto de imaginar um mundo no qual os incas invadem a Europa e então os astecas se juntam a eles e, finalmente, os incas e astecas se aliam contra os católicos e os muçulmanos turcos de Suleiman.

E acho que, geopoliticamente, isso também teria reconfigurado muitas coisas em uma época em que, como você bem sabe, a religião era muito instável na Europa. Houve Martinho Lutero, Henrique 8º que criou sua própria igreja na Inglaterra…

Certamente muitas coisas teriam mudado. Mas também não acho que teríamos paz na Terra e democracia depois do século 17, de forma alguma. Acho que as guerras teriam continuado. Só que em vez de igrejas, outros tipos de templos teriam sido construídos, então também teria havido muitas mudanças arquitetônicas, artísticas, etc. Muitas mudanças. Embora até que ponto é algo que não posso saber.

BBC – O sr., como escritor, parece estar brincando com a história. É o que mais te interessa?

Binet – Certamente estou interessado na relação entre história e ficção. Na verdade, todos os meus três romances falam sobre isso, apenas de ângulos diferentes. A questão é confrontar a realidade e a ficção e ver como se relacionam. Às vezes eles se fundem, às vezes eles se rejeitam, às vezes eles se casam, e todas essas possibilidades me interessam. História é certamente minha matéria favorita.

No destaque, o inca Atahualpa é imaginado invadindo a Europa no livro  (Getty Images)

 

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