Império Serrano volta ao Grupo Especial, nos seus 70 anos, retornando à sua tradição

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Lenin Novaes*

A escola de samba Império Serrano ainda festeja os seus 70 anos de fundação, 23 de março de 1947, com a vitória alcançada no Grupo de Acesso e que, assim, lhe permite desfilar no Grupo Especial, no Carnaval 2018. Por sete anos consecutivos a agremiação, considerada a quarta escola na preferência nacional, esteve rebaixada. Portanto, ano que vem, com certeza, a atenção estará voltada à verde-e-branco de Madureira. E o que se pode esperar de seu desempenho com o tema-enredo O Império do Samba na rota da China?

Wilson das Neves, baterista preferido de Chico Buarque, reestruturou a Velha Guarda Show (Divulgação)

Bem, o desfile das escolas do Grupo Especial será nos dias 11 e 12 de fevereiro, com a Império Serrano sendo a primeira a se apresentar no sambódromo, domingo, seguida de São Clemente, Vila Isabel, Paraíso do Tuiuti, Grande Rio, Mangueira e Mocidade de Padre Miguel. Dia seguinte: Unidos da Tijuca, Portela, União da Ilha, Salgueiro, Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor.

É desafiador para o carnavalesco Fábio Ricardo o trabalho de definir em alegorias, adereços e fantasias o enredo O Império do Samba na rota da China às tradições da Império Serrano. Espero que não fique no meio do caminho ou que caia na vala comum, como, inclusive, já aconteceu com a agremiação Tradição, até hoje no buraco. Na introdução do enredo de Lelé Arantes, os historiadores e pesquisadores Helenise Guimarães e Roberto Vilaronga divisam o seguinte:

“Mal clareou no subúrbio, e eu não falo absurdo. É tanta lida no seu caminhar, que na escola de samba ele faz o seu altar. A baiana borda a fantasia, a passista risca o chão de poesia e o poeta afina seu cantar. É pelo espelho da cultura que o sambista se deslumbra com mundos diferentes. Descobrindo pelo descortinar do enredo, um outro Império, de outras vertentes – Império do Centro. Centro de culturas milenares, sabedorias e tradições. Conhecer a China de raízes, raças, heróis e povos constituídos num só coração”.

Jorginho do Império, com Nadza Holanda, é filho de Mano Décio da Viola (Foto: Lenin Novaes)

Para os componentes da escola, também, o desafio não é menor. Os compositores, por certo, não vão tirar de letra o samba para embalar o desfile. Não que não tenham capacidade. Pelo contrário. É da Império Serrano os sambas mais marcantes dos desfiles e ainda no gosto popular, como “Exaltação à Tiradentes”, “Caçador de esmeraldas”, “Medalhas e brasões”, “Aquarela brasileira”, “Cinco bailes tradicionais na história do Rio”, “Pernambuco, leão do Norte”, “Heróis da liberdade”, “Nordeste – Seu povo, seu canto, sua gente”, “Alô, alô, taí Carmem Miranda”, “Dona Santa, Rainha do Maracatu”, “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira”, “Bum-bum Paticumbum Prugurundum” e “Eu quero”.

Elis Regina e Nara Leão, entre outros intérpretes, registraram em discos alguns sambas da Império Serrano que, na ala de compositores, figuram autores que se perpetuaram: Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Bacalhau, Arlindo Cruz, D. Ivone Lara, Mestre Fuleiro, Penteado, Mestre Aniceto, Aluisio Machado, Manoel Ferreira, Jorge Lucas, Malaquias, Beto Sem Braço e Roberto Ribeiro. Dentre os cantores de sambas da agremiação se destacam Abílio Martins, Jorge Goulart, Roberto Ribeiro e Jorginho do Império, este, por duas vezes eleito “Cidadão Samba”. É o personagem mais carismático da Império Serrano.

Também personalidade marcante da agremiação é Wilson das Neves, que faleceu em agosto último, aos 81 anos de idade. Baterista, instrumentista, compositor e cantor, ele atuou em mais de 800 gravações de discos, indo de Elza Soares, Roberto Carlos, Elis Regina, João Nogueira, Beth Carvalho, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes e Martinho da Vila. Era o baterista preferido de Chico Buarque de Holanda, com quem tocava desde 1982. Wilson reestruturou a Velha Guarda Show, ao lado de Zé Luiz, Ivan Milanês, Cizinho, Toninho Fuleiro, Fabrício, Aluisio Machado, Capoeira da Cuíca, Sílvio, Lindomar, Balbina e Nina. Gravou, em 1996, um dos melhores discos de samba, com músicas em parceria com Paulo César Pinheiro: O som sagrado de Wilson das Neves.

Num dos encontros com ele, em sua casa na Ilha do Governador, me confidenciou:

– Sabe, Lenin, já gravei com todos os artistas que estão por aí no cenário musical, além de outros que partiram. Atuei como ator no filme sobre Noel Rosa. Não sou apenas o baterista do Chico Buarque, como costumam falar. Nós somos amigos. E é uma honra ser amigo do Chico Buarque.

À frente da bateria conhecida como Sinfônica do Samba e que já ganhou nove prêmios Estandarte de Ouro estiveram mestres como Fuleiro, Alcides Gregório, Faísca, Macarrão e Átila, comandada desde 2010 por Gilmar. E como representante da bateria, as rainhas Kíssia, Vanessa de Oliveira, Núbia Oliiver, Thaís Ribeiro, Flávia Piana, Ângela Bismarchi, Patrícia Chélida, Milena Nogueira, Fabiana Andrade, Quitéria Chagas, Vânia Love e Beth Raposo. Quitéria se tornou o xodó dos componentes.

Na base da agremiação está o Grêmio Recreativo Escola de Samba Mirim Império do Futuro, fundada em agosto de 1983, a primeira criada no país. Foi no ano de 1979, em comemoração ao Ano Internacional da Criança, que Arandi Cardoso dos Santos, o Careca, teve a ideia de formar uma escola só de crianças para desfilar na frente da Império Serrano. A ideia não vingou e, quatro anos depois, a escola foi fundada. O desfile das escolas mirim não é competitivo, ou seja, não há uma campeã. A escola mirim revela talentos, como Mestre Átila Gomes e o mestre-sala Claudinho.

A cantora Andréa Café, com o ritmista Geraldo Portela, é atração da Feijoada Imperial (Foto: Lenin Novaes)

Com nove títulos de campeã no Grupo Especial e quatro no Grupo de Acesso, a escola sabe que não pode perder o rumo da rota da China. E para estímulo ao desfile vale lembrar o samba-enredo que é considerado o melhor de todos os tempos: “Heróis da liberdade”, Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira, gravado por Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, João Bôsco, Elza Soares e João Nogueira. No Carnaval de 1969, a escola ficou em quarto lugar, mas o samba soou como resistência à ditadura militar. A censura obrigou a alterar o verso “É a revolução em sua legítima razão” para “É a evolução em sua legítima razão”.

“Ô ô ô ô/Liberdade, Senhor/Passava a noite, vinha dia/O sangue do negro corria/Dia a dia/De lamento em lamento/De agonia em agonia/Ele pedia/O fim da tirania/Lá em Vila Rica/Junto ao Largo da Bica/Local da opressão/A fiel maçonaria/Com sabedoria/Deu sua decisão lá, rá, rá/Com flores e alegria veio a abolição/A Independência laureando o seu brasão/Ao longe soldados e tambores/Alunos e professores/Acompanhados de clarim/Cantavam assim/Já raiou a liberdade/A liberdade já raiou/Esta brisa que a juventude afaga/Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo/É a evolução em sua legítima razão/Samba, oh samba/Tem a sua primazia/De gozar da felicidade/Samba, meu samba/Presta esta homenagem/Aos heróis da liberdade/Ô ô ô”.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta e jornalista Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Compartilhe.

Sobre o Autor

Deixe um comentário