Imagens do Brasil – Longe das minas  

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Por Carlos Drummond de Andrade

Há caminhos curiosos. O minério de ferro extraído no vale do Rio Doce, coração de Minas Gerais, demanda o porto de Vitória no Espirito Santo, de onde é embarcado principalmente para os Estados Unidos. Para isso se recompôs uma estrada de ferro, com trilhos estendidos entre o mar e a montanha.

De Itabira à Vitória, porém, o minério não vai direto. Primeiro ele dá uma volta aqui pela avenida Presidente Wilson, coração da burocracia. Não vem materialmente, mas em símbolo. Jazidas, instalações industriais, trabalhadores, vagões, vale do Rio Doce ficam lá longe; mas a direção desse vasto empreendimento, que é hoje uma das principais fontes de riqueza do país, fica na suavidade do Rio de Janeiro, por força de um apêndice ao art. 1⁰. do estatuto da Companhia.

Pelo artigo, a sede administrativa é a cidade de Itabira; pelo seu parágrafo, ele vai ficando no Rio “enquanto não estiverem concluídos os trabalhos de reconstrução da E.F. Vitória a Minas e o aparelhamento das minas de Itabira”.

Ora, está dito no relatório da Companhia que a Vitória a Minas, em regime de saldos constantes (5 e meio milhões em 1952), é hoje “uma ferrovia verdadeiramente digna desse nome”, bastando lembrar que seu operário produz, em tonelada-quilometro, quatro vezes mais que o operário da Sorocabana; nenhuma outra estrada brasileira, nesse particular, se aproxima tanto do índice americano, e note-se que suas linhas são de bitola estreita.

A conclusão da ferrovia até Itabira foi uma das condições alegadas pela CVRD para transferir a sua sede para o município: mais uma promessa não cumprida. No destaque, a mina Cauê em 1952 (Fotos: acervo Cristina Silveira/CVRD)

Pode, assim, considerar-se cabalmente reconstruída. No tocante às minas, é de crer que estejam também aparelhadas em grau muito satisfatório, pois a produção de minério, em 53, subiu a mais de 2 milhões de toneladas, e a exportação, já agora, caminha para 3 milhões anuais: este resultado não seria possível sem um serviço extrativo superiormente equipado, em articulação, é obvio, com a eficiência do sistema ferroviário.

Estão cumpridas, portanto, as duas condições que a Companhia se impôs para levar sua sede ao ponto natural onde, aliás, ela sempre deveria ter estado; pois se era preciso recompor a estrada e aparelhar as minas, por que não instalar ali mesmo junto às minas e à estrada o quartel-general de serviços tão importantes e carecedores de atenção direta e contínua? A administração funcionava, por assim dizer, de avião, fazendo umas “incertas” à Itabira e logo regressando a seus cômodos no asfalto.

Alegará para tanto suas razões, que não convencem. A razão secreta, mais fácil de verificar, é que faltam a Itabira, sede da exploração mineira, condições elementares de conforto. Realmente; mas o sensato seria levar essas condições à velha cidade, e o fundo de melhoramentos e desenvolvimento da zona do Rio Doce, formado com o excedente dos lucros da empresa, bem poderia atender, entre necessidades mais vastas da região, a esse comum interesse de itabiranos e diretores: melhor água, melhor luz, esgoto, calçamento, hotéis, escolas, rodagens. Seria a maneira de compensar em mínimo parte o que realiza o ferro de Itabira pelo Brasil.

De todos os municípios de interior do país, esse é, provavelmente, segundo pondera José Hindenburgo Gonçalves, o que nos fornece maior quantidade de divisas: ele sozinho sustenta uma estrada de ferro de interesse econômico internacional, com cerca de 600 km de extensão; a hematita que exportou em 1953 rendeu mais de 514 milhões de cruzeiros ou mais de 23 milhões de dólares. E que recebeu Itabira, em imposto por essa riqueza de que se desfez? Pouco mais de 500 mil cruzeiros, cerca de um milésimo.

Não é justo que a direção da Companhia permaneça indefinidamente no Rio, à espera de condições ideais de funcionamento das minas e da estrada; não é justo que se transfira para belo horizonte, como se pretende, para variar de doçura e muito menos para vitória, pois a continuar assim, amanhã cismaria de experimentar por uns tempo nova York, Paris ou Nice; não é justo que o centro dessa enorme indústria extrativa, já rudemente ferida pela instalação remota da siderurgia em Volta Redonda, se vê exaurindo e empobrecendo sem um mínimo de benefícios compensadores.

Quando o ouro desapareceu de nossas cidades coloniais, restou-lhes, pelo menos, o aparato barroco das igrejas, com as pinturas e talhas douradas, hoje suas maiores riquezas; no dia em que o ferro escassear em Itabira, ficarão apenas ruinas e lembranças.

Para que isso não aconteça, merece todo apoio a brava iniciativa de Jose Hindenburgo Gonçalves, itabirano a quem devo os dados desta nota e que convido os itabiranos de qualquer pinta, credo ou partido, a cerrarem fileiras nesta campanha; o lugar de administração das minas de Itabira é Itabira.

C.D.A

[Correio da Manhã, Rio, 17 de abril de 1955, primeiro caderno. BN-Rio, pesqmcs1375]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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1 comentário

  1. Mauro Andrade Moura em

    Do ciclo do ouro de nossas cidades coloniais, resta, pelo menos um pouco, o aparato barroco das igrejas, com as pinturas e talhas douradas.
    Do ciclo do ferro está restando a desolação total e mortes. muitas mortes…

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