Imagens de realejo – Perguntas & Respostas

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Carlos Drummond de Andrade

Falando no senado, o sr. Carlos Lindenberg prestou um bom serviço à campanha pela desburocratização da Cia. Vale do Rio Doce. Aparentemente, esse parlamentar fez o jogo dos burocratas cariocas, interessados no diversionismo de soluções improváveis, ao formular perguntas que põem em dúvida a conveniência da mudança de sede da Cia., do asfalto para a região mineira onde ela opera. Mas essas perguntas podem ser respondidas tão vantajosamente que o resultado só há de ser um: a verdade aparecerá em sua singeleza, e ver-se-á que os “legítimos interesses da Cia”, que o senador pretende resguardar, se identificam pura e simplesmente com os interesses da cidade de Itabira.

O representante capixaba deseja saber quais os órgãos técnicos ouvidos sobre a competência da mudança, e se a diretoria também já foi consultada. Poderia indagar até se cada acionista já foi ouvido individualmente, se a audiência se estendeu a cada funcionário e mesmo, se já se cogitou de plebiscito para resolver problema tão transcendental. Enquanto não lhe vem essa ideia, devemos admitir que a maneira comum de o governo se entender com uma sociedade de economia mista é ouvir sua presidência; esta que promova as consultas necessárias ao esclarecimento da matéria em exame, ouvindo quem bem lhe pareça. No caso, órgãos técnicos, diretoria, acionistas, engenheiros, funcionários administrativos, trabalhadores das minas e da estrada de ferro só podem responder uma coisa: de certo que é conveniente cumprir o estatuto da Cia. E o estatuto da Cia., logo no seu artigo 2, declara taxativamente que sua sede é a cidade de Itabira. Discutir o quê, depois disso, minha N. S. da Penha?

Microfilmagem da crônica Imagem do realejo, – Perguntas & Respostas, obtida na Biblioteca Nacional, Rio (acervo: Cristina Silveira). No destaque, ilustração de Genin

O mesmo senador quer saber por que motivo a cidade de Vitoria não foi lembrada para sede da organização, e aqui lhe respondem os fundadores da empresa, que desde 1942 estabeleceram a obrigatoriedade da localização do seu comando geral no interior de Minas, no próprio local da indústria extrativa. Vitória é o elo terminal de uma cadeia econômica que tem início no quadrilátero central de Minas Gerais, onde 16 bilhões de toneladas de minério de ferro desafiam a capacidade empreendedora do brasileiro, e o ponto de maior concentração de minério de alto teor, nessa região, é Itabira.

A Vale do Rio Doce fundou-se em torno do minério itabirano e dele tira seu sustento e sua razão de existir, como é esse minério que ressuscitou a estrada de ferro mineiro-espírito-santense (649% da receita ferroviária são fornecidas pelo ferro de Itabira), e vem transformando Vitoria em quarto polo marítimo brasileiro, em importância. Não foram razões políticas ou sentimentais que recomendaram Itabira, e não Vitória, para sede geral da Cia.

Foi a própria situação geográfica, foi o imperativo econômico de se situar a direção do serviço junto à sua atividade principal e básica, foi a conveniência industrial, foi a necessidade administrativa. Não vamos fomentar uma absurda rivalidade entre a florescente capital de Espirito Santo e a humilde e abandonada Itabira; embora esta seja também capital geoeconômica do ferro; os interesses das duas cidades se completam.

Acredito, como o sr. Lindenberg, que Vitória está mais em condições de receber os figurões da Cia., do que o meu burgo natal, no que tange o conforto e desenvolvimento urbano, mas não se trata de garantir colchão de molas ou cinemascópio a dezenas de pessoas, e sim de levar essas pessoas ao lugar de sua obrigação legal. O fundo de melhoramentos do vale do Rio Doce, instituído há 12 anos e ainda não aplicado, entre outras coisas tornará melhor a vida em Itabira; não tenha cuidados o sr. Lindenberg quanto à sorte dos dirigentes da Cia. e suas famílias.

Outra pergunta é se o governo cogita igualmente de levar a sede da Cia. Hidroelétrica do S. Francisco para Paulo Afonso, e a da Petrobras para a Bahia. Se funcionou no Rio de Janeiro uma empresa de interesse regional do Rio São Francisco, é porque seu “principal acionista”, a União, costuma dormir sobre tais assuntos, mas cabe acordá-lo como se vem fazendo ao caso do Rio Doce; por enquanto, vamos fazer força para resolver este último, que servirá de teste e exemplo. Quanto à Petrobras, sabemos todos que seu âmbito de ação é nacional, como órgão através do qual a União exerce o monopólio da pesquisa e lavra de todas as jazidas de petróleo existente no país, e não simplesmente em Lobato ou Nova Olinda.

Por último, inquire o sr. Lindenberg a quanto montam as despesas com a transferência da sede da Vale do Rio Doce para Itabira, e se serão custeadas pelo governo ou com recursos da empresa. Mudar de casa, alugada para casa própria não pode ser operação ruinosa; muito menos de palácio para habitação modesta, da capital do país para a cidade do interior. O morador é rico e vendeu 25 milhões de dólares em 1954 e apurou um lucro de 320 milhões de cruzeiros. Pode bem pagar essa despesinha, que redundará em maiores economias, pois o custo do serviço administrado in loco é positivamente mais barato que o serviço dirigido a binóculo.

Não façamos ao senador a injustiça de supor que pretenda desviar de um rumo os frutos da campanha popular itabirana. O que ele quer, certamente, é tornar mais luminosas as evidencias dessa campanha.

C.D.A

[pesq.mcs 1375. Correio da Manhã, sábado, 30 de julho de 1955. Acervo BN-Rio]

 

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