Imagens da terra, Itabira e romance

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Por Carlos Drummond de Andrade

Rio, 1958.

“Dedico este livro à minha melhor amiga – Itabira do Mato Dentro”, escreveu Cornélio Penna, na primeira página de “Dois romances de Nico Horta”.

Não sei se Itabira prestou ou prestará qualquer homenagem ao romancista falecido há pouco, mas se alguém já mereceu de uma cidade um busto no jardim ou pelo menos dar nome a uma rua, esse é Cornélio Penna.

Nasceu em Petrópolis por um desacerto entre temperamento e registro civil. Na verdade, nasceu, viveu e morreu interiormente em Itabira.

Outra homenagem de Cornélio Penna a Itabira na abertura do livro Dois Romances de Nico Horta (CP-1939-Acervo: Casa de Rui Barbosa/Rio)

E quando se desfez de objetos da casa de José Júlio, no Pontal, ou da fazenda do Girau, itabiranamente inscrita nas memórias de sua família, doando-os ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, foi porque sentiu chegar a hora da morte, e não queria ver dispersas aquelas relíquias do mais puro Itabirismo.

O grande serviço de Cornélio Penna a Itabira foi transportá-la inteira para o romance, como personagem. A cidade que ele fixou, deformando-a literalmente, é claro, mas dando-lhes foros de perenidade que a Cia. Vale do Rio Doce, por exemplo, se esforça por destruir, não serve apenas de ambiente a suas histórias.

É a própria substância da ficção de Cornélio, em suas obras mais características. E as personagens a que ele atribui nomes reais, ou próximo do real, como Didina Guerra, padre Olímpio, d. Maria Rosa, Siá Nalda, Sinhá Gentil, são ramificações da figura maior, da cidade mesma, sentida como um todo humano e misterioso. Os sítios e casas funcionam também com esse caráter de emanações de uma substancia viva e severa, presente em tudo.

Às primeiras linhas de “Fronteira”, o trecho em xilogravura, por assim dizer, sobre as imediações de Itabira, vistas por quem ali chegou a cavalo, sob a tempestade, já reflete a intenção do autor, de integrar-se num mistério pressentido, e dominá-lo pela vivência:

“As montanhas negras, escorrendo chuva, apagadas pelo denso nevoeiro que sobe da terra, calçada de ferro e também negra, caminham aos meus olhos lentamente, como em sonho sufocante”.

Desenho de Cornélio Penna: antiga Câmara Municipal, hoje Museu de Itabira

Descrevendo um casarão “apenas clareado pelos recortes em forma de coração, ou em losango, que se abriam toscamente, ao alto, em plena madeira e pela imensa claraboia, de telhas enormes, do corredor”; ou os panos fúnebres que cobriam as antigas sepulturas da sacristia da Matriz ou uma “credencia de orelha d’onça, guarnecida de espelhos manchados”; em tudo tirando da notação naturalista um prolongamento mágico que conferia à sua arte algo de pesadelo, Cornélio Penna conseguiu romantizar o complexo social, econômico e psicológico da velha cidade de mineração, de tal sorte que seus livros itabiranos não tratam propriamente de crimes, de loucos e de conflitos morais, mas antes de uma entidade municipal por ele erigida em ser corpóreo e passional, com uma “presença” que não esquece a quem haja lido esses livros, e que a mim até me causa um certo medo.

Já me perguntei mais de uma vez se a Itabira desses romances era imagem fiel daquela em que nascera e me criara; e me respondi que, embora diferente, era válida, pois assim Cornélio tivera força de imaginá-la e recriá-la, impondo seu modelo a uma realidade sem dúvida estranha, embora não tão extraordinária.

Depois de sublimar a cidade, Cornélio fez mais. Em pequeno artigo escrito em 1937 para “O Cruzeiro”, e intitulado “Itabirismo”; diz que para seu gosto a capital do país não está no Rio ou em S. Paulo, mas em Itabira, pela “prodigiosa cristalização da alma brasileira, de sua consciência e de seu princípio essencial”.

“Daquele silêncio pobre, daquela vida extremada, daquela alucinação de ausência e obsessão de nada, deve sair um espírito coletivo novo, de tal fortaleza e austeridade que empolgará a nossa gente, sempre à procura de sua própria alma”. Sociologia romântica e fantasista, sem dúvida, mas que traduz os extremos do amor corneliano àquela cidade mineira.

Guardo uma lembrança desse itabirano mais itabirano do que se houvesse nascido à sombra do extinto Pico do Cauê: o original de um dos bicos-de-pena com que ele mesmo ilustrou “Fronteira”, e que representa o beco da Cadeia, com o fundo do velho sobrado em cuja parte térrea, negra e viscosa, os presos cantavam e faziam um artesanato de miséria. Sobrado que Cornélio assim descreve:

“Parecia o crânio de uma caveira ali enterrada há muitos anos, acocorada, à moda dos índios, no cimo do morro, e que as chuvas e enxurradas fossem descobrindo lentamente”. Nesse desenho e nessas palavras percebo todo o “pathos” do escritor, que de ruínas e silêncio fez uma obra viva.

Pesquisa e acervo: Cristina Silveira

Foto: Miguel Bréscia

 

 

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