Homens de ferro podem ganhar monumento na praça do Areão

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O sindicalista e vereador Paulo Soares de Souza (PRB), presidente do sindicato Metabase, o maior da região, propõe criar um monumento ao trabalhador minerador na praça do Areão, em frente ao antigo escritório da Vale. Ele quer que esse espaço público passe a se chamar praça do Minerador.

Trata-se de uma justa homenagem aos homens e mulheres de ferro que trabalharam e trabalham na mineradora, nascida em 1º de junho de 1942, para explorar a hematita incrustada no pico Cauê – e que hoje é uma das maiores do mundo.

“Itabira tem mais de 100 anos que extrai minério de ferro, não são só 76 anos. Antes de a Vale chegar a Itabira, homens descalços já extraiam minério na pá e jogavam em balaios transportados por burros”, enfatizou o vereador sindicalista, na tribuna da Câmara nessa terça-feira (5).

“O meu pai chegava em casa sujo de minério da cabeça aos pés. A minha mãe também era empregada da Vale. Ela lavava roupas para os engenheiros, como muitas outras mulheres itabiranas”, recordou, emocionado, ao falar da homenagem que pretende prestar a esses trabalhadores, homens e mulheres de ferro de Itabira.

Vereador Paulo Soares, presidente do sindicato Metabase, quer erigir monumento ao trabalhador Minerador, na praça do Areão (foto: Carlos Cruz, na Câmara, painel Solange Bethônico). Na foto em destaque, acima, trabalhadores da Vale, em assembleia no ginásio do Valério, decidem pela greve, em 3 de abril de 1989. (Foto: Eduardo Cruz)

“É um absurdo não ter na cidade uma homenagem ao minerador. Por isso, entrei com projeto na Câmara para instituir o Dia do Minerador, celebrado em 1º de junho, não como homenagem à Vale, mas aos que construíram essa grande empresa no muque.”

Além do monumento ao Minerador, Paulo Soares quer também renomear a praça do Areão, que passaria a ser chamada praça do Minerador. “Espero contar com apoio de todos os vereadores nesta homenagem, assim como vocês fizeram quando foi instituído o Dia do Minerador”, convocou, da tribuna da Câmara.

Para ele, será uma forma de prestar homenagem aos trabalhadores que fizeram a riqueza da Vale – e também de Itabira. “Meu pai trabalhou 36 anos na Vale. Adoeceu e depois foi trabalhar na portaria do hospital. É para ele, para o Contrapino, Carlinhos Madeira, sô Pedro, Sô Raimundo, sô Joaquim, sô Antonio. Será para eles a homenagem desta Casa.”

Conforme salientou Paulo Soares, em toda parte do mundo tem o resultado do trabalho do minerador, na forma de carros, eletrodomésticos, prédios, pontes, aviões – e em quase todos objetos que garantem o bem-estar do homem moderno. “Em todo mundo tem um pedaço de Itabira, fruto do trabalho do minerador.”

Os vereadores, por unanimidade, prometeram apoiar a iniciativa. Paulo Soares disse que irá buscar patrocínio junto à iniciativa privada para construir o monumento na praça do Areão, futura praça do Minerador.

Quem são os mineradores, homens e mulheres de ferro

Trabalhadores da Vale em greve, reunidos no ginásio do Valério (Foto: Eduardo Cruz)

De acordo com a descrição da socióloga Maria Cecília de Souza Minayo, mestra em antropologia social, cujo título de seu livro Os Homens de Ferro foi inspirado no poema de Drummond (“Por isso sou triste, orgulhoso, de ferro”), os mineiros de Itabira de mina a céu aberto, assim como o sertanejo de Euclides da Cunha, são, antes de tudo, uns fortes.

“Os primeiros Homens de Ferro são musculosos, ombros largos, passos firmes, cabeça inclinada para o chão. Quase sempre são negros. Falam pouco. Suas palavras são densas, carregadas de sabedoria que a luta pela sobrevivência engendra. Suas frases são curtas, penetrantes pelo silêncio eloquente que a subordinação e a resistência ensinam. Os olhos, às vezes perdidos no tempo, brilham como luz, profunda, orgulhosa, transpondo tempo e espaço, para vislumbrar no mundo do sonho a gota de suor levada nas milhões de toneladas de minérios que os seus braços arrancaram, lançados ao oceano sem fim. Os atuais diferem talvez dos seus primeiros companheiros pelas características com que os marca o processo de trabalho, mas aproximam-nos aspectos fundamentais. Enquanto o fruto de seu trabalho une mundos, transformam-se em artíficies universais e entrelaçam seus destinos com o de todos outros operários que a partir deles trabalharão o ferro. Do mundo da mineração eles dão as mãos a toda essa classe de assalariados, escravos do tempo, “seu tempo” vendido, esse segredo da ‘mais-valia’ capitalista.” (“Os Homens de Ferro – Estudo sobre os trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira”, Dois Pontos Editora, Rio de Janeiro, 1986).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 Comentários

  1. Cristina Silveira em

    Primeiramente, Lula Livre!
    Demorô!, passou da hora! E vou sugerir: que o monumento seja instalado no Pico do Amor, perto do antigo Cauê. O lugar é lindo e é dum lugar lindo que merece estar uma homenagem aos homens e mulheres, também de ferro. O Pico do Amor está imortalizado na obra do poeta Drummond. E a ideia deve ser realizada já.

    homens de ferro
    Os primeiros homens de ferro são musculosos, ombros largos, passos firmes, cabeça inclinada para o chão. Quase sempre são negros. Falam pouco. Suas palavras são densas, carregadas da sabedoria que a luta pela sobrevivência engendra. Suas frases são curtas, penetrantes pelo silêncio eloquente que a subordinação e a resistência ensinam. Os olhos, às vezes perdidos no tempo, brilham como luz, profunda, orgulhosa, transpondo tempo e espaço, para vislumbrar no mundo do sonho a gota de suor levada nas milhões de toneladas de minérios que seus braços arrancaram, lançados ao oceano sem fim.
    Os atuais diferem talvez dos seus primeiros companheiros pelas características com que os marca o processo de trabalho, mas aproximam-nos aspectos fundamentais. Enquanto o fruto de seu trabalho une mundos, transformam-se em artífices universais e entrelaçam seus destinos com o de todos os outros operários que a partir deles trabalharão o ferro. Do mundo da mineração eles dão as mãos a toda essa classe de assalariados, escravos do tempo, “seu tempo” vendido, esse segredo da mais-valia capitalista. Neles se realizava o paradoxo de que fala Norman Dennis: “O trabalho é o oposto da liberdade e nenhuma liberdade é possível sem ele.”

    A consciência? Neles ela não é apenas uma extensão de sua relação antagônica com a empresa. Não pensam em termos abstratos de relações econômicas e sociais. Seu pensamento é concreto. O orgulho de serem “leões da Vale” e a solidariedade com os companheiros estão no fato de que eles são homens reais que trabalham duro para sobreviver e vivem do fruto de seu trabalho, mas sabem que sem eles a economia do país não seria a mesma. Sabem também que são explorados, consideram até normal que a empresa lucre sobre seus ombros, mas também querem ganhar mais.

    Desconfiam dos chefes assim como desconfiam de qualquer mudança proposta por eles: sempre imaginam que é para prejudica-los. Escondem o “pulo do gato”, aquela “maldade” que poderia melhorar de alguma forma a produção, mas beneficiaria mais a seus supervisores que a si próprios. Orgulham-se de seu trabalho difícil, árduo, perigoso e comparam-no ao dos “doutores” cuja a produção, para eles, é desprezível e supérflua. Mas mostram-se tímidos frente a esses mesmos doutores que dominam a leitura e se apropriam de seu saber. Medem seu progresso em termos de segurança no emprego, bom salário e ascensão social dos filhos.

    À racionalidade econômica do capital, opõem o raciocínio moral da justiça, do reconhecimento e das relações de lealdade. Para eles, a “Companhia” é uma “mãe” quase nunca questionada, como não se costuma questionar quem nos gerou: é dela que retiram o salário para o sustento e por ela conseguem respeito, honra e credito na sociedade e assim mantêm seu nome e sua família. E como “mãe possessiva” a empresa marca seu presente e seu futuro, criando-lhes um profundo sentimento de dependência que traduz a essência mesma de sua condição de assalariado.

    Os Homens de Ferro cultivaram um belo sonho, belo e precário: “A companhia é nossa, a jazida é nossa, a estrada de ferro é nossa, o porto é nosso. Tudo é nosso.” Essa ilusão que lhes transmitiram eles a acalentaram. Deu-lhes alento para enfrentar a chuva, o vento, a poeira, o peso dos instrumentos, a monotonia do trabalho, o ruído ensurdecedor das máquinas e a prepotência dos chefes. Hoje, na medida em que o tempo passa e aumenta a distância entre eles e a empresa gigante, resta pouco da fantasia: o que é “nosso” não é “meu”… trata-se apenas de uma figura de retórica, força de expressão. Dos Homens de Ferro continuam a ser o suor, a força de trabalho, o “orgulho” de trabalhar, a casa cheia de filhos, muitos deles sem emprego, e algumas pequenas vantagens que lhes permitem viver e sobreviver “tranquilos”. Com o olhar perdido no espaço ou com o realismo que a experiência lhes conferiu, esses homens falam do país a quem seu suor aporta divisas, falam da Companhia, a mãe inquestionável, falam das administrações sucessivas, a seu juízo sempre imperfeitas, falam de si e concluem: “A corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco… sempre foi assim.”

    Esta é a dialética desses fracos que constroem a força, o ferro e, dessa força, o capital que faz dos Homens de Ferro barro frágil, corda que se arrebenta. Fracos e fortes, os HOMENS DE FERRO construíram a maior companhia de mineração do mundo ocidental. HOMENS DE FERRO!

    [recortado do livro: Os homens de ferro. Estudo sobre os trabalhadores da CVRD em Itabira, de Maria Cecília de Souza Minayo, 1986; p.17-18.]

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