Homem de 42 anos é assassinado por amor de Arminda – crônica de uma morte previsível

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Por Antônio Martins de Almeida

“Jovem, se você já completou 18 anos, aliste-se no garimpo mais próximo”

Naquela manhã de domingo, dia consagrado a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos pretos, e de todo o Mato Dentro, conhecida região entre montanhas de Minas Gerais, famosa por suas pedras preciosas, rios, serras e cachoeiras, como também pelas hilárias histórias do tempo do Onça, o peão boiadeiro Melquíades Soares acordou cedo.

Como há muito vinha ocorrendo, levantou suspirando de amor pela Arminda, a mula de estimação do rico fazendeiro, coronel Chico Corrêa de Oliveira. Além de boiadeiro, Melquíades era um conhecido zoomaníaco da região: com ele o amor não era com mulheres, mas com mulas, veja só que perdição neste mundo de Deus.

Tirou leite, cuidou dos bezerros e encerrou o expediente com o dever cumprido. Tomou banho e vestiu a melhor roupa domingueira. Contumaz barranqueador de mulas, para ele não havia uma que não cedesse aos seus afagos. Todas eram rampeiras, umas mais outras menos.

Ilustração: O Cometa, janeiro de 1992

Se um terno e carinhoso afago não bastasse, dizia Melquíades, era só amarrar a pata dianteira da cobiçada puxada até próximo do pescoço, tirar o seu ponto de equilíbrio, deixando-a próxima do barranco – e pronto, o desejo de amar estava para ser consumado.

E ele não via isso como estupro ou assédio sexual, era só uma técnica que aprendeu com os mais antigos. Como era com animal de quatro patas, não havia lei que o punisse.

Mas isso só ocorria na primeira vez, ele se gabava, pois a partir daí, todas viravam rampeiras. É como se virasse um vício, dizia.

Melquíades Soares nasceu e sempre viveu no Mato Dentro. E, o mais incrível, não chegou a conhecer mulheres para uma vida a dois ou só para namorar sem casar. Não teve nem mesmo vontade de conhecer.

Para ele isso não tinha importância, achava que mulher dava muito trabalho, exigia muito carinho para dar – coisa de muito trabalho que ele não estava disposto a dar. Na verdade, não tinha nem mesmo traquejo.

Em compensação, ele se gabava de conhecer as melhores mulas da região, uma aberração, diria o fundamentalista neopentecostal. E o santo padre também. Quer dizer, conhecia quase todas as rampeiras, menos a mula Arminda.

Aos 13 anos experimentou prazerosamente, pela primeira vez, vagina quente de uma mula fogosa. Lembrava-se até mesmo o seu nome, era a Princesa do Mato Dentro, a mais preferida de um saudoso amigo, o falecido tenente Afrânio “Fala Mansa” Furtado, que, em vida, além de ter sido também um contumaz barranqueador de mulas, sempre foi um eterno aspirante à disputada patente de coronel, de muitas honrarias e respeito.

A nova patente ele nunca conseguiu, diziam seus desafetos, justamente pela má-fama de barranqueador de mulas, nunca negada. Foi o tenente “Fala Mansa” quem ensinou a Melquíades todas as manhas para a primeira e inesquecível barranqueada de uma fogosa mula.

Desse modo, e por puro desprendimento e eterno agradecimento que Melquíades sempre reverenciou a memória do tenente “Fala Mansa”, homem que sempre deu valor a uma boa prosa, sem olhar cor, credo ou mesmo filosofia de vida.

A obsessão de Melquíades pela esguia Arminda aumentava dia-a-dia, justamente em decorrência das dificuldades crescentes para possuí-la. O problema maior era a conhecida severidade do coronel Chico Corrêa, a quem todos tinham em conta como fervoroso devoto católico, homem de muitas posses, temente a Deus.

O coronel sempre foi o maior opositor à legítima aspiração do tenente “Fala Mansa” de se tornar coronel, justamente pela sua assumida queda por mulas. Chico Corrêa não se cansava de repetir que sexo era uma coisa sagrada, que só poderia ocorrer entre bichos da mesma espécie, e de sexos opostos, tipo homem com mulher, sendo que para esses, só depois do sagrado sacramento do matrimônio.

Por esses e outros pontos de vista tradicionalistas, Melquíades sabia que conversar com o coronel para que lhe “emprestasse” a mula Arminda para um repasto, ou mesmo tentar convencê-lo de seu verdadeiro amor por ela, seria uma temeridade, uma verdadeira afronta aos rígidos valores morais vigentes, dos quais o coronel se gabava de ser o mais fiel guardião.

“O que fazer?”, assim como os bolcheviques, matutava Melquíades Soares naquela manhã de domingo. Comprar a mula não era possível, pois além de poucas posses, nunca ouviu comentários de que Arminda poderia ser colocada à venda.

Entrar furtivamente no pasto era um risco que não valia a pena correr, pois morrer não estava no seu plano, pelo menos tão cedo.

Todos na pequena cidade do Mato Dentro, homens, mulheres, velhos e até crianças, sabiam da obsessão de Melquíades pela mula Arminda. Só o coronel Chico Corrêa nada sabia, pois ninguém era doido de contar para ele.

Melquíades Soares de longa data vinha matutando um plano, que deveria ser colocado em prática justamente naquela manhã de domingo, dia claro de muito sol, às vezes chuvas, consagrado à Nossa Senhora do Rosário.

O vaqueiro boaideiro chegou ainda pela manhã no adro da igreja e ficou por perto, na venda de sô Ronildo, tomando umas “branquinhas”, que era para criar coragem. Não demorou muito e logo apareceu o coronel Chico Corrêa, todo sisudo e elegantemente vestido com o terno domingueiro, galopando a cobiçada Arminda.

O coronel seguiu em frente e apeou no fundo da igreja, bem próximo de um barranco que Melquíades conhecia de outras romarias.

A procissão de Nossa Senhora do Rosário não demorou a se formar e parecia que toda a população da pequena cidade estava presente para acompanhá-la. “Melhor oportunidade não há”, sorriu Melquíades.

Além de não ficar ninguém por perto, nem mesmo os assíduos frequentadores da venda de sô Ronildo, até a procissão dar a volta no outro lado do rio, era tempo suficiente para conquistar e amar a fogosa mula Arminda, de todas a mais linda, a única que Melquíades ainda não conhecia.

O vaqueiro boiadeiro não perdeu tempo e assim que a procissão seguiu em frente, ele foi rapidinho para onde estava a cobiçada. Como um verdadeiro galanteador, acariciou a sua crina, passou a mão pelo seu pescoço, escorregou para o dorso, chegou ao rabo que arrebitou.

Surpreso, Melquíades constatou que Arminda estava pronta, encostando-se toda faceira no barranco. O mais conhecido e experiente barranqueador de mulas de todo o Mato Dentro nunca imaginou que seria tão fácil conquistar o amor da cobiçada mula fogosa.

Mas o pobre coitado calculou mal o tempo necessário para a procissão ir até o fim da cidade, do outro lado do rio, e voltar para o adro da igreja. Foi justamente quando estava se deliciando com o orgasmo profundo que mulher nenhuma havia lhe dado, que se ouviu um único e forte estampido.

Foi o fim de Melquíades Soares, aos 42 anos de idade. A procissão logo se desfez, fez-se uma correria assustada. Ninguém entendeu a brutal e definitiva reação do rico coronel Chico Corrêa de Oliveira, homem severo e de muitas tradições.

O padre ficou perplexo quando ouviu o coronel esbravejando, espumando de ódio, completamente fora de si, alegando legítima defesa da honra ofendida:

“Não levo dor de corno para casa. Morre safado.”

(Publicado originalmente no jornal O Cometa Itabirano, janeiro de 1992)

No destaque, foto da internet (Reprodução)

 

 

 

 

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