Há 20 anos morria Marcos Noronha, ex-bispo de Itabira

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Carlos Cruz*

Marcos Antônio Noronha nasceu em 3 de outubro de 1924, na pequena cidade de Areado, no sul de Minas, a 90 quilômetros de Guaxupé, onde estudou e sagrou-se padre. Em 7 de junho de 1965 foi nomeado o primeiro bispo da Diocese de Itabira.

Adepto da Teologia da Libertação, que surgiu após o Concílio Vaticano II , convocado pelo papa João XXIII e realizado em 25 de dezembro de 1961, transformou a Diocese de Itabira em pioneira na implantação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), primazia que divide com a cidade Crateús (CE),

Capa da edição de O Cometa de dezembro de 1980 com entrevista com Marcos Noronha (Fotos: Acervo O Cometa)

As CEBs eram grupos de reflexão ligados à igreja Católica com o propósito de entender e transformar a realidade das comunidades por uma vida melhor aqui na terra, contrapondo-se às expectativas de que o paraíso só existiria após a vida terrena, em uma dimensão celestial.

Noronha ficou pouco tempo à frente da Diocese de Itabira, renunciando ao episcopado– e posteriormente ao sacerdócio, em 2 de novembro de 1970. Seis anos depois, casou-se com a ferrense Zélia Quintão Froes. Faleceu aos 73 anos, vitimado por uma trombose cerebral, em Belo Horizonte, onde residia.

Amor à Itabira

Mesmo depois de renunciar, Marcos Noronha não se esqueceu da cidade que o recebeu com uma calorosa recepção no trevo na BR-381, como bispo da Diocese de Itabira, que acabara de ser criada.

“Cheguei com uma capa roxa e achava que devia ter chegado com mais simplicidade. Naquele dia, com toda a multidão em minha volta, uma emoção profunda tomou conta de mim. Levei absolutamente a sério o fato de ser o primeiro bispo de Itabira”, disse ele em entrevista ao jornal O Cometa, em dezembro de 1980.

Na mesma entrevista, ele recorda que, um pouco antes de sua posse, um colega padre lhe escreveu uma carta dizendo que ele iria assumir a Diocese de Itabira e que teria uma “esposa” operária. “A Diocese de Itabira é operária”, classificou Noronha.

“Esse mesmo padre me disse também que eu precisava deixar de ser um vigário burguês para ser um bispo de operários. E isso, eu levei a sério. Em Roma, estudei muito a teologia renovada do Concílio Ecumênico Vaticano II. A questão que estava colocada era como descobrir na realidade local a devida correspondência com a realidade teológica.”

Marcos Noronha foi o primeiro bispo da Diocese de Itabira

Para Marcos Noronha, esse propósito se concretizou com a formação das CEBs. “Eu acreditava que não se podia fazer nada sem consultar o povo, que deveria participar ativamente dessa realidade.”

Em consequência, não foi fácil o trabalho pastoral do então bispo e dos padres que o acompanhavam na nova teologia em Itabira. Segundo ele, com a formação das CEBs o povo começou a questionar como era a vida nas comunidades e o papel de cada cidadão como agente transformador dessa mesma realidade.

E vieram as reações – e difamações – dos conhecidos segmentos conservadores da sociedade itabirana. “Isso (o trabalho com os grupos de reflexão) questionou a velha Itabira, acostumada com os tradicionalíssimos. De repente, um grupo de jovens resolve se reunir e assumir um trabalho tão importante que é a reflexão”, relembra, na entrevista ao Cometa.

“Começaram então a surgir os boatos. Certo dia, telefonaram lá para casa e perguntaram a que hora ia abrir a boate”, conta, revelando o nível da boataria e de intriga que existia na cidade – e que impera até os dias atuais, inclusive com insinuações maledicentes contra desafetos.

Renúncia

Sobre as circunstâncias que o levaram à renúncia, Marcos Noronha assegura na entrevista que ele nunca discordou da Igreja de Pedro e de Paulo. “Eu discordei da Igreja de Roma, da Igreja dos Césares, de Constantino, da Igreja Imperial, transformada em basílica.”

Para ele, não foi uma discordância com a Igreja do povo, da Igreja que não admite a Igreja particular. “No momento em que a Igreja se afasta do Evangelho, ela se afasta da vida, deixando de ser fiel ao povo. Nunca discordei da Igreja da procura e sim da Igreja da certeza, da Igreja infalível. Tenho medo de homens que têm certeza de mais.”

Noronha foi pioneiro no país na implantação das Comunidades Eclesiais de Base, embrião das atuais associações de moradores

Com todas essas angústias e questionamentos sobre o papel evangelizador da Igreja, ele sentiu que não poderia continuar bispo da Igreja de Roma em Itabira. “Apesar de amar Itabira.”

Na mesma entrevista ao Cometa, Noronha conta que não tinha como continuar bispo em qualquer outro lugar. ”Inclusive, foi-me oferecida uma outra Diocese e eu não aceitei, porque não era a Diocese de Itabira o pivô da minha renúncia, e sim as minhas discordâncias. Isso, eu desejo que isso fique bem claro”, enfatiza na entrevista ao Cometa.

Faculdades

Marcos Noronha foi o responsável pela implantação da Faculdade de Ciências e Letras de Itabira (Fachi), em 1968, em plena ditadura militar. Para isso, buscou parceria com a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

Muitos anos depois, em meados da década de 1990, em entendimento com o professor Aloísio Pimenta, então reitor da recém-criada Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), quis trazer uma faculdade de engenharia para Itabira – e também nas áreas de ciências sociais e humanas.

Mas não encontrou apoio suficiente na cidade, tendo sido boicotado em sua intenção. “Pelo que fui informado, o prefeito Olímpio Guerra (1993-1996) e o presidente da Vale, Francisco Schettino, não souberam mensurar a dimensão da proposta, que havia concluído pela implantação de cursos de 3º grau nas áreas de ciências sociais e exatas, com ênfase na questão ambiental e na qualidade, o que incluía também a área de informática.”

Foi o que Marcos Noronha revela na mesma entrevista ao O Cometa, na edição de janeiro de 1995. Na época, discutiu-se ainda se a Vale devia ou não destinar o prédio do Areão para a nova faculdade. O prédio acabou sendo adquirido pela Prefeitura, pagando-se R$ 1 milhão em valores da época à mineradora.

Sob o argumento de que a faculdade na modalidade em que estava sendo proposta não iria assegurar mercado de trabalho para os formandos, a ideia foi descartada pela Prefeitura e também pela Vale.

Entretanto, pouco tempo depois de descartada a vinda da UEMG para Itabira, Vale, Prefeitura e Diocese constituíram a Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi).

Dívida histórica

E também lutou pelo resgate da dívida histórica da mineração por meio da educação

“O país e a Vale só têm uma forma de saldar a dívida com Itabira, que é transformando o município em um centro do saber”, insisti Marcos Noronha na entrevista, depois de ver frustrada a sua tentativa de implantar faculdades da UEMG no município.

“É preciso tirar proveito da cratera do Cauê. Já pensou o que seria de Ouro Preto se tivesse ficado só com as crateras e não tivesse a Universidade”, pergunta o ex-bispo ao repórter de O Cometa, para em seguida responder: “Seria só mais uma passagem para Mariana. E uma cidade histórica e turística, nada mais”.

Parte do sonho de Marcos Noronha de resgate da dívida histórica da mineração, com investimentos na educação, só começa virar realidade com a implantação do campus da Unifei em Itabira, em 2008.

Trata-se um resgate que ainda levará anos para ser concretizado. E que somente se tornará realidade com a implantação de um parque tecnológico – e com o campus abrigando novas faculdades para que tornem a Unifei em uma verdadeira universidade, com cursos também nas áreas sociais e humanas, como sonhou Marcos Noronha.

*Carlos Cruz é jornalista e editor deste site Vila de Utopia
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