Há 100 anos Itabira vê a banda Santa Cecília passar tocando as suas marchinhas 

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Marconi Ferreira*

A Corporação Musical Euterpe Itabirana foi fundada no ano de 1863, é a mais antiga de Itabira. Já a Corporação Musical Santa Cecília foi fundada em 1919. Portanto, está completando um século de existência, levando música e alegria para o povo itabirano e da região vizinha.

Imagem histórica da banda Santa Cecília no início do século passado (Fotos: Rita de Cássia Reis Machado e Marconi Ferreira)

Euterpe é nome da Deusa dos prazeres dos gregos. Cecília é nome de uma jovem que durante a sua vida demonstrou temor a Deus.
Banda Euterpe foi fundada pelos donos do poder. Gente rica e intelectual da cidade, com o aval da Santa Madre Igreja.

Santa Cecília foi fundada por músicos simples da Mina. A maior prova é a forma em que o poeta Carlos Drummond de Andrade qualifica os moradores da Rua de Baixo, hoje Rua dos Operários, nos versos do poema “Briga das Ruas” Povo pé rapado da Rua de Baixo.

A Banda Euterpe, preferida do Monsenhor. A Banda Santa Cecília, a Musa Baixa.

Já havia passados 56 anos da fundação da Banda Euterpe quando quatro irmãos da família Reis, apaixonados pela musica, reuniram com alguns parentes e amigos para formar um conjunto musical com o objetivo de proporcionar lazer aos moradores da Rua de Baixo.

Tonico Reis, Vivino Reis, Zé Reis, João Reis, juntamente com Totoni Coimbra, Mestre Piche, Totoque.
Assim iniciou uma bela história que agora completa 100 anos.

Na casa de vovô Zé Reis o nome Euterpe era assunto proibido.

Músicos da banda Santa Cecília na década de 1980

Lembro-me de ter ouvido do meu avô a seguinte história: “Certo Padre da cidade tinha tanta antipatia da Banda Santa Cecília, que duvidava da santidade da sua padroeira”. Questionava o reconhecimento da Santa pela Igreja Católica.

Outro caso que ouvi foi do velório de um simpatizante da Banda Santa Cecília. Homem de muitas posses, que sempre contribuía com a corporação. O tal padre fez questão de comparecer no velório e fazer a exéquias daquele defunto.

Com a morte de seu patrono, o padre tinha certeza que a banda morreria à míngua a partir daquele momento. No final das exéquias ele abençoou o defunto da seguinte maneira: “Descanse em paz nos braços do Senhor, e deixa a nossa Euterpe em paz em nome de Deus”.

Foi com muita dificuldade que a banda Santa Cecília sobreviveu.

Assim que foi criada a paróquia da Saúde, o padre nomeado pelo bispo de Mariana adotou a banda Santa Cecília. Até os dias de hoje ela é a preferida dos paroquianos da Saúde.

Enquanto a Banda Euterpe continuou sendo a preferida dos paroquianos do Rosário.

Nas procissões de encontro da Semana Santa dava para perceber a rivalidade entre as duas bandas.
A banda Santa Cecília sempre acompanhava a imagem de Senhora das Dores, vinda da Saúde tocando marchas fúnebres. As marchas fúnebres são peças tristes e silenciosas.

Homenagem à banda Santa Cecília na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade pelos seus 100 anos de existência

Já a banda Euterpe acompanhava a imagem do Senhor dos Passos vinda da matriz do Rosário tocando dobrados. Os dobrados são peças alegres e transmitem alegria.

Como o silêncio era total durante as procissões, podia perceber que as bandas aproveitavam o momento para demonstrar para o povo quem tocava mais alto.

A Euterpe muitas das vezes levava vantagem por tocar dobrados.

Contam os antigos que certa vez foi proposto um desafio na praça da matriz do Rosário para verificar qual seria a melhor banda da cidade. A disputa durou várias horas, com presença de torcida e animação do padre.

Dizem que não houve vencedor, pois os instrumentos de percussão não suportaram e as peles de couro furaram. A torcida da Euterpe jurou que a Banda venceu o desafio. Assim também aconteceu com os torcedores da Santa Cecília.

Instrumentos musicais em exposição no Centro Cultural

Certa vez, aconteceu um caso inusitado. Era véspera de uma semana santa. A sede da banda Santa Cecília, na antiga rua do Corte, foi arrombada, Vários instrumentos foram danificados.

Como faltavam poucos dias para os festejos, não havia prazo para o concerto dos instrumentos.
Mesmo assim a banda não deixou de participar dos festejos.

Nunca foi descoberto quem praticou aquele ato. Mas como a rivalidade era grande, acusaram sem provas suficientes pessoas da banda de lá.

Em represália ao ato, os meninos da rua de Baixo, colheram dúzias de limões e encheram bolsos e embornais. Assim que a banda Euterpe se aproximou do paredão da Tiradentes, começaram a chupar os limões.

Todos foram descobertos.  Os mesmos se retiraram em correria ladeira abaixo. O objetivo foi alcançado. A banda Euterpe desafinou.

São 100  anos de uma bela história de amor e dedicação da banda Santa Cecília à nossa velha cidade.

As bandas Euterpe Itabirana e Santa Cecília são patrimônio imaterial de minha Itabira. Alegria do povo da Mina.

*Marconi Ferreira é poeta e memorialista itabirano

 

Sobre o Autor

3 Comentários

  1. Cristina Silveira, A Velha em

    Deliciosa matéria da Cidadezinha. E cadê a Euterpe dos ricos? É uma pena que tenha acabado. E cadê a banda da EENZA?
    Viva os bem vividos anos de glória da Banda Santa Cecília!

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