Gigantismo dos carros alegóricos no desfile de escolas de samba torna acidentes previsíveis

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Lenin Novaes*

Estimados leitores e leitoras da Vila de Utopia, vocês lembram o resultado do desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval 2017, no Rio de Janeiro? Não? Então vamos recordar. A Portela, após 33 anos amargando jejum – na verdade, 47 anos, considerando que a maioria dos portelenses ignora o título de 1984, o qual dividiu com a Mangueira – foi a campeã ano passado, com diferença de apenas 0,1 (um décimo) para a segunda colocada.

Mas, pouco mais de um mês depois, teve que dividir a vitória com a Mocidade Independente de Padre Miguel. É que a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), em plenária, aprovou o recurso da verde e branco de Padre Miguel (a direção da agremiação abriu mão da metade do prêmio de R$ 1 milhão e do troféu), por sete votos a favor, um voto contra e cinco abstenções.

A decoração carnavalesca nos bondes, na década de 1950, já antevia o gigantismo das alegorias. No destaque, a figura do “diabo” que teve o lado esquerdo incendiado no desfile de 2007 (Fotos: acervo Lenin Novaes

Aquela diferença de um décimo se deu por equívoco de um julgador que avaliou o quesito enredo se baseando na versão antiga do livro Abre-alas e puniu a Mocidade, sob a justificativa da escola não ter apresentado destaque de chão que, na versão atualizada, não viria mais a apresentar.

Com isso, Salgueiro e Mangueira, respectivamente em 3º e 4º lugar, também com diferença de 0,1 (um décimo) entre si e, aliás, em relação às duas primeiras, mudaram de posição no resultado final. Oportuno lembrar que não houve rebaixamento de nenhuma escola, em consequência dos acidentes com carros alegóricos da Paraíso do Tuiuti, domingo, e Unidos da Tijuca, segunda-feira, durante os desfiles.

E, com a subida da Império Serrano ao Grupo Especial – campeã no Grupo de Acesso –, o desfile deste ano terá 13 agremiações na competição. As duas últimas classificadas, então, serão rebaixadas ao Grupo de Acesso. Se tudo ocorrer dentro dos conformes de acordo com as regras da LIESA, sem incidentes.

Gigantismo das alegorias

Estavam no horizonte os acidentes que resultaram em mortes e, também, ferimentos em cerca de 30 pessoas, no sambódromo, no desfile passado. O gigantismo das alegorias das escolas de samba mostra a cada ano não ter medidas e nem limites. Episódio ‘profano’ na Portela, segundo alguns dos componentes mais ortodoxos, aconteceu com o carnavalesco Paulo Barros que teve a proeza de colocar figurante dançando na cabeça da águia, símbolo sagrado da agremiação. Isso ilustra até aonde chega a invencionice de carnavalescos – figurante “voando” sobre o sambódromo etc – para entorpecer o público com efeitos mirabolantes nas alegorias.

O gigantismo dos carros alegóricos toma conta da pista de desfile do sambódromo e não raro causa acidentes

Observa-se, a cada desfile, que a disputa pelo título de campeã está centrada na concorrência entre carros alegóricos mais sofisticados, alguns estruturados em chassi de “cegonha” (caminhões que transportam carros), chegando à altura de edifícios de cinco andares e carregando dezenas de figurantes. O custo final pode chegar a R$ 700 mil. É bonito, claro, mas é imperativo estabelecer limite às dimensões dos carros alegóricos, pois são partes do conjunto do espetáculo, como cenário em arte plástica que engloba outros quesitos importantes, revestido de música, canto e dança. E, convenhamos, é o que cada vez menos assistimos no conjunto da obra, sem saudosismo, com o grande aparato eletrificado ‘chamado de apoio’.

Por isso, os acidentes com carros alegóricos já eram previsíveis. É óbvio, devido à proporcionalidade do gigantismo das alegorias em altura e largura, que trafegam cada vez mais no limite mínimo das margens da pista de desfile no sambódromo. E isso, claro, também dificulta o trabalho de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas, além do pessoal de serviço e de prevenção. Na pista de desfile – não há razão para esconder, omitir –, circula boa quantidade de penetras, ostentando no pescoço crachá incompatível, tendo o acesso facilitado por quem de direito deve coibir invasões.

Espera-se, efetivamente, após os acidentes, que todas as medidas anunciadas para garantir a segurança dos figurantes e do público tenham sido providenciadas pela LIESA e a Riotur, órgão da Prefeitura do Rio, Corpo de Bombeiros, Inmetro etc. Afinal, a beleza do desfile que encanta grande parte do mundo e proporciona vultosas divisas econômicas para o Rio de Janeiro não pode ficar comprometida pela incompetência.

Outra questão importante relacionada aos desfiles das escolas de samba são ações impetradas pelo Ministério Público Estadual, no ano de 2016, para apurar irregularidades nas prestações de contas e contratos da Prefeitura do Rio de Janeiro com a LIESA e agremiações do Grupo Especial, referentes aos carnavais de 2007 a 2012. Os réus foram delatados, nas ações, de crimes como improbidade administrativa, dano ao patrimônio público e enriquecimento ilícito. Em uma delas, os valores envolvidos chegavam a R$ 25 milhões. Paira silêncio de cemitério sobre o assunto.

A ordem dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, que foi definida em julho do ano passado, através de sorteio, terá 13 escolas dias 11 e 12 de fevereiro, da seguinte maneira: no domingo, 11, Império Serrano, São Clemente, Vila Isabel, Paraíso do Tuiuti, Acadêmicos do Grande Rio, Mangueira, Mocidade Independente de Padre Miguel; na segunda, 12, Unidos da Tijuca, Portela, União da Ilha, Salgueiro, Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor de Nilópolis.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É coautor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde (CCS)da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

 

 

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