Fundação João Pinheiro anuncia, em 1981, que minério de Itabira acaba em 2028

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Deu n’O Cometa, edição 19, de agosto de 1981.

Fim do rico minério I

Segundo os estudos encomendados pela Prefeitura Municipal à Fundação João Pinheiro, o ferro itabirano está mesmo chegando ao fim. No calhamaço que recebemos meses atrás da Prefeitura, intitulado “Itabira e a política de recursos minerais”, a Fundação levanta três hipóteses para o futuro da mineração na cidade, levando em consideração o atual ritmo de exploração.

Na primeira, caso a taxa de crescimento da produção fosse nula, o esgotamento ocorreria dentro de aproximadamente 47 anos e oito meses (ou seja, em 2028, acertando na mosca, de acordo com o comunicado da Vale à bolsa de Nova Iorque, no ano passado, com a data prevista para exaustão das minas de Itabira, n.r.)

Na segunda alternativa, considerando que a partir de 1985 (quando se inicia a produção de Carajás) nosso minério se destinaria apenas ao mercado interno e, considerando ainda um crescimento de demanda interna de 6,5% ao ano, “o horizonte temporal do esgotamento das reservas seria de 41 anos”. (Nessa projeção, a exaustão ocorreria em 2022).

E, finalmente, a terceira, tomando a “taxa de crescimento da produção segundo a média observada no período 1970/79, de 7% ao ano”, as reservas se esgotariam no prazo de aproximadamente 22 anos. (por essa projeção, Itabira está no lucro: a exaustão teria ocorrido em 2003).

As “alternativas” estão na mesa. Tenham todos os itabiranos uma boa noite (Carlos Cruz)

Fim do rico minério II

“A cadência atual de exploração das jazidas da CVRD é absurda e predatória” (Dr. Eliezer Batista, presidente da Vale, em fevereiro de 1976).

Fim do rio minério III (pós O Cometa)

Como se observa, só os desavisados (blogueiros, inclusive) não tinham conhecimento que o minério de Itabira irá se encerrar no fim da próxima década – e se surpreenderam com a projeção feita pela empresa por meio do relatório Form20, publicado no ano passado, com dados detalhados sobre as condições financeiras e minerárias da Vale em 2017 (leia aqui e aqui).

O fim está mesmo próximo – e só ainda não chegou pelo interesse econômico-financeiro da empresa de manter o complexo de Itabira (o seu maior ativo no chamado Sistema Sul) em atividade.

A Vale anuncia que irá trazer minério de outras localidades para processar (concentrar) nas usinas de Itabira. Ótimo para empresa que manterá em operação as suas usinas de transformar itabiritos pobres – e duros – em pellets-feed de excelente qualidade.

E para Itabira, o que isso significa? Uma queda vertiginosa em sua economia, ainda que menor caso toda atividade mineradora chegasse ao fim no fatídico ano de 2028.

Mas mesmo que a Vale opere o seu complexo em sua capacidade máxima produtiva de 50 milhões de toneladas anuais, sem as minas, serão necessários pouco mais de 10% de sua força de trabalho atualmente empregada no complexo – cerca de 4 mil empregos diretos. Ou seja, serão mantidos pouco mais de 400 operadores nos britadores, moinhos e usinas, uma vez que minas não haverão mais.

Já os impostos (ICMS, principalmente) e os royalties ficarão em maior proporção com os municípios que ainda serão minerados, onde ocorrerão os fatos geradores, que são as minas em atividade.

Para Itabira sobrarão algumas migalhas, insuficientes sequer para cobrir os gastos com o pagamento da folha de salários dos servidores municipais e aposentados da ItabiraPrev.

Para produzir em plena carga, as usinas demandarão o mesmo consumo de água nova. Atualmente, a empresa faz o bombeamento de mais de 1.100 litros de água por segundo (mais do dobro do que é consumido na cidade) dos aquíferos para manter o complexo minerador em operação.

Além disso, junto com os itabiritos de outras localidades virão os rejeitos em igual ou maior proporção. Onde esse “lixo” da mineração será disposto?

Nas perigosas e condenadas barragens de rejeitos? Ou em pilhas a seco, que são mais seguras? Ou serão dispostos nas cavas das minas exauridas (Cauê, Minas do Meio, e proximamente, Conceição)?

E como ficará o acesso futuro a esses aquíferos para consumo na cidade, já que foi anunciado que ficaria como o principal “legado” da mineração após a exaustão mineral? (leia também aqui).

Dizer que a Vale permanecerá em atividade no município nas mesmas condições atuais é manter a mesma paralisia que vem antes mesmo de a mineração ter início em 1942, como registrou Carlos Drummond, em 1933, na crônica Vila de Utopia.

“Hoje, amanhã, daqui a cem anos, como há cem anos, uma realidade física e uma realidade moral se cristalizam em Itabira. A cidade não avança nem recua. A cidade é paralítica. Mas, de sua paralisia provêm a sua força e a sua permanência. Os membros de ferro resistem à decomposição. Parece que um poder superior tocou esses membros, encantando-os. Tudo aqui é inerte, indestrutível e silencioso. A cidade parece encantada. E de fato o é. Acordará algum dia? Os itabiranos afirmam peremptoriamente que sim. Enquanto isso, cruzam os braços e deixam a vida passar. A vida passa devagar em Itabira do Mato Dentro.”

 

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2 Comentários

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