Foi um Cometa que passou em minha vida

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Lucas Ferraz*

Em Itabira acontecem coisas estranhas. E uma delas foi a existência do jornal O Cometa Itabirano, que não se sabe muito bem quando acabou, mas cujo nascimento, agora em novembro, fez quarenta anos.

Uma das excentricidades do jornal, intrinsecamente itabirana, foi a de permitir que um adolescente de inocentes 16 anos fizesse parte daquela trupe, como aconteceu comigo. Corria o apocalíptico ano de 2000, com o mundo ainda vivendo os riscos do bug do milênio, quando entrei naquela que seria a última sede do jornal em Itabira, uma sala de dois andares no Shopping Avenida – que de shopping nunca teve nada, mas o prédio com um emaranhado de salas comerciais ainda está lá –, a caótica redação da Martins da Costa.

Eu morava a poucos passos e costumava aparecer no prédio com certa frequência para fumar escondido dos olhares indiscretos da família. E foi assim que conheci a redação, atraído para aquele ambiente por Altamir Barros, meu vizinho e um dos fundadores do jornal. Foi ele quem me apresentou a Marcelo Procópio, jornalista que dirigia o Cometa e quem, após tantas visitas, me perguntou: “Ei, não quer colaborar com a gente?”.

Claro que queria. Não haveria dinheiro no início, e o que entrou mais tarde seria muito pouco, mas fazer parte daquele comunidade, digamos assim, me abriu um novo mundo. Virei jornalista, a melhor profissão do mundo (que guarda muitas semelhanças com aquele ofício mais antigo, citado ainda no Velho Testamento), graças ao Cometa.

O Cometa, fevereiro de 2000

Minhas primeiras colaborações se restringiram à seção “Comentário”, que era a minha preferida e provavelmente deveria ser a mais lida do jornal, com uma profusão de notas engraçadas, irônicas e ferinas.

Depois comecei a fazer as primeiras reportagens, o que me valeu uma inesquecível imersão nos problemas mundanos de Itabira, como relatar a tentativa de um vizinho do Bar do Nilo (hoje bolsonarista, informa a redação da Vila de Utopia) de fechar o mais antigo reduto boêmio da cidade – que acabaria depois, por outros fatores que se somaram à intolerância do morador com um espaço de convivência no qual a existência do Cometa deve muito.

Integrando a redação do jornal em Itabira por quase dois anos, vivi dias memoráveis de glória e decadência. As melhores lembranças são das conversas na Martins da Costa (a sala, que guardava o arquivo do jornal e tinha ainda um importante acervo fotográfico de Itabira, também funcionava como um cafofo improvisado nos horários em que a redação estava inoperante) e dos encontros nos bares da cidade, sempre reunindo itabiranos e agregados como Aníbal Moura, Lelinho (que numa tarde etílica no Cinédia declamou Confidência do Itabirano na linguagem de camaco, dialeto criado pela antiga malandragem itabirana), Genin, Lute, Cau Gomez, Carlos Cruz, Tiusguinha, Luiz Zanon, entre tantos outros.

O Cometa, maio de 2002

O ponto alto desse período, certamente, foi a realização do 2º Salão do Humor Carlos Drummond de Andrade, no segundo semestre de 2002, durante as comemorações itabiranas do centenário do poeta. A festa do encerramento, no belo prédio do Museu de Itabira, foi antológica.

Mas a decadência também era visível, estava logo ali – e nem assim consegui me desviar para outra carreira. Luz e telefone eram cortados por falta de pagamento e muitas vezes tive que carregar o jornal nas costas para ele ser distribuído em Itabira (pegava os fardos de jornais na rodoviária, após a impressão em Belo Horizonte, e os levava no braço para a Cobal, para serem distribuídos pelos meninos da Combem).

Por fim, na redação da Martins da Costa, sobraram Marcos Caldeira e eu após a volta de Marcelo Procópio para BH. Não se sabe quem desligou o interruptor.

O Cometa deixou inúmeros frutos (como este site) e marcas profundas em Itabira (a começar pelo debate, atrasado mas felizmente presente em alguns setores da sociedade, sobre a mineração e o futuro do município). O jornal O Trem, que muitos erroneamente confundem com o próprio Cometa, é outro filhote, inclusive repetindo os piores erros, como o excesso de opinionismo e colunismo em detrimento da reportagem, uma praga, aliás, do jornalismo municipal, estadual, federal e internacional.

Coisas estranhas continuam a acontecer em Itabira. E o Cometa, vejam só, já virou história.

*Lucas Ferraz é jornalista e itabirano. Reside em Roma, Itália.

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