Fim da violência contra a mulher é tema de campanha e dispõe de projeto de reeducação do agressor

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No Brasil, a cada 7,2 segundos uma mulher é agredida física ou psicologicamente. “E hoje, até o fim do dia, dez mulheres serão mortas no país pelo simples fato de ser mulher”, disse a médica Paula Veloso Avelar Ribeiro. “E os principais autores desses crimes são parceiros, marido, namorado, ‘ficante’ ou até mesmo o próprio pai”, relacionou.

Paula Veloso fez palestra e deu seu testemunho de vítima de violência (Fotos: Carlos Cruz)

A médica fez palestra na abertura, nessa segunda-feira (26), no Centro Cultural, da quarta edição em Itabira da campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, que se estende até 10 de dezembro.

Ainda segundo ela, no Rio de Janeiro há um caso de estupro em escola a cada cinco dias, sendo que 62% das vítimas têm menos de 12 anos. E mais, nas universidades brasileiras, duas em três universitárias disseram já ter sofrido algum tipo de violência (sexual, psicológica ou física) no ambiente universitário.

Conscientização

Neste ano, a campanha tem como tema Homens pelo fim da violência contra a mulher. Marca também o início do programa denominado Itabira por Eles, voltado para a conscientização e ressocialização de homens que violaram a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006).

Público presente na abertura da campanha

O programa já conta com 80 participantes na cidade. A participação nas atividades para esses agressores é compulsória – e faz parte do cumprimento de pena. Serão realizadas palestras e oficinas com o objetivo de reeducar o agressor.

O programa parte do pressuposto de que todas as formas de violência doméstica e contra a mulher são culturais. E que, por isso, esse tipo de comportamento agressivo pode deixar de existir, ou pelo menos reduzir significativamente, a partir de medidas coercitivas e educativas.

Vítima

Propaganda da década de 1950: mulher pode queimar a comida desde que não entorne a cerveja

Conforme revelou a médica Paula Veloso, ela mesma foi vítima de violência doméstica, tendo sido mantida em cárcere privado pelo ex-marido, também médico, de quem só se separou há oito meses, após um casamento de quase uma década. Em sua palestra, ela diferenciou o feminicídio de outras formas de violência contra a mulher.

“Feminicídio não é a mesma coisa de uma mulher ser vítima de latrocínio (que foi assaltada e morta), que independe de gênero. A diferença é que no feminicídio o assassinato ocorre pelo fato de a vítima ser mulher”, explicou.

Quanto a violência doméstica ela pode ser física ou psicológica – e é também uma herança cultural. A palestrante apresentou propagandas da década de 1950 que colocavam a mulher sempre em situações subalternas ao homem.

Em uma propaganda de nova gravata, o homem diz, em inglês: “mostre para ela que o mundo é dos homens”, numa clara alusão de que os homens seriam melhores que as mulheres.

Uma outra propaganda mostra a mulher na cozinha, desesperada por ter queimado a comida. E o homem diz: “Não se preocupe querida, você não entornou a cerveja”.

Persistência

Propaganda de gravata

Segundo a palestrante, essa cultura machista, infelizmente, ainda persiste. “Violência contra a mulher não é necessariamente bater, esmurrar, matar”, acentuou, relacionando outras formas de violência que estão tipificadas na Lei Maria da Penha.

Ela citou como exemplos a violência patrimonial, que obriga a mulher entregar o dinheiro que recebe ao marido, como também a violência sexual, que torna o ato obrigatório sem o desejo da mulher.

Após descrever o ciclo da violência, Paula Veloso assegurou que a única forma de a mulher deixar de viver essa situação é denunciando quem a agride. O problema, assentou, é que muitas vezes a mulher não se dá conta de que está sendo vítima.

Propaganda recente de cerveja: submissão

“Há oito meses o meu ex-marido me agrediu e me manteve presa em casa. Antes, ele já havia manifestado outras formas de agressão e eu achava que era normal, sem saber que estava vivenciando um relacionamento abusivo. Ter consciência de um relacionamento abusivo é o primeiro passo para enfrentar a violência. Muitas vezes nem o homem tem essa consciência.”

Para ajudar na conscientização e divulgar casos de violência contra a mulher, Paula Veloso criou o projeto Colheres de Ouro. “Em briga de marido e mulher, familiares e vizinhos têm mais que enfiar a colher de pau e denunciar”, é o que ela defende com o seu projeto, divulgado pelo Instagram (@colheresdeouro).

Registros

Segundo relatou o sargento Anderson Gleisser Barbosa Tassi, que participa da Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica (PPVD), da Polícia Militar de Itabira, a conscientização sobre os direitos da mulher já está ocorrendo em Itabira.

Sargento Anderson Tassi

Em consequência, disse, tem aumentado o número de mulheres vítimas de violência atendidas pela PPVD. Neste ano, foram registrados 110 casos, contra 57 mulheres que foram acompanhadas no ano passado.

“Esse aumento se deve ao fato de as mulheres passarem a denunciar e não se submeterem mais à violência. Temos o caso de uma mulher que sofria violência há 20 anos e não sabia sequer o que era violência doméstica”, contou.

“Já encerramos 60 casos. Tivemos uma prisão de autor e uma reabertura por reincidência, o que indica que a nossa parceria está sendo bem encaminhada”, observou.

Parcerias

Para a delegada Amanda Machado Celestino, que comanda a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher, na Comarca de Itabira, o simples registro de ocorrências não basta para por fim à violência doméstica e contra a mulher.

“Precisamos atuar em rede, como já vem ocorrendo em Itabira”, disse ela. “É um trabalho que tem de ser integrado com a assistência social e psicológica, com o pessoal da área de saúde, com as escolas, conselho tutelar, Polícia Militar, judiciário e demais instituições”, salientou.

Delegada Amanda Machado

A delegada elogiou o trabalho desenvolvido pelo programa Parlamento Jovem, da Câmara Municipal, e que resultou em projeto de lei já aprovado e sancionado.

Trata-se da lei municipal denominada Parada Segura. Por essa lei, a mulher tem o direito de descer do ônibus fora do ponto, próximo de sua residência, caso não se sinta segura.

Outro projeto fixa no interior dos ônibus cartazes de conscientização sobre a violência contra a mulher.

“No país também assistimos alguns avanços, como a tipificação da pornografia de revanche, entre outras medidas protetivas”, destacou.

A pornografia de revanche é uma novidade jurídica. Trata-se de uma conduta criminosa praticada pelo ex-parceiro, tendo a ex-companheira como vítima. Ocorre quando o agressor, após o término do relacionamento, e por vingança, posta imagens íntimas da vítima na internet.

Memória

Dalma Barcelos, vice-prefeita

A vice-prefeita Dalma Barcelos, ao participar da abertura da campanha, lembrou que todas as conquistas alcançadas nesse campo, como a Lei Maria da Penha, são resultados de muitas lutas.

“Maria da Penha, em duas ocasiões, quase foi assassinada pelo ex-marido, um professor universitário. Fez várias denúncias no país, mas seu caso só ganhou repercussão quando ela denunciou à Organização dos Estados Americanos. Foi uma vergonha para o país. O seu agressor foi preso e só então foi editada a lei que levou o seu nome”, recordou.

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1 comentário

  1. Cristina Silveira on

    Mulheres, Indignai- vos!!!!

    Importante acontecimento no Centro Cultural e com público heim!… E significante o relato pessoal da médica Paula Ribeiro, ela abriu as portas seu consultório às mulheres de Itabira, é como se dissesse: Eu estou aqui! Não tenha medo!

    Alguém já viu uma mulher grande, musculosa agredir, um homem? Não, esta é uma cena que não se vê no cinema nem nas indecentes e decadentes NOVELAS.

    A presidenta Dilma Vana Rousseff, insultada nas redes sociais com adjetivos vulgares e violentos como: puta, vaca, sapatão, gorda, feia, quenga, burra; e depois na abertura da Copa do Mundo, no Estádio Mané Garrincha em Brasília, aquele “vai tomar no cu”, ofensa encabeçada pelo apresentador de TV, Rodrigo Faro (um idiota e obtuso que não sabe disto) , diante as câmaras de tv do mundo todo. Uma imagem para não se esquecer, um retrato 3×4 da misoginia nacional. O ódio deles sobre elas é atávico.

    Antes deste assombro contra a dignidade humana, a presidenta Dilma escreveu no código penal brasileiro a palavra Feminicídio, na publicação da lei 13.104, de 9.3.2015. E agora, o presidente JB, em entrevista na TV incita: “Eu pergunto às mulheres: vocês preferem a lei do feminicídio no bolso ou a pistola na bolsa?”
    E quantas mulheres votaram na aberração? quantos homossexuais votaram no desastre nacional?

    Exigir justiça? Como!!! se a polícia, a justiça cometem o mesmo crime?… O relatório parcial do Circuito das Favelas por Direitos, elenca inúmeros casos de violação incluindo casos em que a PM violenta meninas ‘dimenores’ nas ações da Intervenção Militar no Rio. E se reclamar atiram na cara que é desacato a autoridade. E quem se importa?

    Minas Gerais é o estado que mais mata mulheres no Brasil, os dados assustadores estão no documento, Diagnóstico de violência doméstica e familiar em MG, 2015-2017, da Polícia Civil. O documento relata o que se registrou nas delegacias de polícia, portanto é parcial, dado que a maioria das mulheres não registra a violência sofrida, se calam apavoradas de medo.

    Na década de 70 a socialite Angel Diniz levou balas de morte no rosto e na nuca, pelo impotente/grotesco Doca Street. Não bastasse a morte brutal, a violência prosseguiu nas ruas, quando mulheres de Cabo Frio reunidas em passeata deram apoio ao assassino que está livre e casado com uma mulher.
    A repetição, a repetição, a repetição…

    Agredir com palavras uma mulher, assediar uma mulher jovem, mulher que se separou do marido, é insegurança sexual masculina tão corriqueira, que homens que não batem em mulheres e se dizem favor do feminismo, cometem diariamente. E o pior é que eles não se dão conta do crime talvez por serrem animados pelas vozes da família, da opinião publica e, quem sabe até de Deus, a Nação e o Estado estão de seu lado, incitando o abuso.

    De Itabira trago lembranças ofensivas, entre elas o fato de nunca ter sido respeitada como mulher por parceiros de sexo de trabalho de boteco de rua de casa. Eu era chamada Puta, agora perdi o título para as mais jovens e belas…. a repetição, a repetição, a repetição…

    Para colocar fim a matança tenho a minha solução que sugiro às mulheres: não case, não viva na mesma casa, sobretudo Não Engravide de homens; mas comam os melhores (os bissexuais) que se possa encontrar por aí. Creio que esta solução mudará a mentalidade brutal dos machos briosos, respeitáveis e de muita honra quando estiverem cansados de sexo solitário.

    Aproveite a vida sem se ENVOLVER. Não Case Não tenha filhos, viva a liberdade de ir e vir, sem pedir licença porque é um direito de seu corpo, que é só seu e de mais ninguém.

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