Feira livre do produtor sem venda de bebidas alcoólicas perde freguesia e feirantes reclamam

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Carlos Cruz

Com esse tempo chuvoso, alternado com momentos ensolarados, uma boa opção para se fazer neste sábado (8), pela manhã, a partir de 6h até 14h, é curtir a Feira Livre do Produtor Rural de Itabira, que funciona na avenida Duque de Caxias, na parte alta que fica fechada para veículos, no bairro Esplanada da Estação.

Verduras fresquinhas, colhidas há pouco em algum sitiozinho da redondeza, estão lá expostas para serem consumidas. Na Feira do Produtor tem de quase tudo que uma feira livre do interior mineiro oferece (além de verduras e legumes, têm também porco, galinha – o saudoso sô Luiz Alves, de Santa Maria, trazia até cabrito para vender na feira). Os produtos chegam cedinho com cheiro de roça para tornar a mesa do itabirano mais farta e sortida.

Outra boa pedida na feira é experimentar o pastel e o peixinho fritos na hora, o famoso feijão tropeiro da feira, a linguiça assada na chapa ou frita na gordura. Mas se o freguês pedir uma cachacinha da roça não será atendido.

O consumidor desprevenido, e que ainda não sabe da proibição de venda e consumo de bebida alcoólica na feira de Itabira, vai ficar só na vontade de tomar uma cerveja ou uma cachacinha, mesmo que esteja ávido por um bom momento de descontração, alegria e prosa na feira livre enquanto saboreia um churrasquinho ou chouriço preparados com esmero.

Como a maioria na cidade já sabe, a venda de pinga, cerveja e de qualquer outra bebida alcoólica está terminantemente proibida na feira, desde que o prefeito Ronaldo Magalhães (PTB) assinou o decreto 1.758, em 18 de julho. Nem levando a bebida de casa pode-se beber na feira, sob pena de desobediência civil.

O decreto assinado pelo prefeito altera legislações anteriores que disciplinavam o funcionamento da feira. Determina que “a venda de bebidas alcoólicas somente poderá ser realizada se comprovada a origem artesanal, comercializada em embalagens fechadas, com prévia e expressa autorização do órgão gestor, não podendo ser consumida dentro dos limites da feira”.

Rigidez desnecessária

Carlos Pessoa, o Carlão, não vê motivo para a proibição (Fotos: Carlos Cruz)

“Não vejo motivo para manter essa proibição”, diz o aposentado Carlos Pessoa, o Carlão, que frequenta a feira desde que foi inaugurada, há cerca de 40 anos, na administração do ex-prefeito Jairo Magalhães Alves.

“Eu sempre compro verduras, levo samambaia da Bilinha e o que mais ela produz. Nunca vi uma confusão na feira. Só se for depois que ela acaba”, testemunha.

“Eu não bebo na feira, não gosto de cerveja em lata. Só em garrafa e aqui não vendia. Os feirantes reclamam que caiu muito o movimento depois da proibição.”

A feirante Helena Glória de Freitas trabalha há mais de 20 anos na feira. Ela ajuda a mãe Isabel de Freitas, a Bilinha, que cultiva suas verduras no bairro Chapada, zona rural de Itabira. De acordo com ela, ao contrário do que foi noticiado, não partiu dos produtores rurais o pedido para proibir a venda de bebida alcoólica.

A feirante Helena Glória de Freitas: “foi uma péssima decisão.”

“Foi péssima essa decisão. Se o prefeito mantiver a proibição, vai matar o nosso negócio”, diz ela, apontando para o pequeno número de compradores na feira, numa manhã chuvosa de sábado (1).

“Não é porque está chovendo que tem pouca gente. Em todos os sábados agora é assim. Caiu pela metade o movimento”, contabiliza, com tristeza. “Vou voltar para casa com muitas verduras que não vendi”, lamenta.

“Antes os fregueses reclamavam dizendo que estávamos trazendo poucas verduras, que era para plantar mais”, recorda, entre compotas e doces em caldas de figo, de leite, goiabada, ovos caipira de galinha e de pata – e muita samambaia que o Carlão tanto aprecia para acompanhar uma costelinha de porco regada a cervejinha e uma “pinguinha” no almoço de sábado em casa.

“Paradeza”

Maria de Lourdes pede que o prefeito volte atrás na decisão

Entre os feirantes ouvidos pela reportagem, todos foram unânimes ao discordar da proibição do prefeito. Consideram a decisão descabida, que só serviu para prejudicar os feirantes, os produtores indiretamente – e os vendedores de alimentos e bebidas, principalmente.

Maria de Lourdes Lopes, feirante que herdou a barraca de seu pai, José Tomás Filho, um dos fundadores da feira, acha que a proibição deve ser revista.

“O prefeito há de ter a compreensão e liberar. Bebe quem quer. É só estabelecer um horário e fiscalizar para a feira acabar no horário estabelecido”, sugere.

Rômulo Reis faz coro à sogra Piedade Oliveira: “nunca vi bagunça na feira.”

Rômulo dos Reis ajuda a sogra Piedade de Oliveira, 81 anos, na feira. “Nunca vi bagunça aqui”, assegura. “Eu também nunca vi. E olha que estou desde o início da Feira”, complementa Piedade.

Ela conta que participa da feira desde que funcionava na rua Esmeraldas, passou pelo Cobal, pela avenida das Rosas, depois rodoviária.

“As pessoas chegavam cedo, ficavam tomando uma cervejinha. Quando era a hora do almoço, compravam as verduras e o que mais precisava para preparar o que comer em casa. Agora está essa ‘paradeza’ que dá dó”, aponta, com tristeza.

Retorno da venda de bebida só com a revogação do decreto, diz secretário

Antes da proibição, a feira tinha um movimento maior. Segundo os feirantes, hoje caiu pela metade e as vendas despencaram

Para o secretário municipal de Agricultura e Abastecimento, William Sampaio Gazire, a proibição de venda de bebidas alcoólicas está também no decreto municipal 1094/2008, que revoga a lei o que criou a feira. Disciplina o seu funcionamento e também proíbe a venda de bebidas alcoólicas.

William Gazire, secretário municipal de Agricultura e Abastecimento

Segundo ele, a feira estava sem controle, prejudicando os próprios feirantes. “O problema não é a bebida, mas as consequências”, disse ele, que via no local uma verdadeira balburdia, com menores ingerindo bebida alcoólica, prostituição, comércio de drogas.

“A proibição de consumo de bebidas foi apenas uma das medidas tomadas para melhorar as condições de venda e trabalho para o feirante e de compra para os frequentadores”, assegura.

Pela descrição do secretário, a feira estava virando uma verdadeira Sodoma e Gomorra, duas cidades que, segundo relato bíblico teriam sucumbidas por Deus devido à prática de atos libidinosos, imorais, contrários à rígida moral cristã. “Temos filmagens que comprovam os desvios das finalidades da feira. Uma mulher chegou a dançar só de calcinha em plena luz do dia”, relata.

O presidente da Associação dos Feirantes e Produtores Rurais de Itabira, Geraldo “Tropeiro” Magela Moreira Duarte, assegura que se ocorreram esses fatos narrados pelo secretário não foi durante o horário do funcionamento da feira. Para ele, o que faltava era fiscalização e presença de policiamento para coibir eventuais abusos.

Ainda de acordo com ele, a “bagunça” que o secretário relata nada tem a ver com a feira. “Tanto é”, diz, “que continuam fazendo festas barulhentas aos sábados à noite no local onde a Prefeitura irá instalar a nova feira.”

Irredutível, porém nem tanto

Mesmo com toda argumentação de feirantes e frequentadores, William Gazire entende que o fim da proibição só é possível revogando o decreto municipal que disciplina o funcionamento da feira. “Eu prefiro pecar por ação do que por omissão. Aquilo estava virando um barril de pólvora prestes a explodir, podendo ocorrer algo mais grave.”

Geraldo “Tropeiro”, presidente da Associação dos Feirantes

De acordo com o secretário, a mudança para um local mais apropriado, na mesma avenida Duque de Caxias, só depende da legalização da associação dos feirantes, para que possa ser firmado um termo de cooperação com a Prefeitura.

“Antes só três feirantes estavam cadastrados na Prefeitura. Hoje, dos 47 feirantes, apenas três não providenciaram o cadastro. Quem não estiver cadastrado não vai poder vender na nova feira”, adianta o secretário de Agricultura.

Geraldo “Tropeiro” concorda com a necessidade do cadastramento, tanto que ele era um dos três que já estavam cadastrados antes da cobrança da Prefeitura para que isso fosse feito.

Diz também que os feirantes estão acatando todas as exigências da Prefeitura, inclusive fazendo cursos de manipulação de alimentos, controle de qualidade e atendimento ao público. “Nós somos os primeiros interessados em ter um espaço organizado e sadio, que seja bom para os feirantes e para o público.”

Espaço adequado

Movimento na feira caiu pela metade, segundo feirantes

A nova feira irá ocupar um espaço de 5 mil metros quadrados – e pode comportar até 100 barracas, que devem ser confeccionadas de acordo com modelo a ser apresentado pela Prefeitura.

“Vamos ter um espaço multiúso, com praça de alimentação. Outros eventos podem ocorrer no local, além da feira”, adianta o secretário de Agricultura e Abastecimento.

Gazire acredita que com a melhoria da feira, inclusive com participação de novos feirantes, será possível aumentar as vendas – e o consumidor terá mais opções, com produtos de qualidade e inspecionados.

Vereador Heraldo Noronha pede liberação já

O secretário conta que uma pesquisa realizada pela Escola Gerencial do Sebrae constatou que 80% dos feirantes são mulheres e que 60% têm mais de 60 anos.

“Eu fui um dos idealizadores da feira, na década de 80, e  todo esse esforço está sendo feito para que retorne aos seus objetivos originais”, diz ele, explicando que a feira foi concebida para assegurar mercado ao produtor local, aumentar a produção e venda de hortifruticulturas produzidas no município.

O que se espera é que essa reorganização seja para breve. “Chega a ser covardia proibir o barraqueiro de vender bebidas na feira livre”, classifica o vereador Heraldo Noronha Rodrigues (PTB), que assume a presidência da Câmara Municipal de Itabira para o biênio 2019/20.

“Peço ao prefeito que, ao voltar da China, revogue o decreto que proíbe a comercialização de bebidas na feira. A cervejinha aos sábados já faz parte do entretenimento do itabirano. Que a venda de bebida seja liberada na praça de alimentação”, defende. Que assim seja, para alegria de feirantes e frequentadores.

 

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