Fazenda do Posto Agropecuário corre risco de invasão após saída da Epamig. Prefeitura tem plano para a sua ocupação  

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Os resultados dos projetos que deveriam ser desenvolvidos pela unidade experimental da Empresa de Pesquisas Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), na fazenda do Posto Agropecuário, pelo menos após 2017, quando o atual governo municipal tomou posse, foram considerados pífios pela Prefeitura. “Antes de 2017 pode até ter ocorrido alguma coisa de importante, mas de lá para cá, não”, assegura o secretário municipal de Agricultura e Abastecimento, William Sampaio Gazire.

Segundo ele, o rompimento do contrato da Prefeitura com a Epamig, que só venceria em 2019, foi uma decisão unilateral. “Já tínhamos indícios da má vontade e do desinteresse de a Epamig manter a fazenda experimental em Itabira. Mas esperávamos pelo menos chegar ao fim do convênio e o início do próximo governo para fazer a rescisão”, disse ele, que não poupou crítica à estatal mineira de fomento à agropecuária.

Curral experimental da Epamig na fazenda do Posto Agropecuário: expectativas frustradas (Fotos: Carlos Cruz)

Já para a Epamig o fim do contrato foi consensual. Em nota distribuída à imprensa, a empresa informa que em reunião realizada na Prefeitura, por meio da Secretaria de Agricultura e da Associação dos Produtores da Agricultura Familiar de Itabira (Apafi) “foi acordado o encerramento do convênio de cooperação técnica, até então celebrado e executado pelas três entidades, em razão das dificuldades para o cumprimento das ações propostas na atual conjuntura econômica do município.”

William Gazire, secretário municipal de Agricultura e Abastecimento

Essa informação, contudo, é também contestada por William Gazire. Segundo ele, com exceção de R$ 60 mil que não foram repassados pela administração municipal anterior, até por falta de apresentação de projetos e da necessária execução, estão em dia os demais repasses dos valores acertados pelo convênio.

“Essa afirmação (das dificuldades na atual conjuntura econômico do município) não é procedente. A conta do convênio dispõe de quase R$ 150 mil em caixa e só não repassamos mais R$ 15 mil deste mês por ter havido o comunicado de que não seria dada continuidade ao convênio”, disse o secretário, para quem a crise decorrente do não repasse ao município de mais de R$ 40 milhões devidos pelo governo de Minas Gerais não interferiu no fim do convênio.

Mais versões diferentes

Para Gazire, o que motivou o encerramento antecipado do convênio foi a falta de interesse da Epamig, que não teria dado importância para a unidade experimental de Itabira.

“No início deste governo, depois de muita insistência, nos reunimos com uma diretora da Epamig em Belo Horizonte. Um simples pedido da Apaf para desenvolver um projeto de hortaliças, coisas simples de resolver, não foi atendido”, diz ele. “A diretoria demonstrou desconhecimento do que ocorria em sua unidade em Itabira.”

Horta abandonada é ocupada por matagal

Ainda de acordo com o secretário, na prática, o convênio já não atendia aos objetivos de incrementar projetos agropecuários experimentais no município de Itabira e na região. “Outros projetos que eram para ser desenvolvidos, como o de cana-de-açúcar, café, e produção de queijo também não foram implementados”, lamenta.

Já a Epamig contesta a opinião do secretário de Agricultura. Em resposta á reportagem afirma que enquanto esteve em Itabira pôde proporcionar a condução de unidades demonstrativas de cana, feijão, olericultura e integração lavoura pecuária-floresta, além de ter realizado diversos treinamentos para o setor agropecuário por meio de Dias de Campo e palestras.

“O campo experimental de Itabira contava com cerca de 110 animais da raça gir leiteiro, em sua maioria fêmeas, cuja intenção era produzir animais meio sangue gir-holandês”, informa a nota da empresa, acrescentando que esses animais seriam disponibilizados aos produtores da região.

Entretanto, com o fim do convênio, “todos os animais gir leiteiro pertencentes a Epamig foram transferidos para outros campos experimentais da unidade regional Centro-Oeste, conforme planejamento da Empresa.”

Gazire também contesta essa versão da empresa. “A Epamig trouxe um gado magro e foi preciso mais de um ano de trato para ter condição de procriar. Em nada o produtor de Itabira e da região foi beneficiado com esse gado. Não deu tempo de fazer a melhoria genética”, assegura.

Gado girolanda foi transferido para outra unidade da Epamig

Além disso, ele acrescenta, os 25 cursos ministrados na fazenda experimental neste ano não foram por iniciativa e condução da Epamig, mas do Sindicato Rural em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). “Apenas foi utilizado o espaço da fazenda para a realização desses cursos”, acrescenta.

“Após a nossa visita à Epamig em Belo Horizonte, foi designado um técnico para desenvolver um projeto de fomento à agricultura familiar, conforme foi solicitado pela Apafi. Três meses depois, a pessoa designada disse que não teria como implementar pois iria fazer um curso de pós-graduação.”

De acordo com o secretário, nos dez anos de existência do convênio com a Epamig, a Prefeitura investiu mais de R$ 1 milhão na fazenda experimental, mas sem obter o retorno esperado. “Se tivéssemos investidos esses recursos na Emater, com certeza os resultados teriam sido muito maiores.”

Próximos passos

A fazenda do Posto Agropecuário pertence a União e a cessão em regime de comodato à Prefeitura expirou no ano passado. “Já fomos comunicados e manifestamos o interesse de o município manter a fazenda com diferentes unidades demonstrativas, que é para incrementar a agropecuária em Itabira. Nos próximos dias iremos a Brasília negociar os termos de um novo contrato”, adianta William Gazire.

Vegetação foi recomposta pelo projeto Mãe d’Água, do Saae

A ideia que ele irá propor é fazer uma parceria local com o Sindicato Rural, Apafi, Emater e o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA).

“O desenvolvimento rural de Itabira só irá ocorrer se todos os segmentos envolvidos estiverem unificados. E o AgroWIN (programa desenvolvido em parceria com a Acita) tem os diagnósticos e as diretrizes para buscar esse desenvolvimento”, assegura o secretário de Agricultura.

“Caeté quebrou com o fechamento de sua siderúrgica. O que levantou o município foi a produção de hortaliças. Itabira pode seguir por esse caminho e alavancar a produção de queijos, café, cana-de-açúcar e a própria agropecuária, que é a maior vocação rural do município”, aponta.

Fazenda chegou a ser relacionada para fazer reforma agrária

O técnico agrícola aposentado Gilmar Bretas, que acompanhou a recuperação ambiental do Posto Agropecuário, assim como o início do convênio com a Epamig, teme que com a administração da Prefeitura a fazenda volte a ser invadida por gados de fazendeiros vizinhos, como ocorreu no passado.

“Chegou a ter mais de 300 cabeças de gado no local, sem nenhum controle de zoonose, com os animais pisoteando as nascentes, degradando o meio ambiente”, relembra. “Esse risco realmente existe, mas não pode ocorrer. Temos que ocupar a fazenda antes”, promete William Gazire

Nascente também foi protegida e reabilitada pelo projeto Mãe d’Água

Segundo Gilmar Bretas, foi após a Prefeitura firmar convênio com a União que, por meio do projeto Mãe d’Água, desenvolvido pelo Saae, as 13 nascentes existentes no local foram cercadas e recuperadas. A fazenda fica à montante do manancial da Pureza, que abastece de água mais da metade da população itabirana.

De acordo com Bretas, a fazenda é uma área de preservação permanente, mas pode comportar atividades agropecuárias desde que com manejo correto. São aproximadamente 265 hectares, sendo mais de 100 hectares com mata nativa e parte revegetada. “Com a Epamig tudo isso foi preservado, o que por si só justificava a existência do convênio”, defende, mesmo reconhecendo que o acertado com a empresa no início do contrato não tenha sido cumprido.

William Gazire concorda com o técnico agrícola nesse aspecto. “Realmente teve isso de positivo. Não vou dizer que (o convênio com a Epamig) foi o ‘capeta’. Mas pagamos caro por isso”, considera.

Ainda segundo recorda Gilmar Bretas, no passado o Posto Agropecuário chegou a ser administrado pela Companhia de Abastecimento de Minas Gerais (Camig), outra empresa do governo estadual de fomento à agropecuária, o que ocorreu até ela ser extinta. “Nessa época, a fazenda chegou a produzir 1,2 mil litros de leite diários.”

Assentamento

Como a fazenda pertence à União, conta Gilmar Bretas, ela chegou a ser oferecida ao Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) para assentar camponeses sem terra na localidade. “Essa decisão chegou a ser comunicada à Prefeitura”, relembra.

“Por sorte encontramos um itabirano trabalhando no governo, o agrônomo Laércio Brandão, que por conhecer o Posto Agropecuário e a sua importância para Itabira, reverteu o laudo. Foi quando conseguimos assinar o contrato de comodato com o Ministério do Planejamento.”

Pois é esse convênio que precisa ser renovado, antes que a União apresente uma outra opção para ocupar o histórico Posto Agropecuário – ou que volte para o abandono, impactando as nascentes e prejudicando até mesmo o abastecimento de água na cidade.

 

 

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