“Exilado” na Europa, o músico Juninho Ibituruna produz novo álbum colaborativo mesmo com a saudade que é dor pungente

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Quando aterrissou num domingo, 8 de março, em Zurique, na Suíça, o músico Flávio Júnio Fernandes do Nascimento não imaginou que a sua turnê na Europa seria cancelada, como acabou ocorrendo, uma vez que acabara de chegar ao epicentro da pandemia do novo coronavírus, que começava a avançar com força no continente europeu.

Para piorar a sua situação de quase degredado que se tornaria, não fosse o apoio de muitos amigos, teve cancelado o show que faria em Napoli, para onde se dirigiu no dia seguinte – e que seria comemorativo dos dez anos da gravação de seu primeiro disco na Europa (Xafu).

O músico Flávio Júnio Fernandes do Nascimento, vulgo Juninho Ibituruna (Fotos: Divulgação/Instagram). No destaque, Ibituruna (pandeiro), com os músicos Diogo Guanabara, Francisco Medina e Joana Radicchi, no Choro da Fábrica, em Lisboa, no espaço cultural Fábrica Braço de Prata

Já com a turnê cancelada, ainda restava ao percussionista Juninho Ibituruna, nome artístico de Flávio Júnio, o consolo de que teria à disposição o estúdio da PalomArt, um coletivo cultural de Napoli, para gravar o seu segundo disco.

Entretanto, isso também acabou sendo mais uma “pedra no caminho” do músico. “Assim que ingressei no estúdio para gravação do novo álbum de Xafu, a Europa decretou o lockdown e o estúdio foi fechado. Nos confinamos em uma casa e ficamos entre amigos e com os instrumentos musicais. Acabamos produzindo o álbum em casa”, diz ele, ao contar como foi que tornou criativo o ócio em tempos de pandemia no sul da Itália.

Todos esses acontecimentos ele diz ter ocorrido nas duas primeiras semanas em Napoli, onde encontrou apoio e companheirismo. “Em Napoli eu acabei tendo uma família, pessoas maravilhosas, a maioria músicos, através do coletivo com Paulo Almati (produtor cultural), que deu suporte para a gente.”

Banzo

Apresentação virtual de bateria: aprendendo novas formas de ensinar e interagir com outros artistas

Mas na terceira semana ele conta que os momentos de inspiração foram quase a zero, enquanto a saudade da família e dos amigos no Brasil foi apertando, tornando-se pungente, aquela “que mata a gente” – e não havia como retornar.

“Tentei um voo de repatriação para o Brasil, mas não consegui”, relembra o músico, assim como ele não obteve ajuda financeira do governo brasileiro. “Tive sorte de contar com a ajuda do coletivo PalomArt e de amigos.”

Após as gravações, Ibituruna conta que ficou várias dias sem sair do quarto, tendo vivido um momento de quase depressão, um sentimento de muita tristeza.

Mas com a arte ele superou esses momentos de dificuldades ao dar início à produção de seu novo disco “Até”, que pode significar um até breve para vários reencontros.

A produção do novo disco foi coletiva e virtual. Os amigos poetas foram enviando poemas e áudios, enquanto ele mesmo passou a escrever mais. “Foi a forma que encontrei para eu me comunicar com o mundo e assim saiu o novo disco”, recorda Junino Ibituruna.

O disco contém oito faixas, sendo sete poemas musicados e uma vinheta de gravações sonoras. “Mesmo que musicalmente não esteja perfeito, procurei não editar muito o álbum para não perder a essência, a originalidade do material que recebi. Para mim a perfeição é aquela que tem energia, tem vibração, ainda que com momentos altos e baixos”, filosofa.

Porto seguro

O músico em live, em Napoli, com os músicos Diogo Guanabara (bandolim) e Gabriel Walsh (sanfona)

Depois de 100 dias em Napoli, Juninho Ibituruna retorna para Portugal, onde se aloja em um trailer/motohome, instalado na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, no bairro Marvila – uma ocupação cultural que já completou 13 anos. “Portugal é o meu porto seguro na Europa”, considera.

É neste espaço cultural que Ibituruna retorna ao seu “ócio criativo” na companhia de artistas de todo o mundo. “Além de um lugar para ficar, qui tenho também suporte de alimentação e a possibilidade de focar na música para me preparar para o retorno dos shows.”

Mas também essa porta aberta para shows ao vivo retorna para o compasso de espera. É que uma ameaça de segunda onda da pandemia volta a assustar Portugal, que estava sob controle. Com isso, os shows programados foram cancelados e voltaram a ser somente virtuais.

“Abriram os shows por uma semana, mas agora só podem ser virtuais ou em drive-in”, diz ele, que remonta aos velhos tempos em que era comum, em algumas cidades, inclusive no Brasil, namorar dentro do carro para eventualmente assistir um filme – antigos estacionamentos que agora vêm se transformando em espaços de exibições culturais.

Atualmente Juninho Ibituruna tem feito concertos e ministrados aulas de pandeiro e bateria em salas on line fechadas – e também pela plataforma  twitch.tv/juninhoibituruna, onde encontram vídeos com as lições de casa. “Os interessados podem ver todos os vídeos lá.”

O novo álbum “Até!” pode ser adquirido por inteiro, ou por faixas, no endereço  https://juninhoibituruna.bandcamp.com/album/at-2.

O artista tem feito também três lives semanais com aulas de bateria e pandeiro. “Estou aprendendo a dominar essa nova forma de interação com o público.”

Próximo álbum

“Já estou trabalhando um novo disco”, adianta Juninho Ibituruna. “Vai ser em língua estrangeira, já recebi várias colaborações”, conta o artista, que continua sofrendo com a saudade da terra natal.

“O coração está sempre no Brasil onde está a minha família e muitos amigos”, diz ele, que não sabe quanto tempo ainda permanece em Portugal.  “Estou vivendo o aqui e agora, procurando ocupar a mente criativamente para manter a saúde mental.”

Saiba mais

“Até” é o novo álbum de poesia falada

O baterista e produtor Juninho Ibituruna

Na sexta-feira (3), Juninho Ibituruna fez o lançamento virtual de seu novo álbum caseiro (Até). Mineiro de Governador Valadares, nos últimos anos, antes de viajar para a Europa, o músico residiu em Itabira, onde mora a sua mulher Sara Cabral, também percussionista, e a filha Maitê, 4 anos.

O disco foi produzido em um estúdio improvisado em Napoli. Os poemas sonoros que compõem o álbum contam com a colaboração musical de Francesco Valente (Itália), Pedro Ratton (Minas Gerais) e Júlio Mengueles, de Itabira, Minas Gerais.

A mixagem ficou por conta do português André Xina e a masterização foi feita pelo paulista Maurício Caruso, radicado em Santiago de Compostela.

“Os escritos e as vozes são de pessoas espalhadas pelo mundo, com quem me relaciono afetivamente por meio da arte”, conta Ibituruna. Conforme ele explica, são falas que soam como poemas, cartas, prosas ou reflexões de quem está próximo, mesmo à distância”

Participam os músicos e poetas convidados Sara Cabral, Dandara Modesto, Liz Braga, Brisa Marques, Rita Podestá, Rafael Camisassa, Edinho Ramos e Clarice Panadés, também criadora da capa do álbum.

Para Juninho Ibituruna, a produção do álbum foi também uma forma de encurtar as distâncias e unir os amigos. “Foi um processo terapêutico fazer esse disco. O fato de manter contato com as pessoas, de forma criativa, me ajudou a enfrentar aquele primeiro período da pandemia com mais força”, reconhece.

Para ele, “o trabalho pode ser entendido como um sinal, um caminho que aponta para uma direção além do tempo, para depois do fim: Até!”

Serviço: 

Onde:

juninhoibituruna.bandcamp.com /  www.twitch.tv/juninhoibituruna

 

 

 

 

 

 

 

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