Europa e o palco silencioso do suicídio

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Por Veladimir Romano*

Anos que se vão e com o decorrer da ditadura desse tempo, o fascismo de péssima memória em Portugal, é exemplo de como se escondia a realidade da população. Certa feita, a chefia do Conselho nos domínios do ditador António de Oliveira Salazar, na intenção reformista do regime, manifestou na interpretação alusiva ao Estado Novo, referindo-se às listas sobre o problema do suicídio, relacionando a Suécia para onde o ministro da Saúde havia feito viagem a este país escandinavo, como exemplo a não ser seguido.

O ditador logo retorquiu não desejar em nenhum instante aquele sistema nem idêntico desenvolvimento para Portugal. Melhor continuar sozinhos e eternamente amantes da grande pátria Lusa que tantos exemplos deu ao mundo com suas famosas caravelas.

António de Oliveira Salazar, reafirmava dias depois,  sobre o mesmo assunto: «não quero para o nosso país um desenvolvimento que nos conduz ao suicídio…».

Contudo, poucos na altura sabiam que ao mesmo tempo que em outros países o suicídio era problema de saúde e preocupação social em Portugal. Mas isso era escondido, todas as estatísticas relacionadas ao assunto eram proibidas, censuradas ao ponto do Instituto Nacional de Estatística ser ameaçado, recebendo periodicamente visitas da polícia secreta [P.I.D.E.=Polícia Internacional em Defesa do Estado], controlando quaisquer listas possíveis de estudos tanto da saúde continental como das chamadas “províncias ultramarinas”.

Com acontecimentos na revolução de abril e respectiva reforma, do renascimento republicano, chegou nova política e atenção sobre este problema milenar e gravíssimo dentro da nossa sociedade.

Assim sendo, com a criação das estatísticas, estudos e troca de informação na parceria internacional, se conheceu mais a preceito o sistema de saúde mental português demonstrando depois de tanto tempo, afinal, o pouco discutido e ainda menos estudado problema português de saúde mental.

Na prática, depois do aparecimento da União Europeia [antes C.E.E.=Comunidade Econômica Europeia], no presente, esta também ficando mais do que nunca na margem do problema, embora estudos e análises não faltem, sobra o relevante debate mais abrangente no espaço privilegiado das 27 nações da União mais o Reino Unido.

O gigante problema da saúde e suas limitações na ordem do dia, como resultado da pandemia viral, se descobre quanto a área sanitária é fragilizada.

Casos há descuidada, outros enfraquecida através de políticas estudadas nos bastidores políticos onde a estratégia tem sido abater o serviço público, logo privatizando, entregando nas mãos quentes de multinacionais seguradoras o filão da saúde quando todos nós deveríamos estar resguardados, protegidos e em segurança.

Com sistemas de saúde na maioria dos membros da U.E. [União Europeia] liminarmente alienados, apenas sustentadas no limite dos seus padrões tanto pela segurança como na sustentabilidade.

Museu da Farmácia, em Lisboa, Portugal (Fotos: Mauro Moura)

Mas mesmo chegando ao indicativo hipócrita e neurotizante praticado pelos políticos em discursos duma bonança artificial, ainda assim hoje, segundo o Instituto de Estatística português, nos próximos 30 anos, duplicará a população demente.

Sem a ditadura e finalmente podendo equiparar este sofrimento, Portugal, em média, tem 17 casos suicidas diários. Em 2018 o total atingiu 6.323 casos/ano, mais que doentes de pneumonia, diabetes, tuberculose.

Entretanto, recuando a 2017, não faltando varáveis, desde 2008, casos fatais ultrapassaram em mais mil/ano situações suicidas relacionando a 2019.

As vítimas vão de adolescentes de 15 anos a 24, com 28 vítimas, aumentando no mesmo ano de 2017 para 46 mortos por suicídio logo seguidamente dos idosos com mais de 65 anos a mais de 85, maiormente no feminino com 63% destas vítimas.

Pelo sistema de estatísticas europeu, depois de atento estudo projetado recentemente, Portugal, em 2050, terá um dos topos da doença mental, sendo neste momento o terceiro país mais atingido.

A documentação publicada pela instituição “Alzheimer Europe”, quase 4% da população europeia vai ter alguma demência. No atual instante a percentagem está em quase dois por cento.

Em 2013 morreram 3727 vítimas de várias complicações mentais ainda em Portugal. Com a entrada do novo século cobrindo esta primeira geração, doenças mentais em todo o planeta subiram 70%.

Um dos problemas igualmente latentes com graus diferenciados para cada sociedade e continente, são os termos discriminativos com relação a doenças mentais sempre com debates e discussões adiadas, conservadas na maioria do tempo numa gaveta esperando sua oportunidade, o pior lado da saúde neste momento.

Igualmente níveis inaceitáveis de preconceito persistente, perigosamente enquanto famílias inteiras sofrem, em casos outros sem saber o que fazer.

O exemplo do presente numa democracia trazida com o 25 de Abril, Portugal é um péssimo exemplo quando 40 hospitais públicos vivem em “falência técnica” e mais 11 de parceria privada, equivalente a 54% de prejuízo perdendo num ano quase 6 bilhões de reais ao precioso SNS=Serviço Nacional de Saúde.

Governos aplicando políticas irresponsáveis, destrutivas do sistema, inflacionando despesas descontroladas, aumentaram através das suas políticas a despesa da saúde em quase mais 200% onde fármacos representam no PIB de 1.15% a 1.22% [faturas de dezoito (18) bilhões de reais].

O estrago no PIB português relativamente na saúde atinge quase os 10%, o décimo país dentro da União e em toda a restante Europa com a despesa mais alta.

Não é de estranhar que 11 mil cientistas tenham escrito em conjunto carta de reclamação contra a indústria, praça financeira, políticos e governantes.

Aconteceu com vários destes cientistas de todos continentes depois do aparecimento deste estranho, destruidor e persistente Covid-19. Ficamos sem saber como será o futuro depois da pandemia e qual coragem ainda resta a quem administra a sociedade e defende o povo.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano

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