Estudantes da Unifei sabatinam diretores. E pedem renúncia, que não é aceita

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Sabatinados no primeiro encontro que tiveram com os estudantes, após serem nomeados pelo reitor Dagoberto para os cargos de diretor-geral e vice do campus de Itabira, os professores José Eugênio Lopes e Élcio Franklin Arruda foram gentis e educados, mas deixaram claro que não renunciam aos cargos, como tem sido reivindicado pelo movimento estudantil.

Diretores e estudantes se encontram em primeiro debate pós polêmica nomeação para dirigir o campus de Itabira (Fotos: Carlos Cruz)

“Não vejo possibilidade de voltar atrás quanto a minha nomeação e renunciar”, disse o diretor, seguido pelo vice-diretor, que tem a mesma posição. Eles participaram de um debate com os estudantes, promovido pelo projeto de extensão universitária 4ª Arte, tendo como tema Universidade e gestão democrática.

O descontentamento dos estudantes foi pelo fato de o reitor desconsiderar o resultado de uma consulta pública, realizada recentemente entre professores, estudantes e funcionários do campus de Itabira, que por maioria dos votos escolheu para diretor o professor Gilberto Cuzzuol.

A opção pela chapa que ficou em segunda colocação é uma prerrogativa do reitor, que poderia ter nomeado, caso quisesse, até mesmo o terceiro colocado, o professor Francisco Moura Filho. Mas a sua escolha foi bastante para gerar descontentamento e protestos em Itabira – e também em Itajubá, em solidariedade aos colegas do campus avançado.

Legalidade

Conforme explicou o professor José Eugênio, ao aceitar participar do processo eleitoral, todos os candidatos conheciam as regras dispostas em lei, que diz ser facultativa a consulta para compor a lista tríplice. “Quem definiu que haveria a consulta foi o conselho superior. Sem isso, a escolha seria restrita ao colegiado.”

Professores Élcio Arruda e José Eugênio no debate com os estudantes

Para ele, as regras são claras. “Para mudar esse processo (que confere a prerrogativa de o reitor escolher o diretor numa lista tríplice, não importando a sua posição na consulta), só se mudar a lei.”

Também sem aceitar os reiterados pedidos de renúncias formulados pelo movimento estudantil, o professor Élcio Arruda reconheceu que não tem sido fácil estar na posição em que se encontra. Mas ele também não considera a possibilidade de renúncia.

“Aceitei participar do processo, conheço as regras. Estar aqui (na condição de vice-diretor) não é algo comum para mim. Sei que vou criar indisposição com várias pessoas que antes me cumprimentavam, riam comigo, contavam piadas e que hoje não mais me cumprimentam”, admitiu.

Mas ele acredita que com os acertos que virão com a nova direção, as diferenças diminuirão. “Vamos abrir espaços para o debate com vocês, esse é o primeiro passo para o entendimento. Vamos expor nossas ideias e apresentar uma nova forma transparente de trabalhar com a comunidade (acadêmica)”, contemporizou.

É o que também acredita o professor José Eugênio, que pretendia se aposentar daqui a dois anos, e retornar para Itajubá, sua terra natal. Mas ele admitiu que agora fica em Itabira por mais quatro anos, até findar o seu mandato. “Com o trabalho que pretendemos fazer nesses anos com as unidades acadêmicas, vocês perceberão as melhorias que irão ocorrer”, prometeu.

Estudantes insistem nas críticas à reitoria 

Já na abertura do debate, os alunos afirmaram nada ter contra os professores que assumiram os cargos de direção do campus local. Para eles, as críticas são pelo fato de o reitor não nomear os professores que ficaram em primeiro lugar na consulta pública, quebrando uma tradição histórica na faculdade desde que houve a redemocratização do país.

Larissa Manoele foi incisiva nas críticas à escolha do reitor

Larissa Manoele da Silva, aluna de engenharia ambiental, reconhece que é prerrogativa do reitor nomear a direção do campus, mas diz que essa não era até aqui a tradição democrática na universidade.

“Essa é a causa de nossa indignação, por sentir que mais uma vez a nossa vontade não é respeitada. Por isso clamamos pelas renúncias dos professores Eugênio e Élcio”, insistiu.

Já Tiago Heider, aluno de engenharia elétrica, ressaltou que em nenhum momento os estudantes disseram que os professores nomeados seriam maus gestores. Entretanto, ele considera ser ilegítima a opção do reitor pelos segundos colocados. “Se fosse legítimo, acataria o resultado (da consulta).”

Cartaz na universidade

Para Júlia Simião, aluna de engenharia ambiental, mesmo tendo a decisão do reitor base legal, a escolha não foi democrática por não considerar a vontade da maioria. “Essa mesma lei que o reitor está amparado judicialmente, é um modelo antigo e arcaico. Muitos juristas a consideram como um resquício da ditadura.”

Segundo ela, esse mesmo resquício foi observado durante a videoconferência que o reitor Dagoberto manteve com alunos de Itajubá e de Itabira. Conforme ela testemunhou, inicialmente o reitor não quis aceitar a participação dos alunos de Itabira.

Depois, demorou mais de 30 minutos para iniciar a reunião. “E sempre que tentamos fazer uma intervenção, éramos interrompidos por gritos na videoconferência. Ficamos indignados com a forma como o reitor conversa com os alunos de sua universidade.”

Dagoberto contesta manifestantes e acusa mídias itabiranas de não serem parciais

Procurado pela reportagem nos diferentes momentos da crise que se arrasta desde o ano passado, por meio de sua assessoria de imprensa do campus de Itabira, o professor Dagoberto Alves de Almeida, não quis dar entrevistas. Preferiu responder às críticas dos estudantes por meio de sucessivos comunicados e memorandos postados no site da universidade.

Por meio desses desses comunicados que ele se posicionou politicamente, justificando a escolha da nova direção do campus local, o que só ocorreu um mês depois da consulta que definiu a posição dos candidatos.

Segundo ele, a sua decisão se deu pela “clara percepção de que aqueles que encabeçam a lista tríplice não têm, em absoluto, aderência alguma aos valores da atual gestão.” Diante dessa constatação, foi que ele não teve dúvida de que os professores escolhidos pela consulta pública se situam no campo oposicionista à sua gestão.

“De fato, se enquadram muito mais na atuação praticada na administração anterior à nossa, tanto é que se empenharam intensamente na campanha do candidato que compartilhou a direção da Unifei até 2012”, referindo-se à gestão do ex-reitor Renato Aquino, já aposentado, a quem ele fez oposição, derrotando as chapas de seu grupo nas duas eleições passadas para a reitoria da Unifei.

Dagoberto também recusa a pecha de ser autoritário com os estudantes. “O campus da Unifei em Itabira só passou a votar em seus dirigentes com essa administração, ou seja, a partir de 2013.”

Para enfatizar o caráter democrático de sua gestão, ele destaca que por iniciativa da reitoria e do Conselho Universitário (Consuni), o diretor de campus não mais acumula a direção de unidades acadêmicas, que, além de não ser apenas uma, agora são três unidades.

“Essa descentralização é benéfica e representa um tremendo avanço com a implementação do Conselho de Campus, também iniciativa da Reitoria e do Consuni”, salientou.

O reitor rechaça as críticas de que tem tirado a autonomia do campus de Itabira. Essas críticas, para ele, “caem por terra”. Para isso, basta observar “os exemplos das várias ações que têm sido feitas em prol do campus de Itabira”, escreveu em um de seus comunicados.

“O número de cargos de direção disponibilizados ao campus avançado (de Itabira) triplicou em nossa gestão, subindo de dois para seis, ainda que o MEC tenha disponibilizado apenas dois para a estruturação desse campus, ou que tenha sido essa a decisão da administração que me antecedeu.”

Dagoberto repudia qualquer afirmação de que busca retirar as conquistas materiais existentes no campus de Itabira. “Até para corrigir falhas absurdas, como privar nossos alunos e servidores de um restaurante universitário, fica evidente que afirmações desse tipo denotam uma visão de tão somente caluniar a atual administração a qualquer custo”.

Portanto, para o reitor, as críticas que tem recebido são descabidas, inclusive de parte da imprensa itabirana. “Nos causa espanto o fato de mídias locais divulgá-las sem que haja um crivo sobre sua veracidade ou razoabilidade, com a apresentação de apenas uma única versão”, lamentou.

Vale ressaltar que no transcorrer das sucessivas crises que desde o ano passado vêm ocorrendo entre o professor Dagoberto, professores e estudantes, a reportagem deste site procurou ouvir, sem sucesso, o posicionamento da direção local e da reitoria.

Por meio da assessoria de imprensa do campus de Itabira, as respostas foram para esperar por um momento mais oportuno. Como se observa, o reitor prefere utilizar memorandos e comunicados no site oficial da universidade para se manifestar. É o que o leitor pode verificar pelos links abaixo:

https://unifei.edu.br/blog/nomeacao-de-diretor-e-vice-diretor-do-campus-da-unifei-itabira/

 

https://unifei.edu.br/blog/impessoalidade-e-democracia-nomeacao-de-diretor-de-campus/

 

https://unifei.edu.br/blog/1o-comunicado-alunos-direitos-e-limites/

O abandono de cargos no campus da Unifei-Itabira

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