“Está vendo aquela fumaça? É sua família”: o relato do brasileiro que sobreviveu a Auschwitz. “Minha família saía pela chaminé”

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Rafael Jasovich*

Vou começar este artigo com um trecho da entrevista que Andor Stern deu a BBC. O leitor que por ventura ler  estas linhas e tiver paciência, no final entenderá.

“Andor Stern é o único brasileiro a sair vivo do chamado epicentro do Holocausto depois de ver sua família ser levada à câmara de gás; hoje, aos 91 anos, ele conta que a experiência o faz sentir gratidão pelas pequenas coisas da vida. ‘Não é todo dia que coloco a tefilin em cima do número de Auschwitz’, diz o rabino David Weitman logo depois da breve cerimônia, em uma sinagoga na região central de São Paulo, em 11 de novembro de 2019. ‘E é a primeira vez que faço isso em alguém dessa idade. É muito emocionante. Os nazistas se foram, mas nós estamos aqui.’…

Andor Stern acabaria capturado e viveria cerca de um ano no campo de concentração em Auschwitz, na Polônia, o maior e mais cruel símbolo do Holocausto. Os números que o identificavam no campo continuam tatuados em seu braço: 83892. Ele é tido como o único brasileiro nato a sobreviver a Auschwitz….”.

Prisioneiros famintos no campo de concentração, em 7 de maio de 1945, em Ebensee, Áustria. O campo foi usado para experimentos “científicos”. (Acervo do Arquivo Nacional/Newsmakers). No destaque, o brasileiro Andor Stern, sobrevivente do holocausto em Auschwitz, na Polônia (Foto: Adriano Vizoni (Folhapress)

Sou de origem judaica, mas nunca me senti como tal, nunca pratiquei a religião de meus antepassados e minhas crenças são diferentes, mas com certeza para Hitler e para os nazistas locais eu sou um judeu.

Dias atrás uma amiga com a qual tenho uma forte relação afetiva me mandou uma mensagem dizendo que tinha descoberto que os avós maternos de seu pai eram judeus e que isso a tinha feito lembrar muito de mim.

Aconteceu que também me trouxe a memória minhas origens e também na mesma semana acabei lendo a entrevista da qual transcrevi um trecho no inicio deste artigo. Tudo isso me fez pensar (não acredito em casualidade) que uma mensagem estava sendo dada e que eu deveria entender e assimilar os sinais recebidos.

Tanques nas ruas pós-1964: ostentação do aparato militar como forma de intimidação, enquanto prisioneiros políticos eram torturados e assassinados nos porões dos DOI-Codi’s . Ditadura nunca mais (Acervo: Folhapress)

Quem leu neste site Vila de Utopia algumas mal traçadas linhas que já escrevi conhece minha posição política e filosófica que, desde minha juventude, me acompanha como defensor das liberdades públicas, de um mundo mais justo onde a inclusão das mais diversas etnias, credos, religiões, opções sexuais sejam respeitadas  e que possamos conviver com as diferenças sem preconceitos e acolhendo todos para viver fraternamente.

Têm os que não acreditam que existiu o holocausto, não acreditam que na Argentina a ditadura cívico-militar matou 30 mil argentinos e que se apropriou dos filhos nascidos em cativeiro. Como não acreditam que no Brasil houve ditadura que assassinou, torturou e desapareceu com muitos militantes das causas populares.

Ou ainda, que acreditam que a terra é plana, que os negros são raça inferior, que os índios são pouco humanos, que os gays são uma aberração, que as mulheres são inferiores aos homens e que lhes devem submissão. Enfim, são racistas, misóginos e, como tal, profundamente ignorantes.

Este desgoverno brasileiro que tem um projeto neoliberal e nazista em toda sua concepção tem os que o enfrentam. Mas, infelizmente, muitos olham  passivos e nada fazem diante da perda de todos os direitos, da censura, da perseguição, do enaltecimento dos torturadores, da proteção às milícias e muito mais, A esses últimos me permito lembrar lhes de um poema de Bertold Brecht.

Loa da dialética

 Com um passo firme, a injustiça agora está passeando.

Opressores se partem para dominar mais dez mil anos

Mais.

A violência garante: “Tudo permanecerá igual.”

Não há outra voz além da dos dominadores,

e no mercado grita exploração: “Agora é quando

Eu começo.

E entre os oprimidos, muitos dizem agora:

“O que queremos nunca será alcançado.”

 

Quem ainda está vivo não diz “nunca”.

A firmeza não é firme.

Nem tudo será o mesmo.

Quando o dominante falou,

o dominado falará.

Quem pode ousar dizer “nunca”?

Quem depende da opressão? De nós.

De quem é isso? De nós também.

Deixe aquele que está desanimado subir!

Aquele que está perdido, que luta!

Quem pode conter aquele que sabe sua condição?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã

e ele nunca se torna hoje.

(Bertold Brecht)

E por fim,

Hay hombres que luchan un día y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años, y son muy buenos. Pero los hay que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles.

Lute.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

 

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Sobre o Autor

1 comentário

  1. Mauro Andrade Moura on

    Dizem, contam-se, apuram e chega o século XXI com alta tecnologia que abarca também a genética.
    Está aí o teste de DNA a todos que queiram confirmar e neste apura-se e reconta-se, um quarto da população brasileira descende de judeus, marcadamente dos sefaraditas.
    A D´us, peço a grandeza de espírito e que fé nos mantenha firmes nestes tempos obscuros que assombram essa Terra Brasilis.

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