Escritório de Bolsonaro em Jerusalém desagrada árabes e israelenses

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Rafael Jasovich*

O anunciado escritório de Brasil, em Jerusalém, desagrada árabes e israelenses. Desagrada o premier israelense porque a promessa era uma embaixada. E desagrada os países árabes porque é um reconhecimento de Jerusalém.

“Bolsonaro é um bufão que põe em risco dois séculos da nossa tradição diplomática de promover paz e respeito entre os povos. Prometeu abrir embaixada em Jerusalém e recuou. Vai desagradar Israel com a quebra da promessa e segue desagradando povos árabes com a provocação gratuita”, disse o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) pelo Twitter.

O presidente Jair Bolsonaro anunciou no domingo (31), durante visita a Israel, a abertura de um escritório em Jerusalém para promoção do comércio, tecnologia e inovação, mas não mencionou a possibilidade de mudança de endereço da embaixada brasileira.

Segundo uma fonte com conhecimento direto do assunto, a delegação brasileira chegou a estudar a classificação da abertura do escritório “como parte de sua embaixada em Israel”, mas a fala oficial de Bolsonaro não fez essa menção.

Bolsonaro posa com arma em punho, em foto publicada pelo próprio. Na foto em destaque, o presidente quebra tradição diplomática e visita o Muro das Lamentações com Benjamin Netanyahu (Foto: Reuters)

“Agora há pouco tomamos a decisão final, ouvindo inclusive o nosso general Augusto Heleno, ministro de Estado (do Gabinete de Segurança Institucional), em criar aqui, abrir em Jerusalém o escritório de negócios voltado para ciência, tecnologia e inovação”, disse Bolsonaro em declaração conjunta ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Já o premiê israelense afirmou alfinetando o presidente brasileiro ao esperar que a medida seja um primeiro passo para a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém.

O filho do presidente afirmou que com o tempo haverá embaixada brasileira em Jerusalém. Hoje, a embaixada brasileira está em Tel Aviv, onde estão as representações diplomáticas em Israel de praticamente todos os países.

Tanto Bolsonaro quanto Netanyahu destacaram a assinatura de acordos em suas falas, relacionados a áreas como piscicultura, tecnologia, segurança e agricultura. Bolsonaro também agradeceu a ajuda enviada por Israel para o resgate de vítimas em Brumadinho (MG), onde o rompimento de uma barragem de rejeitos da Vale deixou mais de 300 mortos e desaparecidos no fim de janeiro.

Os soldados israelenses ficaram uma semana na cidade mineira e nada fizeram. Os verdadeiros heróis, os bombeiros, estão esquecidos pelo presidente.

Na última quinta-feira, Bolsonaro já havia dito que o governo brasileiro poderia abrir um escritório de negócios em Jerusalém, em vez de transferir a embaixada em Israel para a cidade, como chegou a anunciar mais de uma vez.

O aparente recuo em relação à mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém — um assunto sensível na região e que desagrada os países árabes, grandes importadores de carne de aves do Brasil— vem com a resistência dos militares do governo e da equipe econômica, que teme as consequências para as exportações brasileiras.

O capitão-presidente já tinha declarado que “a Palestina não sendo país, não teria embaixada aqui. […] Não pode fazer puxadinho, se não daqui a pouco vai ter uma representação das Farc aqui também”, afirmou Bolsonaro, citando as Forças Revolucionárias da Colômbia, organização paramilitar que atuou por muito tempo na guerrilha da Colômbia.

Uma das consequências imediatas foi que a Palestina condenou o anúncio de Bolsonaro de abrir escritório em Jerusalém e chama seu embaixador de volta ao país para consultas e estudar uma resposta imediata à clara provocação. E convoca reunião com países árabes, quando devem ser tomadas medidas contra a decisão do Brasil.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

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