Entrevista com o revolucionário Drummond sobre o Modernismo

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No primeiro semestre de 1926, em plena efervescência do recém-lançado Movimento Modernista de 1922, o jovem Drummond já se projetara nacionalmente como um de seus mais autênticos líderes. Nesse sentido, participara ativamente na Semana Modernista no jornal, A Noite e dirigira “A Revista (BH-MG, 1925-26), que grande influência exercera em prol do movimento.

Joaquim Batistella com Arp Procópio (Fotos e ilustrações: acervo Cristina Silveira)

“A Revista, em três números, conseguiu uma tiragem assombrosa e, nas suas páginas, fulgura Minas nova e vibrante, senhora de uma arte nova. Emílio de Moura, Carlos Drummond, Abgar Renault, Milton Campos, Capanema Filho, Magalhães Drummond, formaram a seleção dos novos valores da Revista.” (in: Minas Gerais, afirmação formidável da grandeza brasileira. Minas Intelectual, por Alberto Deodato, Jornal O Paiz, (RJ) 1.10.1925, p.57).

Afastando-se, temporariamente de Belo Horizonte, então um dos focos do recém-criado Modernismo, refugiara-se por alguns meses em sua terra natal, Itabira do Matto Dentro, onde lecionou Português e Geografia no Ginásio Sul-Americano.

Nesse período o carioca de circulação nacional, O Paiz, promoveu uma enquete, sobre o título geral de O QUE PENSAM E SENTEM OS HOMENS MOÇOS DO BRASIL, encaminhando um questionário aos principais participantes da revolução literária iniciada em São Paulo, em 1922.

Recebeu-a, entre outros, Manoel Bandeira, Mário de Andrade e Drummond. Em carta à Manoel Bandeira, escreveu Mário de Andrade: “recebi de um tal Jaime de Barros, de O Paiz, uns quesitos duma enquete sobre a renovação estética. Decerto você também já recebeu. Como não sei quem seja e se vale a pena responder, deixo isso a critério de você.”

Também em carta a Drummond, 8.6.26, aconselhava Mário de Andrade: “Acho que se você puder deve de fazer um esforçinho para responder à enquete do Paiz. Todo mundo está respondendo.”

A seguir, as impressões de C.D.A., sobre o movimento modernista, em seu estilo rápido, incisivo, irreverente e palpitante, em entrevista dada ao então repórter literário Jaime de Barros ao depois, diplomata.

Amém, já dizia D. Marinha, minha mãe, para quem o Poeta sempre foi o menino Carlito,

(Arp Procópio de Carvalho)

O que pensam e sentem os homens moços do Brasil

Como um jovem explica e assimila as características do modernismo

Em carta à Cristina Silveira, Drummond explica a sua participação no Modernismo

“A cada instante se esclarecem e se definem, neste inquérito, aspectos novos do movimento de ideias que agita as inteligências moças do Brasil. […] Vão se dissipando alguns equívocos lamentáveis. Já se sabe que os moços que formam a moderna corrente literária brasileira não só não são futuristas, como condenam, combatem e repelem o futurismo.” – “Destruir não é nenhuma finalidade.” – diz Carlos Drummond, cuja inteligência trabalha em Itabira do Matto Dentro, nos confins de Minas Gerais.”  (Jaime de Barros)

Um movimento de criação.

– Sobre o Movimento Modernista?

Seria ocioso discutir a existência dum movimento cujo resultado instantâneo e visível foi o desbarato integral do passadismo brasileiro. Existe porque todos sabem do barulho que ele já fez. O sol queima; o sol existe. Também denotaria falta de espirito crítico julgar o modernismo sem o devido recuo no tempo – e sem que se tenha produzido a suas mais sérias consequências.

– Sobre a Academia Brasileira de Letras?

Destruir não é a finalidade. Acabar com uma Academia serôdia é Pathologica/teutologica, é simples ato de higiene intelectual.

– Quais as características do Modernismo?

O nosso modernismo não pode ser de combate à falso valores (que por se mesmo se anulam), mas uma obra paciente e consciente de criação.

Mário de Andrade por Anita Malfatti

– Mas criação de quê?  

Criação da própria fisionomia moral do Brasil. E para criar não é preciso palavras, também não é preciso literatura. Ao contrário. Por isso mesmo o modernismo indígena tem a sua mais pálida expressão nos versos que já inspirou. Nesse domínio, o que ele fez de melhor foi libertar a poesia e devolvê-la intacta à intimidade de cada um de nós.

– E a opinião dos passadistas?

Posso afirmar que os orientadores do movimento não se preocupam com a opinião pejorativa que formam deles alguns remanescentes do passadismo. Tem um infinito bom senso e seus frágeis adversários tem somente uma infinita estupidez.

– Em que consiste a criação da fisionomia moral do Brasil?

Essa obra serena de moldagem do caráter brasileiro envolve a mais séria das responsabilidades. E a geração modernista, que sabe disso não pode perder tempo com a dolorosa burrice dos seus detratores.

– Existem modernistas autênticos e falsos modernistas?

Para os bem-intencionados, por ventura ainda mal informados, devo acrescentar uma palavrinha: convém não confundir os autênticos representantes da aspiração geral com os falsos profetas do modernismo: “profiteurs” manhosos e comprometedores.

– Qual a influência que Graça Aranha exerce sobre o modernismo?

Do alto dessa coluna de jornal eu acuso o ilustre Sr. Graça Aranha de ser menos modernista dos modernistas brasileiros. Em tudo ele vê pretexto para os jogos de sua metafísica retardatária.

– Quais são os verdadeiros chefes do modernismo?

Não temos chefes. Mas a influência profunda e indisfarçável de Mário de Andrade, por exemplo, é um fato real, que precisa ser bem interpretado. Mário é um valor. Tristão de Athayde, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Manoel Bandeira, Ribeiro Couto, Guilherme e Martins de Almeida (tão diferentes!) são outros tantos valores.

– É o Modernismo um movimento nacionalista?

Não somos nacionalistas. Apenas brasileiros, porque nascemos no Brasil. Acaso geográfico não é motivo de ‘porque nos ufanos’ ingênuos e ironizáveis. Mas é motivo forte de interesse prático pela terra que Deus nos deu e que os estrangeiros podem tomar conta dela, se nós facilitarmos muito.

– Qual é a posição dos modernistas em relação ao estrangeiro?

Indiferença por todas as Europas. As Europas eruditas e compenetradas que se fomentem!

– Há então um desejo de absoluta libertação?

Nenhum desejo absoluto de liberdade, como já faz sentir Tristão de Athayde, mas o domínio do nosso instinto tropical, pelo cultivo amoroso de nossa inteligência universal.

– Mais alguma observação?

Paro aqui para não discutir um movimento de ideias que, já disse, ainda não deu todos os frutos, nem se manifestou com a mesma intensidade em todos os campos da atividade nacional, mas que vem trabalhando profundamente os espíritos. Vocês esperem só um tiquinho.

(In: Jornal O Paiz, RJ, sábado, 17 de julho de 1926, p.1. Acervo: Cristina Silveira).

 

 

 

 

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