Em Carajás, a Vale já beneficia minério a seco, enquanto em Minas Gerais rejeitos ainda seguem para as barragens

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Carlos Cruz

Após os sucessivos desastres com barragens de rejeitos, que resultaram em crimes ambientais e perdas humanas até então desconhecidos, entra na pauta de debates a necessidade de se levar a termo o descomissionamento (fechamento com as medidas mitigadoras necessárias e urgentes) dessas estruturas.

Isso tanto para as barragens construídas a montante, consideradas menos seguras, como também para as alteadas a jusante. É que, segundo especialistas, nenhuma barragem de rejeitos de minério é 100% segura.

Diante das últimas tragédias, a sociedade reivindica novos parâmetros para a mineração. Populações urbanas e comunidades ribeirinhas não podem ficar à mercê da incúria de mineradores e financistas globais, que se orientam pelo único objetivo de aumentar a produtividade e o lucro crescente à custa de vidas humanas – e da destruição continuada do meio ambiente.

Um novo marco regulatório, diferente do que vem sendo discutido no Congresso Nacional, precisa urgentemente entrar na pauta da sociedade brasileira.

Afinal, é de seu interesse e responsabilidade, uma vez que, como consumidora de bens de capital e de consumo imediato, é também responsável por todas as tragédias humanas e ambientais decorrentes da atividade mineradora.

Para a mineração se tornar minimamente sustentável, é premente definir em lei, por exemplo, entre outros quesitos, como se dará daqui para frente a disposição e o reaproveitamento dos rejeitos provenientes da concentração de minério – e também do material estéril que sai das minas.

Atualmente, em sua maior parte, no complexo minerador de Itabira esses materiais são depositados em barragens, pilhas de estéril e em cavas de minas exauridas.

Tecnologia já é conhecida

Combinação perigosa: rejeitos de minério e água na barragem do Pontal, construída na década de 1970 com alteamento a jusante (Fotos: Carlos e Vale Informar)

Diante dos últimos trágicos acontecimentos, a Vale mesmo não tendo ainda expertise na concentração a seco de minério com baixo teor de ferro, e embora tenha praticamente desativado o seu Centro de Pesquisas Tecnológicas, no KM-14, em Santa Luzia, terá que viabilizar com urgência a aplicação de novas tecnologias para concentrar minério considerados pobres sem utilizar água no beneficiamento.

Para isso, já existem disponíveis pelo menos dois novos métodos. Por um deles, é feita a filtragem e a compactação dos resíduos em forma de pilhas, como já ocorre com o material estéril. Essas pilhas depois são revegetadas com espécies arbóreas nativas, reintegrando-as ao meio ambiente.

Já o segundo método utiliza uma tecnologia chamada de pasta mineral. Promove o adensamento de material muito fino, permitindo também a sua disposição em forma de pilhas, ou nas cavas de minas exauridas, como já ocorre com o material estéril depositado nas Minas do Meio, em Itabira.

A mineradora Valloure já utiliza essa técnica, desde 2015, na mina Pau Branco, em Ouro Preto. A tecnologia é considerada mais segura que a disposição desse material em barragens. Para isso, utiliza um equipamento chamado filtro prensa, que também dispensa a construção de barragens.

Com o filtro prensa, a água contida nos rejeitos é toda subtraída, o que permite o empilhamento a seco dos resíduos drenados. Com isso, a água é reaproveitada, retornando ao processo industrial.

Essa mesma tecnologia de filtragem dos rejeitos vem sendo empregada em plantas de beneficiamento da Usiminas, e pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), na mina Casa de Pedra, em Congonhas.

Só que esse novo modelo de mineração tem custo mais elevado que a disposição de rejeitos em barragens. Mas é o que dará tranquilidade e segurança para a população que convive na vizinhança com grandes minas a céu aberto ao seu redor. É o caso de Itabira, com as suas barragens de rejeitos de minério de ferro maiores do mundo.

Predominância

Em consequência do custo mais elevado, segundo dados do Inventário de Resíduos da Mineração, ano de 2018, divulgado pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), 94,6% dos rejeitos da mineração em Minas Gerais ainda são dispostos em barragens.

De acordo com a mesma fonte, as mineradoras tendo a Vale à frente, produzem anualmente mais de 562 milhões de rejeitos de minério de ferro em Minas Gerais.

Atualmente, apenas 2,8% desses rejeitos são dispostos em pilhas formadas para esse fim, 0,72% em botas fora, e apenas 0,66% em pilhas de estéril. O relatório não especificou como são descartados os 1,22% restante desse material.

Reaproveitamento

Além da disposição adequada de rejeitos, já existem técnicas de reaproveitamento como produto final dos resíduos de minério de ferro dispostos nas barragens. Em Itabira, a Vale já vem extraindo esse material das barragens do Pontal e Rio de Peixe para reprocessar em suas usinas de beneficiamento.

Para a barragem 1 de Córrego do Feijão, que rompeu em Brumadinho, a mineradora obteve licença ambiental para extrair e beneficiar esse material. A licença foi concedida pelo Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) na mesma data em que foi obtida a licença para altear mais uma vez a barragem do Itabiruçu, em Itabira (leia aqui).

Para uma abordagem mais abrangente, aguarde próxima reportagem sobre o reaproveitamento do rejeito das reservas antropogênicas contidas nas barragens. A sílica e a argila separadas do minério podem ser utilizadas na fabricação de telhas, tijolos. E o que ainda sobrar do rejeito de minério pode virar asfalto.

Vale já detém alternativas para dispor rejeitos fora de barragens

Barragem Santana ainda retém rejeitos depositados no passado, mas atualmente serve como reservatório de água

Em resposta a este site Vila de Utopia, a empresa Vale informa que já detém a tecnologia de processamento de minério de ferro a seco. E que, atualmente, cerca de 80% de sua produção no Sistema Norte (Carajás, PA) já utiliza da tecnologia. Essa produção equivale a 60% de suas operações em todo o país.

É esse sistema de processamento a seco que está presente nas plantas de beneficiamento de Serra Leste, em Curionópolis, do Complexo S11D, em Canaã dos Carajás. E também nas usinas 2 e 3, em Parauapebas, que operam 100% de suas plantas com essa tecnologia, sendo que na Usina I, em Parauapebas, esse processamento ainda é parcial.

Sem água

Já em Minas Gerais, diz a nota da mineradora, o processamento a seco foi ampliado de 20%, em 2016, para 32%, em 2018. “Um exemplo é a planta da Instalação de Tratamento de Minério da Mina do Pico, em Itabirito, que foi modificada para 100% de produção a seco.“

Segundo a Vale, a tecnologia de processamento a seco vem sendo por ela empregada desde 2013. Entretanto, só é utilizada para beneficiar minérios com alto teor de ferro.

“O processo a seco está atrelado ao teor do minério de ferro. Quanto mais alto o teor, mais é favorecida a adoção do processamento a seco, sem uso de água. Tecnicamente, a mudança consiste na utilização de peneiras de classificação de alta aceleração”, explica a nota da mineradora.

Ampliação

A Vale informa que está empenhada em ampliar o beneficiamento a seco, devendo atingir um índice de 70% em todo o país assim que o sistema Norte estiver operando por esse processo em sua capacidade máxima.

“Além do processamento a seco, a empresa vem adotando diversas melhorias para ampliar a recuperação metálica nas usinas, reduzindo a quantidade de rejeitos.”

Estuda ainda separar o rejeito fino (lama) do material grosso (areia). Atualmente, ambos são misturados em uma única barragem.

Para isso, busca viabilizar a disposição em pilhas para o rejeito grosso, o que, segundo ela, reduzirá significativamente a necessidade de novas estruturas. Ou seja, de novas barragens.

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1 comentário

  1. Moisés Damião de Souza on

    “Era menino mas me lembro muito bem “. Na década de 1960, talvez em 67 uma dessas pilhas de rejeito a seco desabou sobre uma pequena comunidade no Jirau, não muito distante do nosso saudoso Pé de Pomba, matando umas três pessoas. Pra mim foi a primeira tragédia da Vale em Itabira.

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