Em busca de um tempo não tão perdido do antigomobilismo

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Colecionadores de veículos antigos, verdadeiras relíquias de Itabira e da região, expuseram suas máquinas do tempo nesse domingo (11), na praça Nico Rosa, avenida Daniel Grisolia, no 2º Encontro Anual dos Amigos das Relíquias de Itabira, promovido pelo clube Amigos das Relíquias.

Encontro reuniu colecionadores e fãs do antigomobilismo na praça Nico Rosa (Fotos: Carlos Cruz)

Dodge Coronet 1951

O encontro reuniu mais  de 130 veículos, mas nem todos modelos expostos podem ser considerados “antigos” pela Federação Brasileira dos Veículos Antigos, órgão criado em 1987. Para ser reconhecido como antigo, e adquirir a placa preta que isenta o proprietário do veículo de pagamento de IPVA, é preciso ter no mínimo 30 anos de fabricação e manter pelo menos 80% de originalidade. O registro é feito no Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), após passar por vistoria de empresa credenciada.

Ford Phaeton, 1928: relíquia entre as relíquias

Alguns outros requisitos são também imprescindíveis. Se o interior do veículo foi adaptado e o motor não é original, por exemplo, ele não passa na vistoria, mesmo que mantenha a aparência externa de fábrica. Em consequência, não recebe o certificado de originalidade, necessário para adquirir a placa preta – e usufruir do prazer de possuir um antigo certificado, com as isenções fiscais que isso confere.

Caminhonete Ford V8, 1958

A paixão dos brasileiros por carros antigos vem desde que se iniciou, na década de 1960, a “nacionalização” dos veículos fabricados no país. Já nessa época, foram criados os primeiros clubes de automóveis antigos – com filiados proprietários de relíquias importadas.

Além da isenção de IPVA, a placa preta desobriga o antigo de manter itens que hoje são considerados de segurança obrigatórios – e sem os quais os veículos novos não são licenciados. Ficam desobrigados, por exemplo, de possuir pisca-pisca de alerta, além de cinto de segurança de três pontos. Afinal, não são veículos de viagem, mas para flâneurar pela cidade em baixa velocidade.

Segurança

Jeep Willys 1951, quatro cilindros

A segurança no trânsito foi tema de campanha promovida durante o encontro, em parceria com a Transita. Na ocasião, os organizadores homenagearam a memória do ciclista Tiago Couto Bicalho, morto aos 37 anos em um acidente com uma caminhonete, numa manhã de domingo (15/10), em frente a um radar, no bairro Chapada.

O apelo é para que o motorista, esteja ele pilotando uma relíquia ou um potente veículo, transite sempre com prudência e segurança, respeitando os demais motoristas, pedestres e ciclistas. Para isso, o veículo maior deve sempre se manter a uma distância segura do menor – e todos devem respeitar e priorizar o pedestre.

É o que faz o mecânico Rodrigo Renan, feliz proprietário de um Ford Landau 1979, oito cilindros. “Só ando devagar, apreciando a paisagem e as pessoas”, diz ele, até porque se acelerar muito o bolso reclama. É que o Landau faz quatro quilômetros por litro na cidade e seis na estrada, isso se pisar de leve no acelerador.

Rodrigo Renan com seu Ford Landau: relíquia pertenceu ao ex-governador Newton Cardoso

Rodrigo adquiriu a sua relíquia há dois anos do ex-governador Newton Cardoso (1987-91). “Entreguei pessoalmente a ele um cheque de R$ 30 mil”, conta, assegurando que o valor foi integralmente declarado ao imposto de renda.

A sua relíquia ainda não possui placa preta, providência que irá tomar não só para atestar a condição de relíquia de seu veículo, mas também para gozar das benesses que o atributo confere. “O meu Landau é 100% original”, assegura.

Adirney Jabour é fã de antigomobilismo: Dodge Charger RT, 1974

Outro fã dessas máquinas do tempo é o proprietário de lava jato Adirney Jabour, que no encontro não parava de admirar principalmente os Mavericks, Dodges e Opalas. “Vem à mente a lembrança dos ‘pegas’ que eu assistia nos anos 1970 no entorno do Mineirão, em Belo Horizonte”, recorda, em busca de um tempo não tão perdido.

“Só não acho legal fazer ‘pega’ nas rodovias. A minha vida e a dos outros que por ela trafegam devem ser respeitadas e preservadas a todo custo.”

Polêmica

O comerciante Régio Bicalho, colecionador de 25 relíquias em Bom Jesus do Amparo, acha que, para valorizar e tornar o encontro de antigos em Itabira uma referência em Minas Gerais, é preciso observar os critérios técnicos para classificar o que distingue uma relíquia de uma “lata velha”.

Paulo, Régio e Anselmo: admirador e colecionadores de relíquias automobilísticas

Segundo ele, sem isso, o encontro perde credibilidade – e muitos proprietários deixam de vir com os seus veículos que mantém a originalidade de fábrica.

“Vi muitas relíquias bem conservadas dos anos 1940/50, o que comprova o zelo de seus proprietários. Mas vi também veículos velhos que não deviam estar aqui expostos”, criticou. Bicalho expôs no encontro de Itabira uma Rural, um Fusca e uma Brasília, todos com certificados de antigos.

Com ele concorda o também comerciante Paulo Roberto da Mata, vice-presidente do clube Amigos das Relíquias de Itabira, proprietário de um Ford Maverick, 1977, quatro cilindros.

“Tenho de concordar que devemos fazer essa seleção, excluindo da mostra os veículos que não conservam a originalidade. Se isso não ocorrer, devemos até criar um outro clube de antigomobilismo com as características originais de fábrica.” O seu Ford Maverick, por exemplo, foi reconhecido como antigo por conservar 92% de originalidade, conta.

Kleidson Oliver, presidente do clube Amigos das Relíquias de Itabira

O presidente do clube, Kleidson Oliver, o Kleidinho, também concorda. Porém, ele acha difícil excluir os proprietários de veículos com mais de 30 anos de fabricação, mas que não dispõem de 80% de originalidade.

Segundo ele, o clube é de fãs do antigomobilismo – e já são mais de 200 filiados. “Ao participar dos encontros, esse proprietário é estimulado a buscar a originalidade de seu veículo, é um incentivo para que isso ocorra”, defende.

“O carro pode não ser uma relíquia pelos critérios técnicos, mas é para o proprietário. Por isso, respeitamos. Só exigimos que tenha um mínimo de 30 anos de fabricação. O que para muitos pode parecer ‘lata velha’, para o dono é uma relíquia e devemos respeitar”, professa.

 

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