Elza Soares: a voz do samba, sim senhor!

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Lenin Novaes*

“Se acaso você chegasse/No meu chatô e encontrasse/Aquela mulher/Que você gostou/Será que tinha coragem/De trocar a nossa amizade/Por ela que já lhe abandonou/Eu falo porque essa Dona/Já mora no meu barraco à beira de um regato/ E um bosque em flor/De dia me lava a roupa/De noite me beija a boca/E assim nós vamos vivendo de amor”.

“Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins – primeira música que Elza Soares gravou, em 1959, em compacto simples, e que deu título ao primeiro LP dela, em 1960 -, tocava tanto, mais tanto nas emissoras de rádio que, amigos da Vila de Utopia, quem tem mais de 6.0 de idade tem a música na ponta da língua. A voz rouca, ritmo sincopado da cantora estreante, se ouvia dia e noite, na madrugada também. Nascia aí, então, a voz do samba, que impera até os dias de hoje. Elza Soares é a voz do samba, sim senhor!

Mulher do fim do mundo tem elogios internacionais e Elza Soares é capa Rolling Stone (Fotos: acervo Lenin Novaes)

Mulher do fim do mundo, CD lançado em outubro de 2015, próximo do 40º disco da carreira artística, ainda dá pano pra manga. De uma parte, mulheres rotulam o produto de machista, já que o CD não seria feminista, pois na produção trabalharam homens machistas. A chiadeira supõe que a cantora foi usada e não possuía consciência da potência do álbum, De outra parte, mulheres defendem que a música “Maria da Vila Matilde” pode ser meditada como hino na luta feminista, sob o argumento de que “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, com a cantora estimulando vítimas a denunciar seus agressores.

De concreto Mulher do fim do mundo é muito elogiado, inclusive além dos limites do país, com a revista Rolling Stone exibindo Elza Soares em capa. Luiz Fernando Vianna, na Folha de S. Paulo, enfatizou que Elza sempre renasce das cinzas, dando destaque para canções como “Luz Vermelha”, que mostra o “apocalipse recortado em cenas de periferia, tiroteio, ruas esvaziadas”, e “Maria da Vila Matilde”, que diz ser “a canção do fim”, ao retratar a violência doméstica. O jornal britânico The Guardian deu cinco estrelas ao projeto e afirmou que era o “álbum brasileiro do ano”. O The New York Times elegeu o álbum como um dos dez melhores do ano, numa lista que inclui nomes como Beyoncé e David Bowie. A revista independente espanhola Mondosonoro também elegeu o álbum como um dos melhores do ano.

Na rádio, começo

Foi na rádio que a carreira de Elza Soares decolou para um voo sem escalas, às vezes plainando em céu de brigadeiro ou atravessando nuvens turvas, em meio a tempestades, com fortes turbulências. O combustível do voo artístico tem sido a invejável, incontestável e inesgotável qualidade vocal. O troféu ganho no programa Calouros em desfile, de Ary Barroso, cantando “Lama”, de Paulo Marques e Alice Chaves, inaugurou uma galeria de incontáveis premiações, a partir de 1953.

Nos seus 12 anos de idade, Elza Soares, nascida em 23 de junho de 1937, já era mãe, e, aos 21, viúva. Filhos pra criar, morando na favela de Água Santa, com a mãe Rosária, batia roupa no tanque, engomava e passava, em seguida, trouxa na cabeça, encarava trem ou bonde lotado para fazer entrega às madames na Zona Sul do Rio. Foi, ainda, operária em fábrica de sabão.

Mas, a aspiração era cantar. Fazia isso quando, no percurso até a Pedreira da Harmonia – lá trabalhava o pai Avelino Gomes – , levava bule de café e pão com manteiga para o lanche. Numa dessas tardes rolou, entre arbustos, entrelaçada com Lourdes Antonio Soares, ajudante de caminhão, apelidado Camaleão. Elza se reergueu, com manchas de sangue pelo corpo. Da aventura saiu menina-mãe e o pai obrigou Camaleão a casar.

Por menos de um ano foi crooner da Orquestra Garan, do maestro Joaquim Naegli. Em 1958 foi para a Argentina, cantando na peça Jou-jou frou-frou, de Mercedes Batista. Na volta, após oito meses, trabalhou na Rádio Mauá. Moreira da Silva, o Kid Morengueira, a ouviu e intermediou sua transferência para a Rádio Tupi. Crooner na boate Texas, em Copacabana, Sílvia Teles e Aloísio de Oliveira viabilizaram o primeiro disco dela, Se acaso você chegasse.

Louis Armstrong, da célebre What a wonderful world, se encantou com Elza Soares

Atuou no show Primeiro Festival Nacional de Bossa-Nova, no Teatro Record, em São Paulo; e, ainda, na boate Oásis. Gravou o segundo disco, A bossa negra, em 1961. Em 1962, como artista enviada à Copa do Mundo representando o Brasil, no Chile, cantou ao lado de Louis Armstrong, artista representante dos Estados Unidos da América. Lá conheceu o jogador Mané Garrincha. Com ele viveu “a maior paixão” de sua vida. Relação que gerou o filho Garrinchinha, morto aos 9 anos de idade num acidente de carro, em 1986.

O disco Sambossa, 1963, tem no repertório “Rosa morena”, de Dorival Caymmi, “A banca do destino”, de Billy Blanco, e “Só danço samba”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre outras. Na roda do samba, disco posterior, tem “Pressentimento”, de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho e “Princesa Isabel”, de Sérgio Ricardo. Depois vieram os discos O neguinho e a senhorita, Verão do meu Rio, O samba brasileiro e Um show de beleza, que tem “mulata assanhada”, de Ataulfo Alves.

Embaixatriz do samba

Elza Soares foi outorgada com o diploma de Embaixatriz do samba, em 1967, pelo então governador Negrão de Lima, iniciativa do Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som – MIS. Morou na Itália e se apresentou no Teatro Sistina, em Roma. No retorno ao Brasil, em 1972, estreou o show Elza em dia de graça. Cantou no Teatro Opinião e também no Canecão, no espetáculo Brasil export show. Fez temporada no navio italiano Eugenio C. e, também, na boate Number one.

Elza, Miltinho & samba é título do disco que gravou com o saudoso Miltinho, fazendo, em seguida, o show Viva Elza, em São Paulo que seguiu por várias cidades. No início da década de 80 trabalhou na boate paulista Madame Satã, no show A vingança será maligna. Cantou “Língua”, com Caetano Veloso, no disco Velô, do compositor baiano que, junto com Lobão, produziu o disco Somos todos iguais, que Elza lançou em 1985.

Em 1988 gravou o disco Voltei. Participou em discos de diversos artistas e, em 1997, lançou o disco Trajetória, tendo participação especial de Zeca Pagodinho, que reúne músicas de Chico Buarque de Holanda, Noca da Portela, Guinga e Aldir Blanc, João Roberto Kelly, Arlindo Cruz e Nei Lopes, entre outros. O disco lhe rendeu o Prêmio Sharp de Melhor Cantora de Samba.

Participou do show Desde que o samba é samba, no Royal Albert Hall, em Londres, na Inglaterra, ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Virginia Rodrigues, Gal Costa e Chico Buarque de Holanda. No mesmo ano, 1999, lançou o disco Carioca da gema. No ano 2000, estreou o musical Crioula, de Stella Miranda, tendo as músicas “Dura na queda”, “Poeira”, “Não nasci pra cinderela” e “Meninos e meninas”.

Os atores Zezé Polessa, Elisa Lucinda, Kacau Gomes, Sheila Mattos, Tuca Andrade, além de outros seis músicos, participaram do espetáculo sobre a vida e a obra da cantora. No Teatro Glória estreou o show Dura na queda, com a Banda AfroReaggae e direção de José Miguel Wisnik e Gringo Cardia. No disco Do cóccix até o pescoço canta “Hoje é dia de festa”, de Jorge Benjor, “Eu vou ficar aqui”, de Arnaldo Antunes, “Dura na queda”, de Chico Buarque de Holanda, “A carne”, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Cappellette, “Etnocopop”, de Carlinhos Brown, “Haiti”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, “Bambino”, choro de Ernesto Nazareth, letrado por José Miguel Wisnik, “Flores horizontais”, poema de Oswaldo de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik e, ainda, sambas de sua autoria, “Samba crioula” e “A cigarra”, esta em parceria com a atriz Letícia Sabatela.

No final de 2003 lançou o disco Vivo feliz, tendo no repertório o clássico “Opinião”, de Zé Kéti. Ano seguinte ganhou o Prêmio Tim, na categoria melhor cantora de pop-rock. Atuou no bloco do documentário Brasileirinho, do cineasta finlandês Mika Kaurismaki. Em 2007 gravou o DVD Beba-me, em show no Sesc da Vila Mariana, em São Paulo, e fez apresentações na Itália e no Chile. Lançou o disco Arrepios, em parceria com o violonista e compositor João de Aquino. Em 2010 relançou o disco Pilão+Raça=Elza.

Elza Soares, a voz do samba, tem biografia Cantando para não enlouquecer, de José Louzeiro e coautoria de Lenin Novaes

No ano de 2012 fez curta temporada do show Deixa a nega gingar, no Teatro Rival. No ano seguinte participou do projeto Inusitado, criado e dirigido por André Midani, no qual explorou os recursos de sua voz. Em 2014, com o título de Fogo e paixão, apresentou-se na Academia Brasileira de Letras, no projeto MPB na ABL, no qual falou sobre sua vida e a obra, cantando “Insensatez”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, “O um guri”, de Chico Buarque de Holanda, “Malandro”, de Jorge Aragão e Jotabê, “Esses moços”, “Felicidade” e “Nunca”, de Lupicínio Rodrigues.

Em 2015 lançou o disco A mulher do fim do mundo, produzido por Guilherme Kastrup, com direção de Rômulo Fróes e Celso Sim. Foi considerado um dos melhores CDs daquele ano. E, em 2016, lançou o DVD Elza canta e chora Lupi, idealizado por Glauber Amaral e direção de Rene Goya, gravado do show no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Do CD A mulher do fim do mundo, entre outras, está “Pra fuder”, de Kiko Dinucci:

“Olho pro meu corpo, sinto a lava escorrer/Vejo o próprio fogo, não há força pra deter/Me derreto tonta, toda pele vai arder/O meu peito em chamas solta a fera pra correr/Olho pro meu corpo, sinto a lava escorrer/Vejo o próprio fogo, não há força pra deter/Me derreto tonta, toda pele vai arder/O meu peito em chamas solta a fera pra correr/Unhas cravadas em transe, latejo/Roupas jogadas no chão/Pernas abertas, te prendo num beijo/Sufoco a sofreguidão/Meu temporão me transforma em loba/Presa, você vai gemer/Feito cordeiro entregue pra morte/Seu sussurrar a pedir/Pra fuder, pra fuder, pra fuder, pra fuder”.

 

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É coautor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta e jornalista Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS.

 

 

 

 

 

 

 

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