Eles são “malucos” e livres para pôr os pés na estrada

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E estão sempre por Itabira, de passagem, como é o modo de vida que escolheram para conhecer o mundo e levar a vida leve e solta, longe do conforto de um domicílio fixo.

Para muitos eles são hippies. Mas eles não concordam. Não são hippies. São “malucos de estrada”, ou “malucos artistas”, ou ainda “malucos artesãos”, designações que consideram mais abrasileiradas.

Mas admitem que conservam muitas inspirações comuns os hippies, como a vida nômade desde os primeiros a botarem os pés nas estradas nos anos 1960/70, principalmente depois do histórico festival de Woodstock.

Inspiração vem do movimento hippie dos anos 60/70 nos Estados Unidos. No Brasil, eles preferem ser chamados simplesmente “malucos de estrada” (Fotos: Carlos Cruz e Google)

Como os hippies norte-americanos, eles também não fincam raiz, não viram árvore em lugar algum.

Para eles o mundo é um moinho e adoram viajar, do jeito que dá. O que importa é pôr os pés na estrada, de preferência na boleia de um caminhão. Ou de ônibus, ou de trem.

Em Itabira, geralmente ficam na praça Acrísio Alvarenga, muitas vezes acampados até que os fiscais da Prefeitura os mandam sair – e seguem para outras paragens.

Quando o tempo está quente, dormem por lá, na grama, mesmo os que não têm barracas.

Mas, agora, com o frio, vão para os hotéis e pensões da redondeza, onde hospedam e encontram banho quente, com pernoites a preços acessíveis.

Rumo à estação Nolasco

Símbolo também foi adotado

Na praça vendem os seus artesanatos. Juntam uma graninha e pegam a estrada de ferro Vitória a Minas até o litoral, passando pela estação Pedro Nolasco. Em Vitória ficam por um tempo, mas não param.

Tanto podem seguir para o Nordeste, como pegam a rota Sul – sempre pela 101. É por onde passam muitos caminhoneiros que costumam dar carona, desde que previamente acertado nos postos de abastecimentos.

Os “malucos de estrada” geralmente viajam juntos, que é para proteger uns aos outros. Além do artesanato que vendem, muitos são músicos, tocam nas praças, atraem públicos que os ouvem, aplaudem, às vezes deixam uns trocados.

Outros são malabaristas ou “malabares”. Mas sempre “malucos de estrada” por seguirem sem destino, sem ter pressa de chegar e de nem ter ponto de paragem para ficar.

Não gostam do “sistema” que corrompe. Preferem o ser ao ter, ainda que para isso tenham que abrir mão do bem-estar moderno. Não querem saber das regras do sistema. Muito menos das amarras.

Eles não têm cartões de crédito, mas a maioria não abre mão do celular, que é para não se desconectarem do mundo. Vivem em paz consigo e com os outros. E seguem seus caminhos, sem destino.

Malabarista do sinal fechado

Felipe Ignácio Balboa é chileno e “malabares”: arte no sinal fechado, na avenida Carlos Drummond de Andrade

Já há mais de um mês em Itabira, o chileno Felipe Ignácio Balboa, 26 anos, passou por dificuldades na cidade, quando chegou, já no final da quarentena, com o fechamento por 40 dias das atividades não essenciais.

“Não se via pessoas nas ruas. Agora a cidade tá muito movimentada”, diz ele, que estava sem máscara fazendo as suas proezas com a bola e as claves lançadas ao ar. “Eu trabalho na rua fazendo malabarismo, é a minha profissão. É só ficar distante das pessoas, não chegar perto, que me protejo e aos outros também.”

Malabarismo vem de Malabar, cidade da costa ocidental da Índia, onde surgiram os jogos malabares. Consistem em lançar objetos para o ar, uns após os outros, com extraordinária habilidade e agilidade, sem deixar cair.

Arte exige treino e destreza que o tempo urge e o sinal vai abrir

Portanto, Felipe Balboa é “maluco malabares”, admite, arte que aprendeu há 11 anos com muito treino e dedicação.

Como outros “malucos”, vive com os pés na estrada, nas praças e avenidas divulgando e “vendendo” a sua arte nos sinais fechados.

Nascimento

Ele conta que pretende ficar por Itabira por mais algum tempo. Não que aqui esteja bamburrando com os seus malabares, recebendo polpudas gorjetas para a sua arte no sinal fechado. “O povo anda muito apressado quando abre o sinal. Mas dá para sobreviver”, resigna-se.

Mas se não é pela generosidade do itabirano, que geralmente olha de “menesgueira” para quem vem de fora, ainda mais para os “adventícios com cara de hippie”, é por uma nobre e fraterna causa.

Felipe Balboa vai ficar para fazer companhia à amiga e companheira de estrada que está grávida. A amiga descobriu que na terra de Drummond ela pode ter o seu bebê com segurança no Hospital Municipal Carlos Chagas, sem ter de apresentar atestado de residência. Afinal, no hospital o atendimento é universal, 100% SUS.

Assim o “maluco malabares” vai acompanhar o nascimento de mais um itabirano para ser “du mond”, quiçá também gauche na vida, como o Anjo Torto. Que sigam os seus destinos em paz e livres, sem “medo de voar”, com os pés na estrada.

 

 

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