Elaborados afrescos do apocalipse nuclear projetados em slides

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Por João Sabali*
Durante todo um dia carregado, silente e soturno no outono daquele ano, quando as nuvens pairavam opressivamente baixas no firmamento, eu passava sozinho, a cavalo, por um trato de terra singularmente desalentador; e em pouco tempo me vi, ao cair das sombras do anoitecer, diante da melancólica casa de Usher.

 – Edgar Allan Poe

Contam que a casa era amaldiçoada. Por ali passam muitos rios e agora Ágata, a Polonesa, viu um lagarto. O gramado está num verde brilhante e Ágata está de vestido polonês e o lagarto que ela viu está parado, olhando pra Ágata com seus olhos negros e estáticos. Sua cauda é verde e amarela e sua pose é imperial, com o pescoço alongado pra frente e uma expressão séria mas tranquila, a mesma expressão que a mãe de Ágata tinha antes de morrer. A mesma expressão que Ágata imita todos os dias em frente ao espelho do banheiro do segundo andar da casa. Por mais que tentasse, Ágata sabia que de alguma forma sua ansiedade como que escapava de seus globos oculares e narinas, traindo a tranquilidade de sua expressão. Era uma serenidade fingida e ela sabia que todos perceberiam isso quando a vissem. “Olha lá quem vem vindo, Ágata e seu rosto de traços inseguros”, é isso que todos diriam ou pelo menos pensariam assim que ela saísse de casa, quando saísse de casa.  Ágata deitada no gramado, esparramada com seu vestido de pano branco, encarando o lagarto. Hoje ela percebeu que dentro da seriedade do lagarto há um sorriso, um sorriso contido mas que sem dúvidas emana uma paz de espírito e até uma sabedoria típicas do reino animal e suas silenciosas maneiras de se expressar. Notar o sorriso do lagarto só agora a irritou levemente, fazendo com que até soltasse um palavrãozinho: “caralho”, ela sussurrou tão baixo que só ela e o lagarto ouviram. Uma onça parda gorda com leve problemas cardíacos e duas cáries atravessou a mata e se deitou ao lado de Ágata. Sem perceber a presença do felino gordo, Ágata começou a reunir pensamentos e memórias sobre sua mãe. Ela tinha morrido cinco meses antes em um acidente doméstico, no mesmo banheiro do segundo andar que Ágata vinha usando para ensaiar a expressão séria e tranquila. Foi um acidente doméstico, mas a verdade é que Catarinazinha, sua mãe, estava prestes a morrer fazia algum tempo e o acidente doméstico que lhe traumatizou o crânio e coagulou o cérebro meio que apenas acelerou um processo que vinha se arrastando e que terminaria da mesma forma: sua mãe em um quarto mal iluminado sendo velada por Ágata e mais ninguém, apenas Ágata, sua sombra e Natasha, a onça parda gorda, que ficou deitada no gramado do lado de fora da casa durante toda a noite em que o velório aconteceu. Ágata e sua mãe tinham uma relação mais ou menos normal, quer dizer: sua mãe a amava incondicionalmente e ela sentia uma culpa que nunca soube explicar direito. Culpa de não de se sentir capaz de devolver à mãe todo esse amor. Culpa por saber que por mais sincero e repetitivo que fossem os “mãe, muito obrigado por tudo”, eles nunca seriam o suficiente. Culpa de dever sua existência à uma determinada pessoa, essas coisas. Uma sensação de insuficiência, de impotência perene. Mas essa culpa não era declarada e, se interferia na relação das duas, sempre o fez de maneira velada. Ágata não queria ter filhos. Por boa parte da adolescência e um relativo trecho de sua vida adulta ela queria sim ter filhos até o dia em que ela e Catarininha jantavam sozinhas na mesa do primeiro andar da casa. Essa noite estava escura, sem estrelas nem lua, e nesse momento Natasha bebia um pouco de um dos rios que cortavam a mata em frente à casa. Sua mãe pediu que ela trocasse de roupas, que colocasse um vestido polonês de pano branco para que pudessem jantar. As duas discutiram e essa noite mudou a cabeça de Ágata sobre a ideia de ter filhos, ideia que de repente lhe pareceu nojenta.  Agora ela achava que filhos não eram muito diferentes de tênis novos, de apartamentos com vista pro mar, de computadores ultravelozes. Sinais de status. Ter um filho é como ir até uma loja e comprar uma pequena cópia sua com todo um futuro misterioso pela frente. Esse mistério excita. O amor incondicional que Ágata recebia de sua mãe era genuíno e bonito, Ágata sabia disso, mas era também uma bela forma de egoísmo. Amar aos próprios filhos é como amar a si mesmo, com a diferença que esse amor não é visto como egoísta e filho da puta e arrogante, porque a princípio você está amando o outro. Mas não se trata do outro. Se trata de uma pequena cópia sua com um futuro misterioso pela frente e que você pode controlar por um interessante período de tempo. Não é a toa que as fotos de pais e filhos nas redes sociais costumam ser legendadas com frases que começam com “meu príncipe”, “minha lindinha”, “nossos pequenos anjos malvados que nos queimarão vivos em um futuro assustadoramente mais breve do que a literatura pedagógica poderia prever”. Somos posses, somos caros de se manter, somos extremamente frágeis e devemos nos comportar de acordo com as expectativas de nossos donos. “Por qual motivo?”, Ágata se perguntava diante do espelho do segundo andar na noite da desavença e nas noites que se seguiram, “Por qual motivo nós sentimos essa conexão tão excepcionalmente forte com nossos parentes próximos? Isso que chamam de amor, será que existe porque por algum acaso nossos parentes são as pessoas mais magníficas do mundo?” Não, Ágata respondia. É porque nossos parentes são pedaços de nós mesmos. Nosso clã. Esse afeto desenfreado nada mais é que instinto de sobrevivência. Chorar no velório do tio é sintoma do medo que o sobrinho tem de morrer. Um a menos para o nosso clã, turma. Agora vamos seguir em frente. O medo da morte e o medo da solidão no final são bem parecidos ou tem motivações bem parecidas: o medo de morrer sem filhos é o medo do verdadeiro fim da linha. Acabou o clã. Evidente que se Ágata dissesse tudo isso, com essas palavras, para o policial que investigou a morte de sua mãe, ela provavelmente não estaria em casa agora. Mas Ágata não respondeu nenhuma pergunta com essa ênfase toda, exceto quando o policial perguntou se ela só tinha uma peça de roupa, já que sempre que eles se encontravam ela estava com o mesmo vestido polonês de pano branco. Por outro lado – e foi esse lado que Ágata externou ao policial – essa história toda de família gera um tipo de sentimento único, um amor incondicional bonito de se ver, algo infinito e eterno e genuíno apesar de tudo.

Enquanto acaricia a barriga de Natasha e contempla o olhar do lagarto, os rios murmurando solenemente ao fundo, Ágata se deixa levar pelas suas memórias da infância. Sua mãe era zoóloga. Para entreter a filha, costumava criar jogos em que um animal era citado e Ágata devia responder qual a melhor, na verdade qual a única, maneira de fugir do predador raivoso. Se você for surpreendido por um jacaré, deve sair correndo em zigue-zague, por exemplo, e isso Ágata se lembra até hoje. Sua mãe também contava fábulas para Ágata dormir. Mas nessas fábulas a raposinha não falava e os objetos inanimados não faziam coreografias animadas, Catarininha contava como os animais de verdade viviam de verdade. Ela dizia que todas as espécies de animais se organizam socialmente através de uma hierarquia muito rígida. As hienas, por exemplo, vivem em uma sociedade matriarcal. Em primeiro lugar, as mães, em segundo os filhotes e em terceiro, por último na escala de importância, os machos adultos, que não passam de párias. As hienas, ao contrário da maioria dos predadores, comem suas presas com elas ainda vivas. Os leões, por exemplo, fazem questão de que sua vítima esteja morta antes de ser devorada, garantindo assim uma morte um pouco menos traumática, mas as hienas não: até os ossos são digeridos; fator responsável pela conhecida cor branca de suas fezes. O couro também costuma ser engolido, hábito extremamente incomum na vida selvagem.  Já os lobos possuem outro tipo de hierarquia. O elemento mais poderoso da alcateia é o casal, o macho alfa e sua fêmea alfa. Só eles podem se reproduzir e é dever do restante dos lobos ajudar na caça para que os filhotes do casal alfa sejam alimentados. Além da caça em si, a principal forma de colaboração dos lobos plebeus é regurgitar o animal caçado e digerido para que os filhotes reais se alimentem. Um dos bichinhos que os lobos mais gostam de caçar, comer e vomitar é o lagarto de chifre, espécie encontrada nos desertos da América do Norte e da América Central. Apesar de ser coalhado de espinhos e possuir uma coroa de chifres, esse lagarto não é lá muito grande e tem de se virar pra fugir dos predadores. Além das técnicas de camuflagem, um recurso notável mas recorrente, esse lagarto possui uma defesa que sempre fascinou Ágata – se é que a palavra fascínio de fato signifique a mistura do medo com a admiração, como o narrador da história supõe – o lagarto aumenta sua pressão arterial, concentra o fluxo de sangue na cabeça, rompe minúsculos vasos em torno das pálpebras e  dispara um jato de sangue no inimigo. E o fato que esse jato pode chegar a até um metro de distância nunca saiu da cabeça de Ágata. Ágata também nunca esqueceu das histórias que sua mãe contava sobre o tio Antoni, que morava em uma fazenda cheia de ratazanas. Tio Antoni não gostava muita da presença delas e resolveu construir uma armadilha de madeira para capturar as ratazanas. Instalou a armadilha ao lado da varanda que dava para um ao que tudo indica infinito campo verde e montanhoso. Tia Anninka, que era a única companhia de Tio Antoni na isolada fazenda, também não gostava das ratazanas, mas considerava ainda mais insuportável a ideia de que seu marido as matasse na base da porrada. “Muito sangue, Antoni”, ela dizia, “muito sangue”, ela repetia. Com as insistentes negativas da Tia Anninka, Tio Antoni elaborou uma alternativa: as ratazanas capturadas seriam colocadas em um saco de lixo e o botijão de gás da cozinha se encarregaria de dar cabo às suas vidas miseráveis dentro do invólucro de plástico. “Sem sangue, Anni”, ele dizia, “sem sangue”, ele repetia. “Muito barulho, Antoni”, ela respondia. Tia Anninka tinha medo da reação das ratazanas e da barulheira que invadiria o silêncio ensolarado da fazenda quando o bicho começasse a se contorcer dentro do saco. Tio Antoni discordou e se indignou em silêncio, como era de seu feitio, e, como também era de seu feitio, não se resignou e continuou em busca de alternativas que saciassem ao mesmo tempo seu impulso de matar e as aflições da esposa acerca da finitude da  vida e os possíveis métodos de acelerá-la. A estratégia agora era a seguinte: as ratazanas capturadas eram levadas pela estradinha de terra que liga a fazenda à cidade até algum ponto longínquo e eram desovadas de volta no meio do mato. Antes de liberar os animais, porém, eles seriam marcados por uma determinada cor de tinta. Assim Tio Antoni saberia quais ratazanas se deram ao trabalho de voltar à fazenda, tomando o cuidado inclusive de pintar cada animal com uma cor diferente. Método de Identificação de Reincidência. O MIR chegou a ser colocado em prática e parecia ser bastante adequado, sem sangue, sem barulho e a princípio até sem morte. O problema é que alguns reincidentes começaram a aparecer na fazenda. Com um pedaço do rabo marcado de vermelho ou de azul, lá estavam elas de novo farejando tudo do jeito mais asqueroso possível. As reincidentes eram capturadas novamente e levadas para um ponto ainda mais distante do que haviam sido deixadas na primeira vez. Assim que elas pisavam na estradinha de terra, desnorteadas, correndo pra lá e pra cá, cegas pelo sol repentino, Tio Antoni pegava sua espingarda de chumbo e disparava contra o animal. Uma punição pela reincidência, nada mais. Acontece que ratazanas aparentemente podem reincidir mais de uma vez. Quando isso acontecia, o bicho era levado pela terceira vez para a estradinha e lá seu destino era mais incerto. Ao liberar a ratazana na estrada, ele assistia ela correr alguns metros antes de engatilhar sua pistola calibre 38 e começar a disparar. Uma espécie de tiro ao alvo e além do mais Tia Anninka a essa hora estava bordando na cadeira de balanço da varanda, longe demais para se preocupar com o sangue e o barulho das ratazaninhas correndo em zigue-zague pela estradinha de terra.

“O fato é que a elegância dos animais reside no silêncio, no fato deles prescindirem de palavras. Por isso – e pela sua assombrosa variedade e qualidade de recursos para se manterem vivos, recursos que não dependem de tecnologia alguma a não ser a do seu próprio corpo – que eu me encanto tanto pelos animais. O sentimento, na verdade, é mais do que encanto: fascínio é a palavra que mais se aproxima do que sinto. Por esses dois motivos é que eu considero o ser humano a espécie menos evoluída de todo o planeta: nós precisamos de palavras e de tanques de guerra, de linguagem e de refrigeradores, de letras e de supermercados, de interpretações semânticas e de embalagens à vácuo. Suplicamos pela sobrevivência, imploramos diariamente por ela, somos frágeis a esse ponto. Nada impede que nesse exato momento alguém esteja vendo a cultura humana em uma placa de Petri. Uma cultura que se espalha com a mesma lógica da célula cancerígena – crescimento infinito em um organismo finito. Através do microscópio esse alguém percebe que há alguns anos essa cultura encontrou um sistema quentinho o suficiente para que a reprodução e o desenvolvimento fossem possíveis. E nós vamos a praia e nós mergulhamos no mar e nós jogamos futebol na areia e nós damos risada e nós nos embriagamos e nós achamos que somos mesmo muito importantes, mas a relevância da nossa cultura pro universo é a mesma da cultura de fungos que criou o chulé de qualquer vagabundo. E nada impede que um microscópio ajustado em direção a esse chulé revele pessoas de sunga e latinhas de cerveja na mão chutando bolas na praia, se divertindo e se deixando levar pela ideia bastante concreta da morte.” Esse trecho da última carta escrita por sua mãe ficava ao lado do espelho do banheiro de Ágata. De tanto reler, ela já tinha decorado cada palavra. Era seu mantra, era sua prece e agora Natasha engole o lagarto enquanto parte em slow motion pra cima de Ágata.

*João Sabali é jornalista e escritor de São Paulo (SP).

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