Eduardo Lourenço: uma dia menos solarengo da língua portuguesa

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Veladimir Romano*

No processo transformador da vida, a única ideia fiel é a de um dia, no brilhante despertar matinal, escutar o idioma que melhor nos cala na sinceridade da alma, perdendo nesse frenesi diário qualquer íntima relação daquilo que faz mais sentido: vislumbrar esse prazer onde podemos sentir e acompanhar transformações emocionantes em diferentes procuras, raciocina-nos contextos.

Nada por instantes onde qualquer impressão mística, desnecessária, imprecisa, até misteriosa por causa das imprecisões onde o auto-esquecimento possa ser conteúdo.

Assim, mortalmente sério, completo, vivendo consigo próprio mas construindo a todos os falantes da língua e demais afoitos apaixonados deste caminho hereditário deixado por quantos já o navegaram, certamente, continuarão agora, mais em espírito, empírica consagração nos exemplos e da obra que fica.

O ano de 2019 já havia sido castigador no desaparecimento físico de nomes determinantes deste nosso mundo feito a quatro continentes; entretanto, a outro lado, chegou o 2020, catastrófico, tem arrasado toda a nossa fragilidade material traduzida ao nível intelectual.

Entrou-se repentinamente no anticonformismo rendidos ao poder cósmico… fica nele o sempre das coisas maiores e menores.

Na prerrogativa das mulheres e dos homens ao longo do tempo, testemunhas do seu valor, paixão pelos demais, a delicadeza do seu trato, generosidade em alta todo o tempo, o brilhante cristal da sua elegância e educação perante outros, o saber escutar e um gosto infinito pelo falar de coisas sérias, profundas, eternas… como alguém um dia disse e ficou: «Ele é um príncipe dialogante, exuberante e sorte a nossa por haver nascido no berço lusitano».

Honra seja feita, um dos órgãos informativos que mais divulgou, oferecendo em várias ocasiões matérias com e sobre Eduardo Lourenço (1923-2020), é o lisboeta Jornal de Letras, mais conhecido como JL, ao longo de quase meio século [em março do próximo 2021, fará cinquenta anos].

O privilégio se transformou em cuidado, dedicação e pedagogia desse jornal em acasalamento perfeito até ao presente bem arquivado, Eduardo Lourenço revive a cada instante onde podemos aos poucos descobrir a personalidade do autor que durante múltiplas décadas se foi desdobrando feito ensaísta, a escritor, como tão profícuo filósofo, crítico literário e professor.

Homem de afazeres profundos porém nascido identificado com sua nobre humildade em lugar tal como ele próprio afirmava: «Nós não existimos, é a nossa relação com os outros que faz a nossa identidade».

Viria ele nascer na pequena e quase espanhola povoação de São Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida na região nortenha da Guarda, terra de bom queijo, vinho marcado a vermelho bem torrado e pão cascudo, manifestam certas doses humanas em permanente prova resistente.

Eduardo Lourenço é aquele personagem a quando da sua emigração para França onde passou depois a maioria do seu tempo ensinando; e, ele reafirma em outro apontamento: «Não sou um grande pensador, o mundo é que pensa».

Deste modo, simples, direto, sem desvirtuar do seu caráter provinciano onde a simplicidade iguala a harmonia do campo. É aqui onde vai refletir sobre o “ser Português”, dos labirintos de uma mentalidade aos tiques, tudo bem estudado, calculado, analisa da formação e conceito, compreensão…

Tudo são tarefas intermináveis de clara intencionalidade e afastamento do definitivo. Razões essenciais do valor da Língua, política salazarista, o conflito ultramarino, a entrada da democracia e o próprio psiquismo falhado em tanto desperdício depois de tantos anos no mercado europeu.

Portugal de tantos mundos, continua seguindo mais na cauda da Europa do que no topo das nações pródigas, sempre preocupou o seu agudo pensamento, a forma esclarecida e frontal da suas sinceras incertezas.

Talvez, tal como ele, galardoado em bem merecidas honrarias, reconhecidamente o tal sujeito carregado de valores motivando outros, tenha descoberto que transmitiu o impossível.

Ele é a evolução exigente numa submissão total aos ditames da inteligência. Frequente observador acentuando princípios, contudo, complicando o processo do imobilismo e mórbido estar da nação Lusitana.

É a dialética com destino interno que um obscurantismo ainda persistente determinando precisões temporais onde este primado persistente fabricado em atraso, sempre preocupou o pensador dentro da dimensão orgânica rejeitando sentidos medíocres desta nação onde nasceu.

Como seria bom agora que Eduardo Lourenço voltará às suas raízes, todos nós fizéssemos o esforço perpetuado em nosso juramento para que a sociedade ficasse escutando gratos conselhos, sábios e objetivos, feitos reforçado transporte linguístico da Língua portuguesa, mas, desta vez, para pensar como exercício oratório em termo de homenagem a quem deu muito sem pedir nada.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-cabo-verdiano.

No destaque, Eduardo Lourenço (1923/2020), professor e filósofo português, prêmio Camões em 1996 (Foto: Paulo Spranger/Global Images)

 

 

 

 

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