É só o começo. O racismo e a imprensa brasileira

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Flavia Lima*
Piauí – 

Numa conversa com um intelectual sobre a presença de negros nos meios de comunicação brasileiros, ouvi a certa altura que, hoje em dia, um jornalista negro entra para uma redação de modo diferente: não precisa mais parecer menos negro, alisando o cabelo, escondendo suas origens, suas preferências culturais. Enquanto ele falava, eu me fazia uma única pergunta: De quantos jornalistas negros estamos falando mesmo?

Os indicadores oficiais apontam que cada vez mais gente se autodeclara preta ou parda na população brasileira, o que significa um maior conforto em se reconhecer como negro. No entanto, em meus vinte anos trabalhando em algumas das principais redações de São Paulo, o número de pessoas negras nunca chegou a preencher os dedos das duas mãos. O racismo, nas raras vezes em que foi abordado, inclusive por mim mesma, só apareceu em conversas com base em experiências cotidianas ocorridas fora e, algumas vezes, dentro da redação.

Por isso, me permiti participar de uma espécie de catarse coletiva, ao menos dentro de uma das bolhas das quais faço parte, no dia 3 de junho, quando a GloboNews levou ao ar um programa em que reuniu não um nem dois, mas seis jornalistas negros ao mesmo tempo: as experientes Flávia Oliveira, Maria Júlia Coutinho, Aline Midlej e Lilian Ribeiro, e os dois decanos Zileide Silva e Heraldo Pereira. Dias antes, George Floyd, um homem negro, fora assassinado por um policial branco em Minneapolis, no estado de Minnesota, deflagrando manifestações antirracistas pelos Estados Unidos e outros países.

A reunião inédita de negros na tela da GloboNews foi uma resposta a um telespectador que acompanhava um debate sobre racismo em que todos os debatedores eram brancos e fez um comentário irônico nas redes sociais.

“Rapaziada… A pauta é racismo”, tuitou. A emissora pediu desculpas e disse que, por razões históricas e estruturais da sociedade, também na TV Globo “os colegas negros ainda não são tantos quanto desejado”. E reuniu os seis jornalistas negros em um programa no dia seguinte.

Editores na gráfica do <i>Chicago Defender</i>, fundado por negros, em foto de 1944: no Brasil, no século XX, a imprensa equiparou meninos negros a “pivetes” e “menores abandonados”

Editores na gráfica do Chicago Defender, fundado por negros, em foto de 1944: no Brasil, no século XX, a imprensa equiparou meninos negros a “pivetes” e “menores abandonados” (Foto: Gordon Coster, acervo The Life Picture, via Getty Images)

O diagnóstico foi preciso, mas o episódio mostra que a imprensa não tem pressa em oferecer respostas. Com a presença dos jornalistas negros, a GloboNews repercutiu os protestos e pretendeu discutir a questão racial. No curso do programa, porém, o debate político foi se deslocando para o território dos depoimentos pessoais, que são importantes, mas não exigem o fundamental: a crítica aprofundada do racismo.

Em um programa tão incomum como aquele, talvez o próprio Roberto Marinho, o fundador da Globo que morreu aos 98 anos em 2003, tivesse sentido o impulso de falar da sua trajetória pessoal. Ele tinha a pele parda, usava pó no rosto e evitava barcos sem capota, conta o jornalista Leonencio Nossa, em O Poder Está no Ar, primeira parte da biografia do empresário.

Marinho foi um dos homens mais poderosos do Brasil. Seus rivais ou desafetos chamavam-no de Africano (alcunha criada por Assis Chateaubriand, outro barão da mídia), de Neguinho (Leonel Brizola, o líder do trabalhismo no país), Crioulo (Manoel Francisco do Nascimento Brito, dono do Jornal do Brasil) e Marinho Quase Negro (Carlos Lacerda, o político mais incendiário do seu tempo).

Chama a atenção que o biógrafo de Marinho tenha escolhido justamente o recorte racial para contar a vida de um dos empresários mais influentes de seu tempo. Em um país que não ousa nomear o seu próprio racismo, cuja imprensa serve como instrumento fundamental de sua reprodução, a abordagem sobressai.

No episódio de junho, a GloboNews, canal de tevê a cabo da Globo, surpreendeu a sua audiência e fez o que muitos grupos de comunicação não conseguiriam nem se quisessem: reunir, dentro de seus próprios quadros, seis experientes jornalistas negros.

Em 2018, entre os entrevistados que deram informações sobre sua cor, os pretos e pardos eram apenas 13,5% dos jornalistas em postos formais no estado de São Paulo, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Seus rendimentos eram, em média, 30,4% menores do que os salários pagos aos brancos.

Em 2019, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) levantou a composição racial dos colunistas dos três jornais de maior circulação no Brasil – Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo – e descobriu que os homens brancos eram 68% e as mulheres brancas chegavam a 28%. Os homens negros não passavam de 2%. As mulheres negras também ficavam em 2%.

O descompasso com o perfil geral da população brasileira é brutal. Os pretos e pardos chegam a 56,4% dos brasileiros. Nos Estados Unidos, a situação é muito menos desigual. Dados da News Leaders Association, associação de imprensa norte-americana, revelam que os negros representavam 7,12% dos funcionários das redações em 2019.  Os negros representam pouco mais de 13% da população norte-americana.

Há um abismo entre a representatividade de pessoas negras na imprensa brasileira e na imprensa norte-americana. Esse quadro ajuda a explicar por que uma parte dos veículos de lá cobre o assassinato de um homem negro como George Floyd de forma combativa, enquanto a imprensa daqui cobre casos semelhantes de modo burocrático e acanhado. Outra parte da explicação, e talvez a mais relevante, tem a ver com o modo como o racismo é definido no debate público pelos dois países.

“O racismo é moralmente condenável porque atribui a um indivíduo particular características tidas como representativas da categoria a que ele pertence. O racista tira conclusões sobre pessoas sem conhecê-las, o que é profundamente injusto e frequentemente fatal, como se constata nas abordagens policiais de negros nos Estados Unidos ou no Brasil.”

O trecho acima foi retirado do artigo Racismo, Passado e Futuro, escrito por Hélio Schwartsman, colunista da Folha de S.Paulo. Seu raciocínio é impecável. Poderia ser usado para explicar a um forasteiro a lógica do pensamento brasileiro sobre o racismo: um comportamento moralmente reprovável de indivíduos em relação a outros. Assim sendo, a educação moral das pessoas bastaria então para resolver o problema.

Acontece que, nesse angu, há caroço.

Circunscrever o racismo ao universo comportamental tranquiliza alguns ânimos, distribui algumas culpas e mantém tudo exatamente como sempre foi no passado e, a seguir essa toada, assim continuará sendo no futuro. No Brasil, o movimento negro ainda luta para que o país reconheça o racismo sistêmico.

Nos Estados Unidos, o debate é outro. Enquanto nos comovíamos com jornalistas e artistas detalhando dolorosos episódios pessoais de racismo, alguns deles inclusive enfatizando a importância da educação como mecanismo individual de superação, as redações dos grandes veículos norte-americanos pegavam fogo.

Na Filadélfia, o editor-executivo do jornal The Philadelphia Inquirer deixou o cargo depois de fazer uma zombaria infame com o Black Lives Matter (Vidas negras importam), nome do principal movimento negro norte-americano, ao publicar uma manchete na qual se lia “Edifícios também importam”.

(Guardadas as óbvias proporções, o caso lembrou a manchete de capa do jornal O Estado do Maranhão, em sua edição de 4 de junho, que dizia “Todas as vidas importam”. O jornal se desculpou e afirmou: “O Estado reitera que, em sua trajetória de 61 anos e mais de 20 mil edições, sempre se pautou pela defesa da igualdade de direitos entre os cidadãos, mantendo-se antenado com as questões sociais do Maranhão, do Brasil e do mundo.”)

No Pittsburgh Post-Gazette, uma repórter e um fotojornalista, ambos negros, foram afastados da cobertura dos protestos antirracistas porque seu editor considerou que não eram suficientemente neutros para fazê-lo. Alexis Johnson, a repórter, postara em rede social um texto irônico – e irado – em que comentava cenas “horríveis” de saques durante os protestos antirracistas. Na verdade, as cenas mostravam um estacionamento vandalizado depois de um show de Kenny Chesney, cantor country, um gênero musical associado à cultura branca.

O editor-executivo do jornal, Keith C. Burris, depois de afastar a repórter da cobertura, ainda achou que era o caso de lhe dar uma aula de ética jornalística. Em sua coluna, escreveu que, quando um jornalista opina sobre uma pessoa ou uma história que está relatando, seu trabalho fica comprometido. Burris não contou que fora promovido alguns meses depois de escrever, em 2018, no aniversário de Martin Luther King, um editorial cujo título era o seguinte: “Chamar alguém de racista é o novo macarthismo.”

A repórter do Post-Gazette está processando o jornal por discriminação racial e retaliação ilegal. O que ela quis apontar com sua ironia foi mais ou menos o mesmo sentimento que tive ao ler a descrição de uma foto dos protestos antirracistas na capa do jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 29 de maio. Dizia assim: “Morte de negro nos eua causa violência.”

Violência cometida por quem e contra quem mesmo?

A redação do Washington Post entregou à direção do jornal um documento assinado por 454 empregados em que pedem a adoção de políticas contra a discriminação e a desigualdade na hora de contratar e promover, e também querem atualizar o manual de redação para adequar o vocabulário usado em reportagens que tratam de raça e gênero.

Na Condé Nast, que publica títulos como VogueVanity Fair e The New Yorker, jornalistas passaram a reclamar publicamente do racismo dentro da empresa. O barulho cresceu a tal ponto que a diretora editorial do grupo, Anna Wintour, que há décadas responde pela Vogue, a marca mais elitista da empresa, teve que reconhecer “erros” ao “publicar imagens e histórias” que podem ter sido “dolorosas ou intolerantes” para os negros.

A redação do New York Times reagiu quando o editor de Opinião do jornal, James Bennet, publicou – sem ter lido previamente – o artigo de um senador republicano propondo convocar os militares para reprimir as manifestações contra o assassinato de Floyd.

Os jornalistas reagiram de modo estratégico: deslocaram a questão do campo racial para o da segurança no trabalho, informando a direção do jornal que o artigo do senador colocava em perigo a vida dos próprios jornalistas do New York Times, sobretudo os negros. O artigo, mantido no site do jornal, recebeu uma nota de esclarecimento. O editor de Opinião deixou o cargo.

As redações nos Estados Unidos estão em ebulição porque se abriram, ainda que parcialmente, aos repórteres negros que estão desafiando o acordo tácito feito pela imprensa norte-americana de silenciar sobre o racismo. O colunista de mídia do New York Times, Ben Smith, conta que essa insurreição começou com os eventos de Ferguson, a cidade no estado do Missouri onde Michael Brown, um jovem negro de 18 anos, foi assassinado por um policial branco em 2014.

Ben Smith diz que a geração forjada naquela cobertura incorporou à discussão questões que repórteres brancos não conseguem ou não se interessam em trazer à tona, pelo menos não com a devida ênfase. São elas: o racismo que pauta a brutalidade policial, as mentiras racistas ditas por autoridades públicas e a adoção, aqui e ali, de regras inconstitucionais para sufocar manifestações antirracistas.

A nova geração reivindica que a imprensa jogue fora os eufemismos de imparcialidade e chame as coisas pelo nome: racismo, mentira, violência – e que atire a primeira pedra o jornalista, de lá ou daqui, que nunca recorreu ao termo “suposto” para qualificar declarações aberta, inequívoca e indubitavelmente racistas, homofóbicas ou machistas.

Os jovens norte-americanos pleiteiam a troca do que chamam de “aparência de objetividade” pela “verdade”. Tenho dúvidas se o termo “verdade” é o mais adequado. Mas o que talvez esses jornalistas queiram dizer é que a pretensa objetividade da imprensa foi fundada sobre o racismo e sua normalização.

Isso ficou claro no caso do editor de Pittsburgh que acusou os repórteres negros de falta de objetividade, mas em nenhum momento duvidou da sua própria objetividade ao igualar o movimento antirracista a uma caça às bruxas.

Sem nenhuma neutralidade, o que essa nova geração de repórteres norte-americanos, muitos deles negros, está pedindo é bastante claro: refundem o conceito de objetividade jornalística de modo a incorporar a ideia de que a exclusão e a violência provocadas pelo racismo são inaceitáveis.

Não acredito que esse debate – que levou o New York Times a renegar o artigo do senador – se confunda com limitações à liberdade de expressão. O que essa geração está querendo é ampliar a compreensão coletiva de modo a fazê-la adotar a noção de que o racismo, nas ruas ou nas páginas dos jornais, é – vale repetir o adjetivo – inaceitável.

Mudanças dessa magnitude não ocorrem sem esperneio e dor.

Em fevereiro de 2018, na comemoração dos seus 97 anos, a Folha de S.Paulo, jornal onde hoje exerço a função de ombudsman, convidou o jornalista William Waack para compor a mesa que discutiria o tema “A guerra das palavras: os limites do politicamente correto”. Era a primeira vez que o escutava desde seu desligamento da Globo, ocorrido em razão do vazamento de um vídeo em que, irritado com a buzina de um motorista, disse que aquilo era “coisa de preto”.

Waack discorreu sobre o assunto proposto e aproveitou para comentar um livro que lera recentemente, O Progressista de Ontem e o do Amanhã, escrito pelo cientista político Mark Lilla, professor da Universidade Columbia. Fui atrás do livro. Nele, Lilla afirma que “o liberalismo identitário baniu a palavra ‘nós’ para os confins mais distantes do discurso político respeitável”.

Seu argumento central é que parte dos progressistas abandonou a visão universalista, segundo a qual os cidadãos eram divididos por classes (pobres e ricos, ou trabalhadores e capitalistas) em favor das questões de identidade, que mais dividem do que unem.

A pauta “identitária”, diz Lilla, é extensa e inclui não só as reivindicações de negros em oposição a brancos, mas também das mulheres em oposição aos homens, das mulheres negras em oposição às mulheres brancas, do movimento LGBTQI em oposição à heteronormatividade e assim por diante. O autor, seguindo um discurso ecoado pela esquerda, pela direita e pela imprensa brasileiras, diz que é preciso retornar ao que temos em comum: a cidadania.

A questão é que o racismo e a brutalidade policial resultam o tempo todo na violação dos direitos, sobretudo civis, da população negra. E demonstram que a cidadania liberal é incapaz ou indisponível para funcionar de maneira universalista. A explicação é do sociólogo Márcio Macedo, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP).

Entendo o desconforto de Lilla, da direita ou da esquerda.

“A casa-grande surta quando a senzala vira médica”, disse a primeira colocada no vestibular para medicina da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto. A garota, negra, foi entrevistada pela Folha em fevereiro de 2017.

Diante da repercussão da reportagem, o jornalista Leandro Narloch, autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, escreveu um texto a respeito em sua coluna na Folha, no qual reconheceu que a menina conquistara uma “bela vitória”, mas dissera uma “insensatez”. Com ironia, ele escreveu: “Deixa eu tentar entender essa visão de mundo. […] Se alguma notícia da tevê mostra redução de pobreza no país, o brasileiro rico esmurra seu sofá da casa-grande.”

Narloch não entendeu que esse mesmo brasileiro pode pedir que a proposta de regulamentação do trabalho doméstico não avance, pois essa seria uma função pautada pelo afeto e em relação à qual não cabe intervenção do Estado.

Também pode dizer que não tem mais esse negócio de câmbio a 1,80 real, com o qual até empregada doméstica vai à Disney, uma festa danada. Ou então deixar que um menino de 5 anos se vire sozinho dentro de um elevador. Para que esmurrar o sofá?

A garota entendeu tudo. “Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidades de vida iguais”, disse ela.

Pinçadas na mídia, algumas interpretações do que somos (um povo afetivo, irreverente e brincalhão cujo esforço é recompensado de acordo com seu empenho) mostram que não há como exigir uma compreensão mais abrangente do problema sem fricção.

E isso o próprio William Waack veio a comprovar recentemente.

No oitavo dia consecutivo de protestos antirracistas pelo assassinato de Floyd, a CNN Brasil fez um debate sobre o assunto. Entre os convidados, estava a ex-consulesa francesa no Brasil, Alexandra Loras, que é negra. A certa altura, Loras criticou a emissora por escalar William Waack para coordenar tais debates e defendeu que a CNN incluísse especialistas negros, que poderiam discutir o tema de modo mais aprofundado e sob uma perspectiva antirracista.

Um mês antes de participar daquele evento da Folha e falar sobre o livro de Lilla, Waack escrevera um artigo de opinião em que dizia que não era racista e que sua obra era a prova disso. Segundo ele, constituiria um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento, e arrematou: “Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.”

Pensadores verdadeiramente racistas são sempre os outros.

Rosane Borges, jornalista e pesquisadora do Centro Multidisciplinar de Pesquisas em Criações Colaborativas e Linguagens Digitais (Colabor), da USP, afirma que a imprensa brasileira poderia ter reposicionado o racismo no debate político brasileiro se tivesse tratado o assassinato dos meninos de Costa Barros com a gravidade que exigia.

Em novembro de 2015, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cinco jovens negros foram mortos dentro de um carro com 111 tiros disparados por policiais militares. Os garotos haviam passado a tarde em um parque comemorando o primeiro salário de um deles. Depois de voltarem para casa, decidiram sair novamente para comer alguma coisa. No trajeto, o carro em que estavam foi metralhado pela PM. Costa Barros é um microcosmo do que o Brasil tem de mais violento. É uma região de famílias destruídas, de tristeza, de pobreza, de solidão.

Quando noticia essa violência, diz Borges, a imprensa não faz a conexão entre os acontecimentos cotidianos e a estrutura racista do Estado. Ignora que vigora no país um processo de segregação não institucionalizado: a taxa de homicídio entre jovens brancos do sexo masculino é de 63,5 por 100 mil. Entre jovens negros, é de 185.

Ao longo do século XX, ao narrar a história de seus meninos negros, a imprensa povoou o imaginário das classes médias com “pivetes” e “menores abandonados”, diz Matheus Gato de Jesus, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Jornais e tevês fundiram a imagem dessas crianças com a de grandes arrastões e levaram parte significativa das elites e classes médias a ansiar sempre por mais punição.

Não há risco de dar certo.

E se o racismo dá nome à estrutura sobre a qual fundamos a nossa sociedade, não é só a segurança pública que exige uma resposta nova da imprensa. Juarez Xavier, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, diz que não é possível discutir concentração de renda, organização do Estado, saúde, educação e cultura sem discutir racismo.

A quem interessa pensar em um Estado mínimo quando existem, como está nos ensinando a pandemia, 38 milhões de brasileiros fora do radar das políticas públicas, invisíveis ao olhar do Estado, numa herança direta da escravidão?

Em Sobre a Televisão, o sociólogo francês Pierre Bourdieu vê a tela como um espelho de Narciso. Os jornalistas, diz ele, têm óculos especiais a partir dos quais veem certas coisas e não outras. É possível dizer que esses óculos especiais seguiram uma tradição e cumpriram uma função bem específica na cobertura da questão racial no Brasil: a reprodução do racismo. Não são conexões simples de se fazer. Falo porque estive numa redação escrevendo por tempo suficiente para entender que nós, jornalistas, precisamos de lentes novas.

Como as redações brasileiras são espaços que reproduzem, do ponto de vista racial, a composição de classes mais altas, a miopia para o problema da desigualdade racial é generalizada. Ainda não tivemos nossa Ferguson. Ainda não se entende a diversidade como um meio capaz de ampliar a visão e a perspicácia dos meios de comunicação nas coberturas.

Se a mídia tradicional não enxerga o problema (ou não quer vê-lo), as redes sociais já mostraram que estão prontas para pautá-la. A despeito da desaprovação de seus chefes, os jovens repórteres negros norte-americanos têm usado as redes sociais para expressar suas opiniões sobre raça e jornalismo. Foi nas redes que circularam os vídeos em que ativistas em ações pacíficas desafiaram a narrativa da grande imprensa inclinada a criminalizar o movimento antirracista.

No Brasil, as chamadas mídias alternativas – Alma Preta, Portal Geledés – cumprem uma função importante ao abordar com interesse e propriedade temas ainda negligenciados pela mídia tradicional. A própria imprensa tradicional não está parada, mas o processo iniciado por tevês e jornais brasileiros é de uma timidez alarmante, sobretudo quando comparado com o que se passa dentro das redações dos Estados Unidos.

Os movimentos das últimas semanas permitem dizer que o conceito de racismo estrutural começa a orientar a opinião pública, dando a dimensão do modo como a questão racial impacta na construção de desigualdades. Em contraposição, já há quem diga que o antirracismo é uma força social que suprime a individualidade e se transforma em ameaça aos negros que não seguem a cartilha “ortodoxa” de negritude, aponta Flávio Thales Francisco, professor da Universidade Federal do abc (UFABC).

“Esse antirracismo funcionaria como uma ofensa aos negros que valorizam a individualidade, como se fosse possível oferecer antirracismos à la carte para não ferir sensibilidades.” O resultado dessa disputa pode ser uma representação esvaziada, com alguns poucos negros sendo chamados a falar em momentos considerados especiais.

Ainda assim, George Floyd fez pela cobertura sobre raça na imprensa brasileira muito mais do que a própria imprensa se dispôs a fazer ao longo de décadas. Serão necessárias semanas, talvez meses, para entender se a centralidade obtida pela questão racial com a morte de Floyd é apenas retórica ou se vai resultar em mudanças mais profundas. Lá fora, há sinais de que os norte-americanos avançam dentro e fora das redações, onde as manifestações progridem em busca de reforma das polícias. A disputa é política e só está começando.

FLAVIA LIMA é jornalista, ombudsman da Folha de S.Paulo. Foi repórter de economia no Valor Econômico, BloombergGazeta Mercantil

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