É preciso festejar

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Por João Sabali

Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido. – Fernando Pessoa

 Filha da puta. Filha da puta. Eu só tava tentando ser cortês e o filha da puta vem dizer que eu sou submisso? Olha o submisso dizendo aqui ó, com todas as letras: seu filha da puta. E agora? E agora fudeu, minha senhora. Essa frase, é uma rima né, eu tinha aprendido com o Don Alfredito, o fazendeiro vivo mais antigo de Corumbá, a pessoa que mais conhece do assunto quando o assunto é a fronteira do Brasil com a Bolívia. O pai do do Don Alfredito era amigo do gerente do Banco do Brasil de Corumbá lá nos anos 30 quando a Coluna Prestes aterrorizava o interior do Brasil, sobretudo os banqueiros do interior do Brasil, e foi ele que socorreu o gerente quando o pobre homem  soube que a turma estava chegando em Corumbá pra limpar os cofres do banco. Don Alfredo, o que eu faço? Eles vão levar tudo, Don Alfredo. Don Alfredo, como era de seu feitio quando o assunto era dinheiro e a ameaça de perdê-lo, não se abalou: deixa em casa. O gerente então atravessou a fronteira em direção a Bolívia e na propriedade de Don Alfredo em Puerto Quijarro pegou a pesadíssima chave de cobre e abriu  a porta no assoalho de madeira escura para ali depositar toda a reserva do único Banco do Brasil do Centro Oeste brasileiro. Deve ter sido assim que a dinastia de Alfredos, Alfreditos e e Alfreditos Neto ficou tão rica. E agora? Agora fudeu, minha senhora, deve ser isso que a turma da Coluna Prestes pensou quando se deparou atônita com a cena do cofre totalmente vazio, ainda antes do advento do alarme. Vai saber como funcionava o mundo antes do alarme. Antes Que O Alarme Toque, puta título prum livro. Antes Que o Alarme Dispare talvez soasse melhor. Que seja. Que seja. Eu sempre tolerei tudo no trabalho, na vida e no trabalho, sempre fiz de tudo para não reclamar. Um tolerante, é a isso que eu dediquei minha vida: a tolerar, a não encher o saco dos outros a não ser que a situação se apresentasse insuportável. Isso não devia ser o suficiente? Não: um submisso. Era disso que eu era chamado. Quantas vezes não aguentei o ar condicionado mais frio do que minha dor de garganta crônica suportava, quantas vezes não segurei a porta por mais tempo do que deveria apenas para esperar aquela pessoa que vinha do outro lado do corredor e ter a certeza que a porta estaria aberta quando ela se aproximasse e lamentasse que ela apressasse o passo para aproveitar que eu segurava a porta mesmo porque eu não queria que ela se apressasse, eu seguraria a porta até ela chegar em seu próprio ritmo? Quantas vezes eu não peguei a coxa de frango mais feia e escura apenas para deixar a parte mais branca e tenra por dentro e mais dourada e crocante por fora para meu colega de trabalho que vinha logo atrás de mim na fila do refeitório?  Agora é de noite e eu estou no acostamento da Transoceânica, o olhar grudado em uma cruz. Transoceânica é o nome da rodovia que dizem ser o caminho mais curto entre o Oceano Pacífico e o Atlântico, o caminho mais curto pros bolivianos escoarem seus produtos pro Atlântico, já que eles perderam qualquer tipo de saída pro mar no instante que cometeram a decisão de apoiar o Paraguai na guerra contra o Brasil, o Uruguai e a Argentina. Foram massacrados junto com os paraguaios: aliás,  e esse pensamento vira e mexe voltava à minha cabeça, a agradabilíssima avenida Cerro Corá no coração, na própria essência da zona oeste de São Paulo era uma referência a essa guerra: a Batalha de Cerro Corá foi a última batalha da guerra do Brasil contra o Paraguai. Eu lembrava de ter ouvido nas aulas de História do colégio que o Brasil tinha acabado com o Paraguai nessa guerra, mas não lembrava de ninguém ter dito que uma das ruas mais famosas da zona oeste da cidade de São Paulo, que inclusive ficava perto do meu colégio, homenageava um massacre. Em guarani, Cerro Corá significa cercado de colinas e foi nessa região verde e cheia de montanhas que o Brasil terminou de fulminar as forças paraguaias. 4.500 soldados brasileiros dizimaram o que restava de 450 mulheres, crianças, velhos, inválidos e soldados  paraguaios. O Último Suspiro Paraguaio, ótimo nome  prum romance ou pra uma novela de enredo inimaginável, pelo menos por enquanto. Dizem que é por isso isso que hoje em dia o Paraguai tem tantas mulheres. Que seja. Meus olhos não piscam e estão grudados na cruz, iluminados pelas três velas que eu acabei de acender, a única fonte de luz em muitos quilômetros: três velas brancas, a cruz e a foto do meu filho equilibrada em uma composição sem muito apelo estético, ainda que altamente elegante e indubitavelmente sincera, o que era tudo que eu podia querer e talvez só o que restasse a mim e a todos os outros pais que de repente se veem obrigados a conviver com uma reprodução em duas dimensões e em miniatura do filho no pé de uma cruz na beira da estrada de noite em vez de sua versão original respirando e transpirando e envelhecendo enquanto assiste televisão no quarto.  Um sedã novo passa zunindo atrás de mim. Reparo na sombra de um tamanduá enorme que se encontra estatelado e com seu corpo rígido e parcialmente ensanguentado virado pro lado a alguns metros da cruz. O Pantanal nos dois lados da estrada, atrás da cruz, das três velas e da foto do meu filho. Um imenso matagal alagado e escuro se estende atrás da foto, uma quantidade se não infinita certamente incalculável de jacarés à espreita, com apenas os olhos e uma parte da sua couraça pré-histórica pra fora da água. Certa tarde notei que meu irmão, tio do meu filho, tinha ficado louco. Não sei o que foi, mas durante uma tarde de terça-feira em que ambos estávamos desempregados e desocupados na casa de minha mãe ele virou o rosto de repente com o mesmo olhar de um cachorro que implora piedade. Perdido. Dava pra ver no seu olho. Pelos 10 minutos seguintes manteve seu olhar fixo e obsessivo e estranhamente longo mas tão inofensivo e clemente quanto podia ser.  Seu olhar de 10 minutos durou pra sempre. Meu filho cresceu dizendo que o seu tio era a melhor pessoa do mundo. Até que um dia eles brigaram e eu nunca vou esquecer que o momento que meu irmão segurava meu filho pelo colarinho e cuspia de raiva a cada palavra que urrava foi a única vez que eu o vi com seu antigo olhar desperto e curioso de novo. Não durou muito, mas foi bonito.

*João Sabali é jornalista e escritor de São Paulo (SP).

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