Drummond responde ao presidente da CVRD: “A Cia. reconhece que os itabiranos têm razão, mas é para que fiquem bonzinhos.”

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Por Carlos Drummond de Andrade 

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…E perto do governo

A crônica “Longe das minas”, desta coluna, e a reportagem de Antônio Crispim, que o “Correio” divulgou pouco depois, atingiram o alvo: provocaram da Cia. Vale do Rio Doce uma carta de esclarecimentos, em que há este “mea-culpa” muito abonador da consciência das sociedades anônimas: “não podemos deixar de reconhecer a justiça da maioria das reivindicações do povo de Itabira, a favor de sua cidade, onde está situada a principal fonte de riqueza da Cia. Vale do Rio Doce, tanto mais quanto, nos últimos anos, os nossos relatórios proclamam os magníficos resultados financeiros obtidos com a exportação do melhor minério de ferro do mundo.”

Infelizmente, a Cia. reconhece que os itabiranos têm razão, mas para pedir-lhes que fiquem bonzinhos, à espera das realizações programadas em benefício da cidade, “algumas das quais já em vias de execução”. E enumera nove itens de “realizações”, não distinguindo, porém as que se acham efetivamente em andamento, das que dormem o sono dos projetos.

Note-se que alguns desses serviços são de puro interesse da empresa, como a construção de maior número de casas para operários e técnicos, que ela tem de instalar razoavelmente, incluídas as despesas no custo da produção; ou atendem Itabira naquilo que não pediu, como por exemplo a comunicação com cabo submarino da Western, em Vitória.

Os itabiranos ficarão muito orgulhosos de dispor de um cabo submarino à distância, mas o que eles querem mesmo desde já, minha cara (esperam há quinze anos) é água, esgoto, energia – essas energias que a Vale do Rio Doce tem para o seu uso, fornecida pelo Estado, mas de que a população não se utiliza. Afora outras miudezas, que dão lustro e mérito a uma cidade.

Não nega a Cia. que em 1953 exportou minério em valor passante de 500 milhões de cruzeiros, e que daí só adveio para o município fornecedor dessa mercadoria a renda tributária de um milésimo. Mas acrescenta que boa parte daquele dinheiro (62 milhões) se aplicou para o bem de Itabira.

Em quê? Em ordenados, pagamento a empreiteiros, nas sempre faladas casas para residência de pessoal, etc. Será isso benefício específico à cidade ou à região, ou mero gasto de exploração industrial, que toda empresa é compelida a fazer (inclusive donativos) se quer realmente produzir e ganhar dinheiro?

Ora, a Cia. bem sabe que quando pedimos maior atenção da Vale do Rio Doce, e a sede das minas em particular, o que temos em mira são aqueles benefícios de interesse comunitário, civilizador e humano, que demonstrariam, não apenas o seu senso comercial, mas também a sua compreensão elevada do moderno conceito social de empresa – e empresa com responsabilidade dupla de ser uma projeção do Estado no campo econômico.

E essa segunda parte – desculpem – ainda não foi demonstrada. Esperemos que o seja. A utilidade nacional do empreendimento não é posta em dúvida: deseja-se apenas, nesse quadro amplo, situar interesse legitimo da região.

Mas o ponto essencial não foi tratado como esperávamos, e é saber se a Vale do Rio Doce está ou não disposta a cumprir seu estatuto, na parte que diz: “o lugar da sede administrativa da Cia. é Itabira”. Havia duas razões, de resto curiosas, mas estatutárias, para reter a direção geral no Rio, por algum tempo: esperava-se que as minas ficassem aparelhadas, e a Vitória a Minas se reconstruísse.

Cumpridas que estão as duas condições – e a carta da Cia., a esse respeito, moitou, isso é, confirmou – não se compreende que a grande cabeça da Vale do Rio Doce continue a funcionar longe do corpo.

Mas a carta informa: “a questão da transferência da Administração Central do Rio de Janeiro para Itabira, Belo Horizonte ou outra cidade de sua zona de ação ou influência, está sendo estudada cuidadosamente e de acordo com as diretivas do governo. O problema será resolvido levando em conta os interesses do país, da Cia. e as possibilidades das diferentes cidades naturalmente indicadas para esse fim.” Leia-se nas entrelinhas: a direção irá para qualquer parte, menos… para onde devia ir.

Louvado seja Deus, como é possível falar em “problema”, com referência a algo que o estatuto prevê e resolve de maneira taxativa? Seria assim como estudar o “problema” da autonomia dos Estados que a Constituição regula.

Transferir a direção para Belo Horizonte ou outra cidade da “zona de influencia” da Cia. não é resolver problema, é criá-lo, ferindo o estatuto, o bom senso e a justiça. A “zona de influência” da Cia. a bem dizer, é hoje o universo mundo, tornado tão pequeno pela intercomunicação geral e pela extensão dos interesses políticos.

Por esse andar, a Vale do Rio Doce pode muito bem instalar-se “naturalmente” em Capri ou numa ilha amena dos mares do Sul. Mas o que lhe apraz, segundo se infere do comunicado, é estar “junto à sede do governo”, isto é: longe das minas, perto do governo. Os itabiranos não querem mal ao governo, mas acham que assim já é ingratidão demais.

C.D.A.

[Correio da Manhã, 28.4.1955. Acervo da Biblioteca Nacional-Rio. Pesq.mcs1375]

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2 Comentários

  1. Cristina Silveira, A Velha sem Esperança em

    E finalmente não aprendemos nada com a importância que o poeta deu à Itabira. Agora brigam por ele e briga sem nenhum fundamento real, inteligente. Finalmente: estamos ferrados!

  2. Mauro Andrade Moura em

    E o Poeta Cronista previu o futuro ao dizer que a Cia. poderia muito bem instalar sua administração em Capri ou alguma ilha dos Mares do Sul.
    Sim, a tal mineradora nos anos 80, sob a batuta do lagoense novaerense Eliezer Batista, instalou a CVRD Internacional na Bélgica, nos tais Países Baixos e reconhecida região de paraíso fiscal internacional.
    Por lá andou o Eliezer a fazer negócios em nome da CVRD, transferir recursos e mesmo recebe-los por lá a título de frete/transporte.
    E o Pres. Figueiredo deixou o Brasil e brasileiros a ver navios no céu…

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