Drummond pede para a Vale deixar o ouro do Pontal para os garimpeiros de Itabira

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Carlos Cruz

É bem possível que ainda exista ouro incrustado no itabirito friável, não se sabe se também no itabirito compacto, nas minas de Itabira. Se para a Vale a extração e o beneficiamento desse metal precioso continuar sendo “um problema”, basta que deixe como legado para exploração futura pelo município.

Foi o que defendeu, inclusive, o cronista Carlos Drummond de Andrade, que acompanhava as notícias do garimpo de Itabira pelas páginas do jornal O Cometa.

Em 22 de outubro de 1982, em sua coluna no Jornal do Brasil, na crônica Chove ouro em Itabira, o cronista ironizou em tom de reivindicação, como se fosse a Vale falando num lampejo de generosidade com a cidade onde nasceu:

O garimpo impactou o bairro Bela Vista, mas muitos moradores não se incomodaram com a frente de trabalho (Fotos: Eduardo Cruz)

“- Em rala compensação pelo que tiramos do município, em 41 anos de sucção da sua riqueza, vamos ajudar os garimpeiros! Vamos dar-lhes assistência sanitária e um servicinho de prevenção de acidentes, e facilitar-lhes a sindicalização!”

“A egrégia Câmara Municipal, comovida com esse rasgo de generosidade, baterá palmas:

– Bravos! Muito bem! Até que enfim, ilustre Companhia, a senhora se lembrou de dar alguma coisa, em vez de tirar da gente!”

Drummond, o filho mais ilustre de Itabira, que nunca se esqueceu de lembrar de sua terra natal, contou aos seus leitores de todo o país como foi que apareceu o ouro na grota do Minervino.

Para os pobres, tudo que é bom cai do céu; o resto fica por conta da falta de sorte, ou do Diabo. Na verdade, o ouro de Itabira não baixou das nuvens; simplesmente vem incrustado no rejeito de ferro explorado por uma grande estatal, a Companhia Vale do Rio Doce.”

Jovens desempregados viram no garimpo uma fonte de renda extraindo ouro do rejeito da Vale

E prosseguiu o cronista itabirano:

“A empresa sabia do ouro e estudara a fundo a possibilidade de explorá-lo economicamente. Concluiu que não era rentável, e deixou-o rolar serra abaixo, depois de montar uma usina destinada a elevar o teor ferrífero do itabirito, última reserva de minério a substituir a hematita exaurida.”

E, como Antônio Alves de Araújo, o cismado Tutu Caramujo, ex-presidente da Câmara e prefeito de Itabira (1869/72), que já cismava com a “derrota incomparável”, Drummond viu a Vale se preparando para deixar a cidade onde nasceu e cresceu para se tornar uma das maiores mineradoras do mundo.

“E manda-se progressivamente para Carajás, legando a Itabira o espetacular vazio de sua paisagem e umas migalhas de ouro (cerca de 50 miligramas por tonelada de rejeito). Já não é grande empregadora, e sim empresa cautelosa que se retira, em busca de paragens mais rendosas.”

Gente humilde

Na garganta profunda, milhares de itabiranos desempregados, e garimpeiros de fora, encontraram o sustento momentâneo

Na grota do Minervino, a “garganta” chega a ter mais de 30 metros de profundidade. Como o ouro é mais pesado que o rejeito de minério, é bem possível que tenha muito “rejeito de ouro” por lá, sedimentado no fundo da garganta profunda.

São milhões de toneladas de rejeitos que ainda podem ser explorados. E se em todo esse rejeito ainda existir 50 miligramas de ouro, que depois virou mais de 700 quilos explorados por mais de uma década pela Vale, e se a empresa achar que não é viável a sua exploração, devolve para os garimpeiros itabiranos, como reivindicou o cronista Carlos Drummond de Andrade.

“A Vale do Rio Doce é próspera e pode se dar ao luxo de deixar à gente humilde de Itabira aquilo que não lhe interessa”, propôs Drummond nas páginas do JB. “Chove ouro no Pontal. Chuvinha fina, mal dá para molhar, mas consola muita gente. Deus a conserve, e se não implicarem com ela, tanto melhor.”

 

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